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RICARDO_PAULA_os_sonhos_e_os_desenhos_no_ceu

 

No silêncio, procuro a palavra certa
para dizer seu nome sem que ouçam.
Desenho seu rosto, usando os dedos como pincéis,
e o ar em volta é minha tela.
Canto a canção secreta que temos como prece
e todos os outros deuses estão mortos.
Solitário, meu suor escorre,
e o trabalho que exerço é o de viver com sua ausência.

 

MARCOS SILVA

Imagem: Ricardo Paula, “os sonhos e os desenhos no céu”

 

TÍTULO

silêncio

Qual seria o título da postagem de hoje?
Qual seria o tema do poema, do conto, da história não contada?
Das histórias copiadas, repetidas, inventadas, mentidas?
Sobre o que falariam as palavras, as letras, os sons, os silêncios?

Sei que, vendo a vida em volta, sinto apenas que não pertenço:
Não pertenço ao mundo, à mim, à história.
Sou a vontade do esquecimento, sou a ausência da vontade.
Incapaz, sempre, de qualquer coisa que seja, qualquer vitória.

Os cães, lá fora, não conhecem os poemas, as palavras.
Os pássaros, em seu canto, em seus cantos, desconhecem a música.
Inventamos tudo para que, até as coisas e os animais, se pareçam conosco.
Não somos deuses e nos arvoramos a ser.

Torno a pensar no título do poema que não existe
e que, aqui, estará publicado…
Como escrever (sem letras, sem sons…)
as coisas, as vontades, os sentidos de cada um?

Com silêncios?

MARCOS SILVA

CASAMENTO

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Em seu branco traje fúnebre
a noiva sob a terra sente
seu coração palpitar.
É escuro o que vê, é breu o que há.
É o amor que está lá?

A madeira estala,
prestes a romper-se,
e pequenos insetos
insistem em sobre ela caminhar.
É o amor que está lá?

Vermes das covas vizinhas
já começam a rastejar
e, com barulhos loucos,
insistem em novos idiomas inventar.
E o amor: está lá?

Ela aperta os dedos
e sente o ramalhete de flores,
agora murchas e negras,
seu odor espalhar.
E o amor, está lá?

Ontem, na feliz esperança
dos que se beijarão no altar,
sentia nos lábios a úmida
boca do seu amor a falar:
“Meu amor sempre estará…”

Não chegou a dizer o sim.
Nem sua grinalda desfilar.
Apenas o fundo da terra, agora,
seu vestido irá apreciar.
É o amor que a está a acompanhar?

Embaixo da terra, vítima da aflição,
sente o suor em seus poros gotejar
e sua roupa é um manto
de barro e fedor a lhe pesar.
É o amor em sua pele a deslizar?

Sem conseguir os braços descruzar,
sem conseguir se movimentar,
a noiva vestida em dor e renda,
sente o ar aos poucos faltar.
Pode o amor, agora, falar?

De olhos fechados,
imagina o sorriso alvo do amado,
que sem que ela saiba explicar,
ontem à noite a trouxe para cá…

MARCOS SILVA

DIAS

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Trinta anos e o corpo dela atingiu a perfeição e a beleza do corpo de mulher: curvas generosas; a pele lisa, num tom entre o dourado e o bronze; caminha como se ouvisse música, sua roupas dançando, lentas e breves, sobre quadris bem definidos e sobre seios arredondados e simétricos. Há um misto corporal de beleza, atração e anatomia, mas o olhar atento  dele se aprofunda nos contrastes: o sorriso branco e os cabelos negros.

O sorriso reluzente traz brilho até mesmo às palavras que brotam de seus lábios escuros. Os dentes brancos, evidenciados entre os cabelos extremamente negros, lembram o brilho da lua cheia nas noites sem cidades. A noite destes cabelos negros são a escuridão da primeira noite do homem, em tempos imemoriais, abraçado ao temor e ao fascínio dos sonhos.

Neste instante, não há lua, nem sonhos. O que há são os dois, dentro de um carro, conversando com suavidade e precisão, em quase sussurros, quase mímica. Ele segura a mão dela e o sol aquece seus dedos. Os cabelos negros dela, como uma pantera negra, deslizam sobre seus ombros nus.

O suor brota pelos poros e as mãos úmidas desejam o frescor do mergulho. Os dedos dele esquiam em breveza e suavidade sob a pele e depois embrenham-se por entre os longos fios negros. Seus corações  são trovões que se procuram. Após surfar entre os fios, a mão dele pressiona a nuca dela, e seus dedos mergulham no suor que escorre por seu pescoço. A pressão exercida é suficiente pra ser chamada de delicada e forte.

Puxa-a para perto. Os rostos próximos, as bocas a milímetros uma da outra, os hálitos mesclam-se. Pausa. Olhos se encaram e eles se veem, num espelho, no olho do outro. Não há dúvidas.

Beijam-se.

As salivas, as línguas e o sol se misturam numa dança que é o prefácio de dois corpos que se buscam. O primeiro capítulo é a pintura do corpo dela, nu sob luzes artificiais, a ser admirado pelos olhos negros dele. No ar, tensão e tesão. Duas pessoas se reconhecendo pela primeira vez ao assumirem sua nudez para o outro; cada corpo, no ato amoroso, se tornando um planeta a ser desbravado e compreendido. Rotas a serem descobertas, vales a serem inundados, perigos e quedas, fome e sede e, por fim, oásis e gozo. A pele nua: um mapa aberto para o outro.

Deitada, todos os detalhes de seu corpo se mostram à um teto de espelhos que os duplicam e a este amor. A beleza do corpo, antes oculta pela roupas, mostra agora aréolas que são como setas indicando o céu, o sonho, a ascensão. Movendo as coxas firmes ela tenta ocultar os lábios escarlates que são parcialmente vistos, logo abaixo de um púbis de pelos escuros que brotam como um jardim sobre a pele parda.

Ele está em pé. Atento, decorando detalhes inéditos. Ao abaixar-se, apalpa a planta do pé direito dela que, surpresa, puxa para si a perna. Depois, confiando, sente a mão dele deslizando para cima e deixa sua perna deslizar como uma duna que se desmancha, indo ao encontro dele. Sente a pressão de mãos fortes pressionando cada curva de sua perna, os vãos atrás do joelho, as partes de trás da coxa. Ele ergue a perna dela, aproximando-a de seu rosto, e desliza a boca sobre a pele. Sorve todo o perfume da pele dela e encara, nítido, o sexo dela.

Em movimentos lentos e constantes, ele desenha com a língua um rastro por todo o interior das pernas dela, até mergulhar entre as coxas. Seus lábios buscam o interior das coxas, o recôndito úmido antes oculto, e começando com um beijo suave, logo é um banquete guloso que se segue. O toque de língua é feito com o zelo de quem descobre e memoriza. Ela se contorce com força, apertando a cabeça dele entre as coxas, obrigando-o a segurar a respiração. Com a unhas ela lhe risca a nuca.

Depois do tremor, o corpo dela se aquieta. E ele, respirando, passa a marcá-la com beijos e sopros suaves a partir do púbis, subindo pelo ventre. Nos seios, para. Encara os bicos morenos. Acaricia-os. Beija. Mordisca. Então, pescoço, nuca, orelha, boca. Beija-a com força. Sobre ela, encara seu olhar.

Ela segura a respiração, imaginando a penetração que virá em breve. Ele, porém, a segura firme e a coloca de costas. Se deixando levar, sente a boca dele seguir seu caminho por suas costas. Chegando ao cóccix, ele desliza a língua por entre a divisa de suas nádegas. Suas mãos apalpam a bunda firme e ele observa os cabelos negros dela jogados de lado.

A bunda dela se movimenta no ritmo da respiração, num sobe e desce suave. Ela ergue um pouco mais a bunda e a língua dele desliza e molha de saliva morna o cu. Ela arqueia-se. Ele torna a molhar o orifício, que se contrai. Mantendo nesta posição el enfia a língua dentro da buceta dela, que abre-se como flor. Ele tem sede. Erguendo os quadris dela, força com a mão as costas dela, mantendo os seios apertados contra a cama.

Nesta posição, penetra-a com calma, sentido cada milímetro do interior dela, rompendo caminhos, realizando sonhos. Depois de completo dentro dela, ele pausa em seu interior por alguns para sair lentamente e tornar a entrar, como se desejasse reconstruir este primeiro contato pela eternidade. Os movimentos são como uma dança de fogo e de almas. Forçam-se um contra o outro, em movimentos cada vez mais fortes.

São apenas um, agora. O gozo, esta busca, é o encontro com a essência de cada um consigo mesmo e com a importância do outro. O sexo, parte do caminho.

Então ela se liberta, o empurra para a cama, deitando-o. Encara seus olhos negros e, sentando-se sobre ele, seus cabelos caído em seu peito, se movimenta com a força de um desejo que não se limita ao gozo: é uma busca pela própria essência. O suor dos corpos desliza sobre a pele e o cheiro de suor e sexo é um perfume que aumenta o desejo.

No fim, deitados um de frente para o outro, se encaram. A liberdade dos corpos que se conectaram os levou à um voo sem limites. Deu a eles, de novo, o gosto pela vida.

Ele encontrou, nela, a alma. Ela encontrou, nele, as asas.

O voo salvaria a ambos…

MARCOS SILVA

O FIO

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            No começo, ele pensou que era um cisco.
Acordou com a vista direita embaçada, parecendo que o olho raspava contra uma lixa toda vez que girava para ver alguma coisa. Levantou-se achando que era um resto de sono: água resolveria.
Jogou água com uma mão, depois com as duas, enfiou o rosto sob a água, tomou um banho e ficou olhando pra cima, de olhos abertos.
A sensação persistiu.
Era como se areia fina ou um pequeno inseto insistisse em deslizar sobre o globo ocular.
Então, depois de lavar por quase dez minutos; de levantar e abaixar as pálpebras; de esfregar a pele contra o globo; de quase dez minutos apertando o olho pra fugir da fadiga de retirar um cisco que não conseguia localizar o ponto exato, achou que podia estar doente.
Uma conjuntivite, talvez.
Antes das oito, esfregando o olho com água, com uma toalha úmida, com água boricada, com colírio de outros tratamentos, percebeu que não conseguiria trabalhar com o olho assim.
Ligou e explicou que não poderia ir trabalhar, tinha uma consulta agendada.
O oftalmologista fez o de sempre num consultório de oftalmologia e não viu nada de errado. Receitou outro colírio.
Em casa, com o olho olhando o que não via, percebeu que não era um cisco.
Um fio, como um cabelo negro, fazia suaves movimentos em frente à sua visão.
Passou a mão pela lateral do rosto, de trás pra frente, tentando agarrar o fio que sentia estar ali; que via na visão turva; mas que não tinha certeza do que era.
Não teve sucesso.
Passou o dia inteiro, atestado com o nome do colírio na mão, tentando retirar a maldita sensação da frente do olho.
Conversou com um amigo, gozador, que sugeriu que, se era um fio, bastava cortar o cabelo que resolveria.
Depois de duas horas xingando o amigo e esfregando o olho na pia do banheiro, foi ao barbeiro.
Tinha o corte de cabelo moderno, um topete alto na frente. Chegou ao profissional e disse: “zero…”. Custou ser entendido, mas não se explicou. O barbeiro atendeu e fios negros e espessos se espalharam pelo chão.
Ele, olhos fechados, sentiu no fundo do peito que os dias se ajeitariam e que o fio sumiria.
Terminou o corte. Passou a escova de fios longos pela cabeça, pela nuca, pela testa. Pagou.
Na saída sentiu o fio dançando na sua frente.
Apertou o olho, esfregou.
Enfiou a unha.
O fio negro e áspero persistia em seu lugar, parecendo cada vez maior e mais sólido.
Em casa e deitou-se no sofá, o olho direito fechado. Mesmo assim, apesar de um pouco mais suave, a sensação de algo deslizando sobre seu olho se mantinha.
Permaneceu deitado e acabou dormindo com esperança de acordar recuperado.
Despertou e a frustração já invadiu seu peito.
O fio agora era como um verme bailarino, uma maldita odalisca que rebolava e raspava com giletes seu globo ocular.
Voltou ao médico.
Tudo se repetiu e, no exame clínico e mecânico e microscópico e tecnológico, nada se constatou.
Via o que ninguém via. Sentia o inexplicável.
Como último recurso para se eximir, o médico recomendou um terapeuta. Ele socou a mesa, jogou os exames pelo corredor e foi embora.
Em casa, levado por um táxi, seus xingamentos não cessavam e chutava tudo que via pela frente.
Deitou-se no sofá, tentou ver tv (3D exige dois olhos bons e óculos melhores… e quem não os tem?), tomou cinco banhos, lavou o olho um milhão de vezes.
Os dias se repetiram como é a obrigação dos dias.
Deixou de ir trabalhar, mesmo sem atestado.
O olho, na aparência, permanecia normal. Vermelho apenas, de tanto que ele mexia, mas sem outros sinais de doença. Sentia o fio negro dançando em sua frente, pequenas lâminas deslizando sobre o globo, atrapalhando a visão e incomodando incessantemente.
Ficava horas em frente ao espelho, a torneira ligada, encarando-se, mexendo, tentando retirar o fio.
Por mais de uma semana, o mundo lá fora permanecia igual, mas, dentro dele, o que existia, sua única ocupação e inquietação, era o maldito fio negro.
Magro, insone, não suportou mais.
Ajeitou a lâmina.
Deslizou-a sobre a pálpebra inferior, primeiramente (não queria que o sangue, escorrendo, atrapalhasse o trabalho…).
Quando terminou, o olho esquerdo encarou o oco negro e vermelho pegajoso onde antes existia o olho direito, agora dentro da pia.
Com seu único olho, encarou o espelho à sua frente, investigando o resultado cirúrgico.
Quando firmou a visão monocular no espelho sentiu o fio negro iniciar uma nova dança, como um bailado russo, sobre o olho esquerdo.

MARCOS SILVA

A CASA

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O problema daquela casa não era ser velha, estar abandonada há muito tempo ou o mato tomar conta de todos seus espaços externos. Pássaros cantavam em seus arredores e, no geral, pardais ruidosos amanheciam numa ladainha interminável e passavam o dia espalhando minúsculos piolhos pelo terreno, infestando qualquer criatura que aparecesse. O problema da casa não era ela, enfim, mas o que se dizia sobre ela: era assombrada.

Contavam os vizinhos, e outros que nem sequer passaram perto da casa, que um antigo morador havia sido morto de modo violento. Não dentro da casa, mas a quarteirões de distância. Dizia-se que o homem morto não era “dos melhores” e seu fim nem foi lamentado e era também esperado que não tivesse morte na placidez do leito, rodeado de netos.

Morto o homem, fica a mulher. E a mulher que ficou era pessoa apagada, triste com o marido, triste sem ele, sem lembranças dela que mereçam ser narradas. Ou melhor, narro o óbvio: tempos depois se juntou com outro, mudou-se e viveu o resto da sua vida, sem ser preciso dizer quem era ou lembrar seu nome.

E vieram novos moradores que sabiam apenas que o antigo morador havia morrido, como morrem outros em outras casas e nem por isto todas as casas do mundo são “assombradas”. Os novos moradores em pouco tempo começaram, porém, a espalhar que a casa era muito velha, que tinha muitos ruídos que deviam vir dos velhos canos ou de ratos sobre a laje.

Numa noite de muito calor a moradora estava só e deixou a janela aberta, confiando nas grades. Dormiu. Antes do dia amanhecer, acordou num sobressalto, ouvindo um rastejar no chão e sentiu um leve puxão no lençol da cama. Não sabia se morria neste exato instante, na solidão de sua cama, ou se pagava o vexame eterno de berrar desesperadamente, despertando a vizinhança e acordar no meio de um sonho. Tentou enxergar no escuro mas desistiu e cobriu todo o rosto com o edredom, antes jogado, inútil, ao seu lado.

Alguns minutos mais de silêncio e de um calor insuportável sob o pano, sentiu que a noite seria muito longa e abafada e, ao ouvir um gemido infantil, por medo ou coragem, num só salto saiu da cama e alcançou o acendedor na parede. Acostumou as vistas à luz e deparou-se com um gato de rua que, por curiosidade ou por ser um pregador de peças, aproveitou a janela aberta e entrou no quarto.

Não se pode dizer se a mulher ou o gato estavam mais temerosos um do outro e foi com custo e com a ajuda de uma vassoura que ela conseguiu que o bichano invasor saísse da casa. No outro dia, contou a história para o marido que depois, no bar, recontou colando partes que não haviam e esquecendo parte ocorridas e quem ouviu recontou alterando mais um pouco e, por fim, muitos moradores contavam somente até a parte em que a mulher se escondia sob o edredom e esperava o dia amanhecer.

Esta foi a parte anedótica que sempre há neste tipo de história.

O que é verdade, porém, é que os cães evitavam o imóvel. Não entravam casa adentro nem mesmo arrastados por coleira. Os que passavam em frente a residência durante a noite, paravam, rosnavam e uivavam até que corriam feitos todos, tudo isto confirmado por vizinhos que viviam com os olhos entre as frestas das janelas.

Quando alguma visita aparecia, notavam a mudança de humor de seus filhos que, sorridentes e brincalhões até chegarem à porta da sala, bastavam olhar para dentro do imóvel e começavam a chorar sem motivo aparente.

Nada disto atrapalhava a vida dos moradores que incomodavam-se mais com os barulhos que, algumas vezes, davam a impressão de ter alguém na cozinha, lavando as louças. No começo consideraram que haviam esquecido a torneira aberta mas, com o fato repetindo-se por várias noites sem que o deslize fosse real, nunca encontrando a água escorrendo, começaram a preferir não se levantar de noite para verificar.

Outras vezes ouviam a máquina de lavar ligada, acordando-os com um urro e depois desligando subitamente. Na primeira vez se levantaram e a máquina não estava ligada na tomada. A geladeira também deixava a luz escapar pelas borrachas, muitas noites impedindo o sono. Retiraram, por fim, a lâmpada interna.

Continuou a acontecer.

Um dia a porta se abriu; em outro, o televisor ligou sozinho; em outro, parecia que alguém se sentava no sofá, ao lado  do morador. Já não dormiam direito e ele precisou começar a trabalhar durante o dia sob pena de divórcio. Sozinha, ela não ficava em casa.

Como tudo que é ruim é ruim, ponto final, mudaram-se. Venderam os móveis da casa, compraram outros, mais velhos, é verdade, mas que não apresentavam os mesmos problemas dos anteriores.

Uns saem, outros entram. E os novos moradores, também um casal, chegaram sem saber de nada das histórias anteriores. Em menos tempo ainda, contudo, começaram a penar com os mesmos fatos, os mesmos problemas nos eletrodomésticos, os mesmos ratos que escapavam de todas as formas de extermínio e com os encanamentos que, trocados, novinhos, seguiam sendo barulhentos, malditos encanadores!

As dúvidas começaram a tornarem-se certezas e a fama da casa confirmada quando, depois de uns três meses na casa, ele acordou com um roçar de mãos nas costas. Pensou ser a mulher que lembrava-se das carícias ausentes como as noites de sono, sempre mal dormidas. De frente para a parede, meio sonolento, sentiu a mão passear suavemente em suas costas, até que percebeu que era muito fria e muito mais pesada do que deveria ser a mão de sua esposa.

Sua veias gelaram e sussurrou o nome da mulher. A mão cessou o toque e seus sentidos se atentaram apenas ao palpitar do seu coração. Súbito foi atingido com um tapa tão forte nas costela do lado esquerdo que rolou, caindo ao chão.

Trêmulo, ao descobrir que não morreria de ataque cardíaco, encarou a esposa dormindo suave.

Acordou e contou à mulher o ocorrido. Ela demorou a entender o que ele dizia e depois, juntos, constataram que ele não tinha marca nenhuma no corpo: nem um hematoma, nem vermelhidão, nada. Mas queixou-se por muitos dias de dor e ardor persistente no local.

Não tornou a usar a cama e perdeu o sono em definitivo. Logo mudaram-se.

Com mais esta história, também os vizinhos já queixavam-se dos ruídos do imóvel. Era sempre o assunto nos momentos em que a vida alheia se mostrava em paz. Não haviam casais se traindo: falemos da casa! Ninguém chegou bêbado, levando uma surra? Casa! Assim o assunto prosseguia e não mais se achavam inquilinos interessados no imóvel que seguia abandonado.

Tomando a feição das coisas feias que eram ditas a seu respeito, a casa deteriorava-se, perdia seus ângulos retos, suas janelas e portas tombavam, encobria-se de mato, de lodo, de sujeira. Crianças começaram a apedrejar a casa, como se apedrejava, antigamente, aos loucos.

História assim costumam ter um final revelador, uma explicação ou uma tragédia. Talvez um indivíduo de coragem que, rezando o credo à meia noite no centro da casa, peito aperto, espantaria demônios para dentro de garrafas. Ou um padre que, com água e latim, benzesse o lugar, devolvendo a paz e sossego. Na vida real, que é muito diferente da ilusão das artes, a casa apenas continuou no mesmo lugar, desabitada por muitos anos, perdendo sua aparência no tempo, até ficar oculta por árvores e mato.

Segue sua história sendo contada por velhos moradores que no tempo dos fatos eram jovens ou crianças. Hoje, sentados em bancos na calçada defronte, respiram os últimos fôlegos de suas vidas, como a casa que, quase sem reboco, em breve sucumbirá ao tempo. No futuro, ninguém saberá do que aconteceu, ninguém contará a história. Ninguém, a não ser a causa de tudo o que aconteceu, que não tem tempo de vida definido, nem se pode dizer se vida tem.

Eu, por mim, digo que nunca nem passei perto da casa. E nem pretendo.

MARCOS SILVA