POEIRA NO AR

CAPÍTULO 01

Na primeira foto que jogo sobre a mesa, uma mulher de cabelos longos e ruivos cavalga um sujeito gordo. Dá pra ver as costas nuas dela e as pernas peludas dele. A foto está embaçada, um pouco escura. A mulher é esposa do sujeito à minha frente, mas o sujeito à minha frente não é o sujeito gordo e peludo da foto.

Nas fotos seguintes, a ruiva e o sujeito gordo são vistos próximos um do outro. Estão em vários pontos da cidade, mas nunca se dão as mãos, nunca entram no mesmo carro, nunca se beijam. Passei mais de uma semana tentando uma fotografia dos dois, sem resultado. Então, pesquisei o cara. Sujeito gordo e peludo, amigo da esposa deste babaca à minha frente: achei fácil na rede. Casado, empresário, dinheiro de sobra e um gosto declarado por ruivas. Descobri que a pessoa cuidadosa na relação era ela e não ele. O negócio dele era apenas foder. Ruivas, de preferência, e estava se lixando em ser visto ou não com ela. O fato desta ruiva em questão ser casada era indiferente pra ele.

Entretanto, foi ela quem escolheu ficar com ele. E como amantes enamorados, pelo tipo de lugar que frequentavam. Não era somente uma foda. Vi os dois entrando no motel, há dois dias, ele no carro dele, ela de táxi. Como seria impossível fotografar os dois juntos, conversei com uma amiga. Ela aceitou o serviço pelo preço normal, nada de desconto, mas cedeu em esperar que eu recebesse o dinheiro deste trouxa que nem vai perceber que a mulher ruiva na foto, apesar de parecida, não é a esposa dele.

Num momento deste é natural que se explique alguma coisa, que se comece mostrando fotos mais leves, depois se pergunte se o contratante quer ver o resto. Eu? Não gosto de amenidades e nem de enrolação. Não tenho tempo pra isto. Preciso do dinheiro das despesas e do contrato e preciso recuperar a semana perdida nesta besteira. Devia ter contratado a prostituta logo no primeiro dia…

Ele tenta segurar o choro ao mesmo tempo em que espalha, uma a uma, as fotos sobre o vidro da mesa. Continuo em pé e falo que o preço não mudou. Ele me olha esperando piedade, complacência, empatia, uma palavra amiga, sei lá que diabos de nome dão pra frescura hoje em dia. Olho a parede para fugir de qualquer assunto que ele tente puxar. O quadro mostrando uma mulher seminua me lembra que ele é só um punheteiro com muito dinheiro pensando na traição da esposa amada. Talvez ficando excitado com isto.

Todas estas histórias são iguais e todos os finais são o mesmo: batedor de punheta bem sucedido, mulher bonita que era o amor da sua vida (depois do primeiro ou do segundo casamento…), um pensamento de traição, a preocupação com os bens que evaporarão , blá blá blá. E temos uma ópera.

Estico a mão em direção à mesa, esperando o pagamento, e ele tenta parecer firme, mantendo o semblante sério. Aperta dois números no aparelho do telefone, fala umas bobagens monossilábicas pra secretária e eu faço um sinal de dedos contra a minha fronte, me viro e saio.

Do lado de fora da sala, a secretária já colocou o envelope em cima da mesa. Ela me olha torto, como se desconfiasse da minha roupa de domingo numa puta segunda-feira. Aliso a mão contra a barriga e estufo o peito. Me sinto patético, mas a gordinha é bonita, tem um rosto cheio e sem marcas, apesar de já ter passado dos quarenta. Sorrio sem mostrar os dentes e ela fecha a cara. Acho que não gostou de mim desde o começo. Então, que seja recíproco. Fecho a cara também, abro o envelope e confiro o valor, menosprezando a honestidade desta gente chique. Viro as costas e saio sem me despedir.

Assim que entro no carro, ligo para a prostituta e digo que estou levando a parte dela.

Fico pensando no quanto as pessoas desejam acreditar em algo e em como precisam de provas para isto, como se apenas a fé não bastasse. Enfio meus pensamentos no bolso ao mesmo tempo em que retiro o cantil. Tomo um gole. O ardor na garganta me dá ânimo e esqueço do babaca que discutirá com a esposa mais tarde, depois baterá uma punheta no banheiro e amanhã continuará a aparecer com ela nas festas de família e da empresa. Nada mudará, mesmo ele tendo pago para ter certeza da traição.

Encaro meus olhos no retrovisor: em que momento comecei a tocar o foda-se mesmo?

 

 

 

Continua…

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ODE

costas.jpg

Não sei quem tu és, mulher, e nem que deus teceu a pele de teu corpo.
Não sei teu nome, teus gostos, teu gosto…
Te vejo as costas nuas e a beleza te inunda e inunda meus olhos.
Se tu, assim, já me atrai tanto, que sobrará de mim quando te conhecer cada nuance?
Quando te encarar o sorriso? Te apreciar o toque?
Enfiar-me entre tua vida, teus cabelos, tuas pernas?
Dentro de ti, perdido em teu fogo, sobrará cinza de mim?

 

MARCOS SILVA

PÁSSAROS

beija flor

 

Há três dias, os pássaros começaram a cair no meu quintal.

Todos mortos.

Juntei os pequenos cadáveres em sacolas de supermercado, no primeiro dia, e coloquei na rua para que o lixeiro lhes desse destino. Eu poderia ter me alarmado, mas pardais e pombos nunca me fizeram falta. Ao voltar da rua, já reencontrei alguns outros mortos pelo caminho. Era como uma goteira.

Não consegui dormir durante a noite. O barulho vinha em espaços não definidos, atingindo o telhado e o quintal. Fiquei pensando não na morte dos pássaros, mas no absurdo de haver algum voando sobre meu quintal à noite, horário em que deveriam estar dormindo e não gotejando em meu telhado.

Depois da primeira noite insone, juntei todos os pássaros mortos novamente e tornei a colocar as sacolas de “lixo” na rua. O lixeiro não havia passado no dia anterior e as sacolas se acumularam, deixando principiar um cheiro de morte. Outra coisa que estranhei é que os malditos gatos e cachorros não vieram rasgar os sacos de lixo. Saí pra passear buscando me livrar da sensação de um bairro que começava a morrer junto com seus pássaros. No fim da tarde, quando voltei, outras dezenas de pássaros apontavam seus peitos para o céu, asas esticadas e duras, pescoços tortos, pernas finas arqueadas: mortos.

Passei outra noite insone, tentando contar cada pancada que soava no teto, mas desisti e fui para a calçada no meio da noite, que seguia morna e calma. Sentado e fumando, vi o dia amanhecer, os primeiros trabalhadores e estudantes seguirem seus destinos. Observei os vizinhos ressuscitarem do sono e seguir para uma vida que, para mim, cheirava a penas e morte.

Ao entrar, já supunha o flagelo de penas e ossos finos espalhados pelo chão e isto não me surpreendeu. Surpreendi-me, porém, com a cena que já acreditava perdida para sempre. Com os pés agarrados à tela do quintal, um pequeno beija-flor, de asas verdes e peito azulado, me observava. Vez por outra, retirava a fina língua de dentro do bico, como se tivesse sede.

No chão, parentes distantes da pequena ave jaziam como se fossem enfeites da terra, mas totalmente desconectados de seu ambiente, o céu.

Tentei me aproximar do pequeno beija-flor, mas ele voou célere pelo quintal, com suas asas ágeis, fazendo estripulias áreas. A vida, com este voo, me cheirou a normalidade e respirei como quem volta de um longo mergulho, sentindo meu peito se encher de novo de vida e esperança.

Acho que uma lágrima caiu quando entendi o valor do voo daquele pequeno pássaro, aquele voo com gosto de vida. Neste instante, ouvi a campainha tocar e, ainda suspirando forte, senti dentro de mim que era você voltando.

MARCOS SILVA

 

MODOS

tântrico

Ela me olha, súplice, e pede pra que eu leia o folheto. Eu, no meio do telejornal, pego o pedaço de papel e olho-o, lendo mas sem prestar atenção. Não entendo muito bem alguns termos: tantra, pompom, tao. Eu, que nunca fui o tal em nada, muito menos em outras línguas, pergunto pra ela do que se trata. Ela toma o folheto da minha mão e abre-o. Finge ler e eu entendo que é porque já decorou o que está lá. Fala da necessidade de melhorar nossa vida sexual, que os anos de casamento já estão entediando, que deveríamos fazer algo de bom pelos dois para que voltássemos para a ligação que tínhamos. Eu escuto tudo calado, com um olho na tv e o outro nela. Ela continua dizendo que o sexo tântrico é uma forma nova e especial de conhecer o próprio corpo e de melhorar o desempenho sexual. A encaro e pergunto se está me chamando de broxa. Ela diz que não, que apenas está procurando um jeito de melhorar nossa vida na cama. Minha vida na cama é ótima, digo, deito e durmo maravilhosamente bem. Ela faz um muxoxo e eu pego o folheto da mão dela, para entender melhor. Spa Luz e Toque cursos de descoberta cursos de pompoarismo cursos de massagem tântrica, leio tudo assim, na pressa. Caio os olhos nas fotografias e vejo mulheres seminuas, cobertas apenas o sexo com tecidos multicoloridos, vejo homens sem camisa sendo massageados, vejo um corda presa a três bolinhas plásticas. Arregalo um olho e fecho o outro. É o sinal para ela perceber que não entendi nada. Ela explica que falou com a terapeuta e que ela recomendou que eu e ela, para aumentar a união e a energia entre nós, fizéssemos os cursos de massagem e de pompoarismo. Eu perguntei se ia me custar o rim esquerdo, como a última reforma me custou o direito. Ela sorri e sabe que eu vou aceitar. Aquele sorriso desgraçado dela me faz aceitar qualquer coisa. Ela me beija e vai pra cozinha. Eu pego o celular e, curioso, pesquiso mais sobre o tema. Na parte das explicações, as mesmas palavras estranhas com nome de sabonete de bebê ou de filme indiano. Mudo pras imagens. Aí que a porca torceu o rabo e eu me retorci no sofá. Me pareceu um negócio muito interessante: mulheres abraçadas, sentadas uma sobre a outra; homens sendo massageados por vinte mãos diferentes; objetos de fetiche; abraços calientes. Tudo em fotos muito coloridas, com tons fortes. Um verdadeiro oásis de sexo na rotina dos dias. Cheguei quase a me excitar. Ela voltou da cozinha e perguntou se eu aceitava mesmo. Fingi desinteresse, mas disse, sim, tudo por você, meu amor. Ela me beijou e saiu rebolando. Dei um tapa na bunda dela. Me falou que já tinha ajeitado tudo, a desgraçada, e que no outro dia cedinho iríamos para lá. Quase discutimos, porque achei uma desfaçatez dela agendar sem minha anuência, e fomos dormir cedo. Não transamos e eu acordei como nos outros dias: sem ter transado de noite. Fazia algum tempo que estávamos assim. Não era culpa dela e não era culpa minha. Acho que eu queria conhecer novas bocetas, ela novos paus, mas no casamento monogâmico não tem espaço pra curiosidade e descoberta, só pra aceitação. No outro dia cedo saímos e rodamos meia cidade até chegar numa chácara num bairro afastado. Muros altos, tudo muito bonito. A cara de um spa ou clínica. Nos recepcionou uma moça muito bonita e educada, trajando roupa de enfermeira. Fiquei meio trêmulo: detesto agulhas. Só a visão da enfermeira já me dava calafrios. Por sorte, após a entrada, apresentava-se um jardim muito bonito e, com o ar puro, respirei melhor. Uma outra moça, esta com roupas de academia, muito justas e coloridas, nos indicou que deveríamos ir para a sala de introdução, no corredor à direita. Cochichei no ouvido da minha mulher que se fosse pra introduzir as bolinhas, eu saía correndo, mas não sem antes esbofetear quem tentasse. Ela estava séria e me mandou calar a boca. Entramos na sala e haviam mais seis casais. Meu lado putista logo pensou: oba, suruba! Mas o povo se mostrou muito tranquilo, muito paz e amor. Tinha cheiro de incenso e mandalas por todo lado. Pensei na Jocasta da Vera Fischer. Eu era garotinho e a Vera me fez passar bons momentos no banheiro. Minha mulher viu que eu voava e me beliscou suavemente. Chegou a professora. Uma senhora de 50 anos, magra como uma tábua de passar roupa, usando uma manta indiana, creio, já que tinha um tipo de elefante na estampa colorida e não era o Dumbo. Pensei que se fosse suruba com ela, preferiria as bolinhas. Começou falando do energizar dos sacras, dos fluidos que percorrem os corpos, do poder sexual que nos liga à vida. Eu prestei atenção na hora em que ela falou de sexo e olhei para as outras mulheres. Todas dondocas elitizadas, provavelmente com curso superior e família esnobe. Provavelmente traíam o marido e nunca tiveram uma foda decente. Os homens eram outros mequetrefes em suas vidas vazias e pintos murchos. Como não sou burro, logo fiquei meio deprimido: eu estava ali, com eles, então, decerto era também um deles. Aquele começo de depressão foi legal que me fez prestar atenção no que era dito. A professora falava agora que as mulheres aprenderiam a fortalecer a musculatura vaginal para dar mais prazer a si mesmas e a seus maridos; que em breve seriam capazes de apertar com a vagina a base do pênis, impedindo o gozo; que sugariam o pênis como se suga com a boca; que travariam o pênis, que ordenhariam, que torceriam. O negócio começou a ficar interessante, pensei. Este tanto de mulher agachada, mexendo os lábios da boceta até conseguir fazer isto tudo e eu só observando… Dinheiro bem empregado, este. Depois ela foi falar dos exercícios para os homens e eu logo me entediei: eram pesos pra carregar no pau. Nunca gostei de academia e se meu pau ficasse mais forte era perigoso minhas calças não servirem mais. Além do quê, um bando de homem com o pau carregando pesinhos por uma sala, quase me fez disparar em fuga. Depois dessas apresentações todas, fiquei sabendo que meu curso seria o de casais, então, tudo que eu faria, seria com minha esposa. Ou seja, nada de suruba, nada de bocetas arreganhadas abrindo e fechando. E, graças a deus, nada de paus com pesos. Mas, como sempre, minha alegria durou pouco . Começou a oficina. Minha esposa parecia estar num playground. Eu me sentia numa peça infantil no papel de árvore. Tudo muito enfadonho, tudo muito chato. A melhor coisa era observar as bundas arrebitadas das dondocas. Comecei a pensar em sair, mas minha mulher ia me matar se fizesse uma bobagem desta. Fui ficando. E quanto mais ia ficando, não sabia se era para ficar de pau duro ou não. Teve passação de mão, eu na minha mulher e ela em mim, deixo claro, teve suspiros nos ouvidos, teve beijos sem tocar os lábios. E teve a hora de tirar a roupa. Não era obrigatório, mas a coisa fluiu tão bem que todo mundo tirou. Já gritei dentro de mim: suruba! Mas, então, percebi que ninguém se olhava, no máximo, olhavam pro companheiro, companheira. Era um negócio muito profissional mesmo, muito intimista. Minha mulher se sentou em cima de mim e eu deveria apenas encará-la. Meu pau queria ficar duro e eu me controlava pra não deixar. A gente fica a vida inteira querendo que o pau fique duro sempre que a gente queira, mas aí chega neste ponto da vida, no meio de estranhos, rezando pra não passar vergonha com o pau duro. Fizemos uma massagem nas costas um do outro. Tava tudo muito bacana. Mais achei mais bacana ainda quando acabou. Escapei das bolinhas e da professora com corpo de tábua. As mulheres foram convidadas a irem para outra sala: era o curso pra aprender a ordenhar com a boceta. Os homens se permitiram relaxar um pouco, mas logo chegou um professor, já peladão, com o saco todo depilado. Já vi coisa feia, meu deus, mas homem que raspa o saco, o peito, os braços, isto não me cheira bem. Gosto do meu cabeludo, com os pelos pretos enroscando. Fica parecendo que tenho uma almofadinha sob a cueca. O sujeito indicou uns pesinhos, mostrou os movimentos que deveríamos treinar em casa. Ficava balançando o pau duro pra lá e pra cá. O meu estava murcho como bunda de velho. O dia acabou passando rápido, ainda bem. Teve comidinhas, trocas de telefone (oba, swing!), promessas de contato. Minha mulher saiu cheia de sorrisinhos, me abraçando, dizendo que ia me fazer loucuras. No meio do caminho eu parei o carro e puxei ela pra cima de mim. Meu pau já duro pra cacete, só arredei a calcinha dela pro lado e ela rebolou como uma doida em cima de mim. Gozei em menos de dois minutos. Olhei pra minha esposa e falei: você ordenha muito rápido, deste jeito arranca as tetas da vaca. Ela me deu um tapão no pescoço e voltou pro banco do passageiro. Eu comecei a rir e ela, acho que de raiva, gargalhou. Me falou que já tinha acertado tudo pra fazermos outro curso. Pensei: agora sim, suruba!. Ela me deu o folhetinho do curso de respiração primal. Entortei um olho e fechei o outro. Ela deu um sorrisinho e falou pra gente ir logo pra casa, que estava com pressa pra ver a novela.

 

 

MARCOS SILVA