Assombrações e infância

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No dia das mães, entre uma cerveja e várias, minha mãe contou uma história antiga, das que eu ouvia quando criança. A história, em minhas poucas palavras, fica assim:

Um moribundo, no leito de morte, clama a presença da filha que pouco se importava com o velho. Ela, abraçada à cansativa lida de limpar um porco, diz que não vai, que não tem tempo, que tem que terminar o serviço.

Pouco depois, o velho morre. Dias depois essa mesma filha adoece subitamente e, da escuridão, essa nova moribunda, esquelética e babando, começa a ouvir o rangido seco do telhado e uma voz trepidante e soturna a dizer: “dá carne pra ela que ela gosta…dá carne pra ela que ela gosta…”

É necessário explicar que “limpar um porco”, antigamente, era matá-lo, destrinchá-lo, separar seus pedaços, fritar o toucinho e a própria carne, lavar tripas e etc, o que de fato gastava mais tempo do que meramente lavar o animal. E é necessário explicar que ler um texto escrito assim, às tortas e sem talento, é diferente de ser criança e ouvir tal história à luz de uma lamparina ou mesmo das fragéis lâmpadas antigas.

Na mesma conversa, questionei à minha mãe sobre uma outra história que meu pai contava, também de assombração. Dessa recordo-me apenas que, em alguma tapera, alguém muito corajoso dizia “cai um quarto, cai o outro…” sendo que, acredito, eram os “quartos”, os pedaços, de alguém, e não os cômodos da casa. É difícil confiar na memória e talvez não seja nada disso. Meu pai, infelizmente, não pode mais contar-me tal história e, mesmo se pudesse, tenho certeza que o temor por ela provocado não seria o mesmo.

E por que motivo eu, criança, ouvia histórias tão violentas?

Porque era a tradição oral do universo conhecido por meus pais que, por sua vez, receberam essa mesma tradição de seus pais, meus avôs e avós. E não era o ensino de algo violento que se dava, apesar dos detalhes sangrentos, das mortes, das portas rangendo, do bodes berrando assustadoramente. Era tão somente o teatro natural e familiar que ensinava regras importantes: cuide dos doentes; o trabalho é importante, mas outras coisas são mais; é preciso coragem, mesmo diante do desconhecido; existe o retorno das boas e das más ações.

Muitas histórias, mesmo as “assombradas”, terminavam em risos, como quando alguém perdia um pote de ouro assombrado e enterrado, meramente por haver xingado no momento errado.

Para além disso, o que prendia a atenção, principalmente dos pequenos, não só minha, era a atmosfera; era a figura séria a contar uma história com seu semblante torto, sua voz teatral, seus ruídos onamatopaicos.

Ainda hoje aprecio as fogueiras e as vozes que contam e cantam coisas diferentes sob o brilho do fogo e da noite. Deve ser um rastro de infância que marca, em mim, os caminhos que percorri ou a sombra dos pequenos e grandes temores que ameaçam invadir-me, talvez para impedir meu sono, talvez para despertar esse sorriso torto e saudoso.

No fundo, ler, escrever, contar, inventar é o que nos une ao lado mais secreto e mais doce de nossas ligações familiares, de nossa antiguidade, as raízes e folhas do que somos. E pode ser por isso que, mesmo tímido em escrever e mais ainda em ler o que escrevo, eu sinta prazer nessas coisas todas: porque sou a criança ouvindo uma voz amigável, mas tenebrosa, a me contar histórias impossíveis em meio à pobreza e fragilidade do mundo real.

 

 

 

 

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O brinco

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Acordou de madrugada com uma sede terrível. Levantou-se custosamente, a cabeça a ribombar, as mãos inquietas, trêmulas. Devagar, como se tivesse saído de uma cirurgia, foi apoiando-se nas paredes até chegar à cozinha e beber direto da moringa um longo gole de água. Fechou os olhos com dificuldade porque as pálpebras pareciam pesadas e a cabeça parecia doer mais a cada movimento delas.

Achou que beber ainda mais do que o de costume ajudaria a dormir sem assombros até o dia seguinte e, cansado e bêbado, percebia-se no meio da escuridão como se tivesse pregado uma peça em si mesmo. Ainda não estava acostumado com essa casa vazia, depois que a mulher e a filha se foram.

Tomou outro gole de água, tampou a  moringa e ia voltando para a cama quando ouviu o lamentar longo e estridente.

Imaginou que os desgraçados dos gatos estariam a trepar no telhado da casa novamente e quis dizer uma praga qualquer, mas apenas pensou três desgraceiras que morreram apertadas entre os dentes. Tornou a caminhar lento, a mão apoiada na parede sem reboco, os dedos deslizando e deixando formar no chão uma trilha de pó. Um dia, quem sabe, limparia tudo isso, varrendo toda a sujeira que se acumulava como as bostas das vacas acumulavam-se no curral.

Assim que sentou-se na cama, um novo berro, ainda mais agourento e lastimoso preencheu todas as frestas da casa. Era como se entrasse direto pelos vãos das janelas de madeiras e, em vez do vento frio, comum nesses tempos, trouxesse o fundo de uma grota úmida e salobra direto pra dentro da casa. Os gritos estridentes dos gatos enfiavam-se em seus ouvidos e sua cabeça latejava mais, o sangue a fazer caminhos sem freio por seu corpo.

Enquanto se perguntava se já era hora de tirar o leite, sentiu o lamentar felino arranhar o meio de sua espinha, como quando o sujeito se repugna ao ouvir o rangido de metal contra metal ou passar perto da carniça de um bicho.

Tornou a levantar-se e começou a bater contra as janelas, tentando espantar os desgraçados, mas tudo que conseguiu foi uma infinita algazarra de gatos e mugidos do gado, que parecia acordar.

Vou matar esses filhos das putas todos, rangeu entre os dentes e, de posse da lanterna de metal que usava para pescar, foi até a cozinha e pegou o longo pedaço de madeira que travava a porta ao meio. Quando ia abrir a porta, as dobradiças rangeram tristes como o grito daqueles bichos sarnentos.

Furioso, avançou com a luz da lanterna clareando tudo em volta e com o pedaço de pau ao alto, pronto a arrebentar a cabeça do primeiro peçonhento que visse ou viesse, sempre a ouvir o estridente rasgar dos miados. Sem camisa, sentia o vento frio a bater em seu peito e parecia melhorar da ressaca.

Terminou de dar a volta por todo o casebre e sentiu os cabelos arrepiarem-se e, pela primeira vez na noite, murmurou “valei-me” e terminou o nome dos santos todos em silêncio quando percebeu que não eram miados de gatos ou, pelo menos agora, não eram mais gatos que miavam.

Como uma lâmina na pele num dia de geada, um choro convulsivo de criança rasgava o breu. Era o choro de um bebê muito novo, pelo que tinha tido tempo para entender do assunto nas longas noites em que sua filha chorava com dores de barriga.

Tomado de hesitação misturada a um princípio de coragem, começou a aumentar a distância percorrida ao redor da casa, e buscou descobrir a desgarrada pessoinha. A luz da lanterna, vez ou outra, batia nos olhos das reses no curral e cintilava-os, tornando-os amarelos e sérios, como se todos os bichos tivessem resolvido encará-lo.

A noite era escura e o peão era bruto, não tinha medo de bicho no meio da noite, porém andou com cuidado, receoso da maledicência de uma urutu ou um escorpião.

O choro persistia e seus ouvidos já estavam cansados do aranzel até que, logo atrás do gado, em meio a uma moita de capim, viu um brilho prateado no chão. Caminhou devagar, tropeçando em meio às novilhas que cambaleavam, modorrentas. Chegou mais perto e, no meio de um outro “valei-me”, dessa vez sem santos a lembrar, estarrecido correu pelos campos, urrando, tropeçando, batendo-se e cortando-se contra cercas e mourões, capins e cupins.

No meio do mato, jogados como troncos velhos e ressequidos, os corpos da mulher e da filha apodreciam ao relento, na mesma posição em que estavam quando morreram no acidente que ele, bêbado, causou. O brinco prateado da menina, ainda apertado na orelhinha carcomida e fétida, reluzia como um olho infeliz a encará-lo em seus pecados.

 

 

Sobre poeira e labirintos

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Há alguns dias tive o pequeno prazer de me aventurar em um sebo.

O sebo clássico, raiz, com suas pilhas de livros sujos e amarrotados, suas montanhas de celulose criando uma cordilheira caótica de títulos e publicações diversas onde existia um tênue vislumbre esperançoso de que era possível encontrar algo.

Cheguei à procura de alguma edição em quadrinhos do Conan.

Sim, leio quadrinhos e leio Conan decepando cabeças, bebendo vinho e transando com prostitutas e, apesar disso, acho que perguntei se havia Conan para garantir meu atendimento, já que o proprietário encontrava-se trancado no interior da loja e eu precisava de uma senha para facilitar minha entrada e ele não me confundir com um obsequioso ladrão depois do meu cortês “bom dia”.

Para aumentar os clichês sebáceos, o proprietário era um idoso solitário que passou a me seguir pelos corredores (na verdade, um pequeno corredor entre as estantes e a mesa central, que forma um retângulo de aproximadamente 2m x 4m…). Em seguida, não bastasse seu pequeno temor de que o único cliente roubasse suas preciosidades da Reader’s Digest ou Coquetel, passou a contar-me toda a história de como tornou-se proprietário da loja, de seus conhecidos ilustres, dos desentendimentos telefônicos e de seus vastos conhecimentos jurídicos (você sabia que um banco vai preso se incomodar um idoso por telefone? Pois…nem eu…).

Enquanto era inundado por sua biografia, enfiei meus olhos nas pilhas de publicações procurando, de fato, alguma coisa do Conan, contudo encontrei títulos que não me interessavam. Revirei pilhas, revista a revista, sentindo os dedos engordurarem-se e um certo cansaço pela desarrumação total o que, com certeza, deve dificultar as vendas dele, já que ele próprio não sabe o que tem para vender, contudo me garantiu que o segredo do sucesso era ter estoque.

Quando estava para sair, encarei uma estante com vários volumes de um vermelho cornalina (sim, eu abri o google para saber…) e lombadas com letras douradas grafadas.

Como um viajante do tempo, encarei naqueles tomos um pedaço do meu passado.

Devo ter lido boa parte dessa coleção da editora Abril na minha adolescência. Volumes e volumes de “Os imortais da literatura universal” existentes na biblioteca da escola em que estudei. Essa biblioteca, na parede de minhas lembranças, é como um grande amontado de pinturas turvas, cheia de tomos coloridos das mais diversas coleções.

Deslizei meus dedos naquela pequena parede vermelha e dourada e, nesse momento, eu não ouvia o proprietário a contar-me a história de sua vida. A única coisa que meus sentidos captavam era o bombardear incessante do questionamento de “quem eu era” e “quem me tornei”.

Pensei que tudo que me aconteceu não foi para que me tornasse melhor ou pior e que todas essas classificações são inúteis, porque tudo tem fim e, no fim, tudo é indiferente.

A grande questão imposta é sobre aceitar a inevitável da mudança.

Eu, algumas vezes, quero ser a criança que fui e descubro que não sei que criança fui: imagino-me e isso não é a realidade, é nada mais que um sonho qualquer. E assim é no amor e em qualquer outra escolha que eu tenha feito ou tenha sido obrigado a fazer.

Além da morte, a única fatalidade do ser humano é a de mudar, ir formando-se de milhões de pequenos fragmentos de coisas que ocorrem todos os dias, em seguida remendar esses cacos e transformar-se num outro amontoado de lembranças que formam o que acreditamos ser, mas que é somente uma imagem vista por uma pequena fresta do que entendemos por realidade.

Pois bem… Visitei, encarando aqueles livros, esses vestígios e imaginei que aquele corredor estreito e empoeirado era o que restava de mim e que, sempre, sempre, é preciso nos visitar em nossas estantes, nossos amontoados, e encarar a sujeira do que fomos deixando para trás, do que escolhemos manter em estoque e em destaque e do que optamos em ocultar ao lado do pé dos velhos móveis. É nessas visitas que podemos saber o que nos custou mudar e o que nos custa ser o que somos.

Em seguida às divagações silenciosas, quase querendo fugir ao ouvir de novo a voz do comerciante, acabei pagando 15 reais numa daquelas edições cornalinas (não, não vou esquecer esse nome…) do autor que, no correr de minha vida, veio a tornar-se um de meus prediletos. O volume em questão é justamente o último da coleção, o de número 50 e, como mimo especial, além de estar intacto e sem rasuras (uma tristeza, por outro lado, porque prova que ninguém o leu antes…), conta ainda com um pequeno bilhete da editora, a famosa e inevitável errata.

Quando tivermos consciência de que tudo é labirinto e poeira será que a vida de cada um de nós terá direito à um desses pequenos bilhetes?

 

 

Dor

céu

 

A primeira vez que vi meu pai morrer foi assim: ele levantou-se da cama, foi ao banheiro, fez café e bebeu-o em pé, sozinho, encostado à pia. Pouco depois, sem dizer qualquer palavra, saiu de casa. Voltou mais ou menos uma hora depois, não sei bem, e ficou o resto do dia calado, sentado no sofá e fingindo que lia, enquanto eu notava ele passar e voltar a mesma página dezenas de vezes.

Aquele já era o cadáver de meu pai e vi-o muitas outras vezes repetir esse gesto de virar uma página para retornar à anterior, repetidas vezes.

O homem ágil e alegre, que contava piadas e cantava alto quando bebia, viveu durante o tempo em que fui criança e não entendia das coisas. Talvez, por isso, eu não tenha lembranças de vê-lo morrer antes. Lembro do cheiro forte de suor que tinha, e que me agradava quando eu era pequena; lembro da barba grossa dos dias em que folgava e que insistia em me irritar usando-a para deslizá-la em minha pele; e lembro do hálito de cachaça de quando chegava da rua. E, ao dizer isso, devo insistir que era um bom homem, de um coração duro e frágil ao mesmo tempo: sabia como ninguém ser carinhoso, em silêncio, e nervoso, aos gritos; sabia, como ninguém, estender a mão para ajudar e, também, chutar a cara de qualquer um para proteger à mim ou mesmo a um estranho.

Meu pai, porém, era um fugitivo.

E hoje, depois de tantos anos, ainda sou incapaz de dizer do que ele fugia. Sei que muitas vezes, em meio à uma discussão com minha mãe ou mesmo uma brincadeira com ela ou comigo, levantava-se e dizia: “vou ali…”. Então, depois de algum tempo, voltava com o olhar distante, parecendo ter deixado um pedaço dele para trás.

Acredito que meu pai foi perdendo pedaços pouco a pouco e, mesmo a alegria que demonstrava comigo, ia ficando presa nesses pedaços perdidos, impossíveis de serem recolhidos.

Na segunda vez que vi meu pai morrer foi quando abandonou o silêncio e começou, aos berros, a discutir com a parede da sala. No começo, achei graça.  Parecia mais uma de suas brincadeiras até que, assustada, percebi que falava sério ao dizer “quem, quem é você?”. Meu pai não gaguejava. Era assertivo e direto em tudo que dizia e, nesse monólogo ríspido com a parede, entendi que ele estava tão assustado quanto eu e que, como se se olhasse no espelho, buscava compreender-se quem era.

Eu tinha doze anos nessa época e só fui pensar todas essas coisas quando refleti sobre minhas memórias e me lembrei dele, exato e eterno, a morrer quando percebeu que eu o observava. Eu chorei mais por um temor infantil de que não fosse meu pai ali, na sala, a conversar com a parede. Ele deve ter ouvido meus soluços e deu as costas para a parede, que talvez em toda a terra seja a única coisa que saiba o que ele de fato sentia, e em seguida abraçou-me até que eu me acalmasse.

Tem horas que penso ouvir o longo silêncio entre nós, no meio daquele abraço inexplicável e incompreensível, que misturava amor e desconhecimento.

Por fim, dando-me seu melhor sorriso e passando a mão no meu rosto para limpar o rastro de lágrimas na minha face, disse “está tudo bem, filha…”.

Em alguns momentos, duvido que isso tenha acontecido. Talvez eu, como tantos, apenas esteja misturando cacos de lembrança e criando a menos dolorosa, a que pese menos, para que eu possa continuar.

Meu pai morreu essas e tantas outras diversas vezes e fui a cada um desses velórios.

Com o tempo, porém, percebo incrédula que a imagem dele e desse momentos é perene, infinita e repetitiva. A cada momento minha mente revolve a terra mofada do passado em busca de estilhaços cada vez mais cortantes e perigosas e, em certas horas, tenho medo de lembrar.

A lembrança deveria ser uma opção, não apenas um jogo sem fim e insensato.

Certo consolo é que, a cada vez que remexo esses fragmentos, noto que ele foi forte o quanto podia e da maneira que somente ele conseguiria, escondendo-se naquele sorriso largo e amarelo, naquele copo de cerveja, naquelas músicas que hoje sou incapaz de ouvir.

No dia fatídico, no dia de sua morte física e definitiva, eu não o vi.

Sei o que me disseram: que ele saiu para trabalhar e, no meio do caminho, sem deixar recado ou justificativas, escolheu outro trajeto e parou próximo a um rio. Ninguém sabe o que ele pensou ou quantas horas ficou sentado ali, olhando as margens do rio.

Eu sei o que eu penso: imagino-o tranquilo a jogar pedrinhas na água; imagino sua respiração pesada tentando parecer serena, como fazia quando estava nervoso; imagino que, mesmo sozinho, quis parecer calmo para que ninguém imaginasse as tormentas internas que devem tê-lo perseguido por toda a vida e das quais ninguém sabe.

Ninguém, nunca, saberá o que somos por dentro.

Talvez chorando (como o vi fazer uma única vez, sozinho no escuro, e imaginei que fosse nossa cachorra ganindo, cansada, mas era apenas meu pai, em soluços e silêncio; e que, quando me viu, foi ao banheiro, lavou o rosto e saiu sorrindo e dizendo “está tudo bem…”); talvez sério e amedrontador, com aquele olhar feroz que tinha quando via algo errado.

Imagino-o levantando-se, forte como o leão que era e decidido como o rei que não chegou a ser, e fazendo as coisas usuais que todo suicida faz, morreu em meio à natureza, com o pescoço atado à uma corda azul e branca, como é possível que o céu estivesse naquela tarde em que morreu pela última vez.

Hoje a lembrança dele é tão presente quanto esse sol que inunda a tarde e o céu é, talvez, tão azul e branco como o daquele dia.

Às vezes o vento sopra e, seja em meus momentos felizes ou tristes, ouço um murmúrio breve que parece dizer: está tudo bem…

 

Viagem e espera

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Faz muitos anos que não viajo de ônibus.

A primeira sensação que tenho é que estou indo para nunca mais voltar e isso é tanto um desalento, como um alívio. Viajar é sempre um risco enorme nesse país, então, imagine-se você e mais quarenta estranhos, inclusive o motorista que você nunca viu na vida, indo para uma cidade que sempre será uma estranha.

Quem, em sã consciência, entra num bloco de metal e espuma com tantos estranhos?

Esperar me gera irritação e ansiedade, algo que se multiplica no ambiente barulhento e sempre inóspito das rodoviárias. Tenho uma sensação de desamparo tremenda. Mesmo quando é uma viagem de retorno, quando tenho a plena certeza de que volto para casa, parece-me que estou partindo e deixando um pedaço meu para trás, mesmo que seja meu ódio, esse órgão que fede a mofo e peixe apodrecido.

Agarro-me à minha mochila e observo tantos outros também abraçados às suas malas, apoiando-se nos únicos pertences que os ligam às suas vidas, que provam que são quem são. Estar numa rodoviária é perceber-se nu em uma terra estrangeira, onde se desconhece os hábitos desse povo.

Olho em volta e penso que sou aquele pedinte que mora nesse lugar em que todos estão de passagem ou aquele drogado sem uma gota de orgulho que pede para manter o hábito de sua existência mais do que para o vício. Eu poderia ser qualquer um deles se, de um momento para o outro, não me lembrasse que estar aqui, como na vida, é estar à espera que alguém te busque.

No fundo, eles só estão lá por mais horas que a maioria…

Não bastasse isso, há ainda a tensão do embarque. Comprei a passagem certa? Esse é o ônibus correto? E se em alguma parada eu entrar no ônibus errado? Prefiro nem descer, mas acabarei descendo, eu sei, porque também não suporto usar os banheiros do veículo e a viagem é longa…

Depois que o motorista verifica minha passagem e compara a foto da minha identidade com minha expressão amedrontada, tudo parece certo e subo aqueles três degraus como se fosse o de um cadafalso móvel. O corredor é um perigo a cada passo, enquanto procuro meu lugar e encaro o rosto dos que dormem ou fingem dormir, talvez com receio de que eu me sente.

Também fico tenso em imaginar quem pode se sentar ao meu lado. Pode ser uma pessoa bonita e de prosa alegre, mas tudo que quero é ficar quieto, quem sabe dormir. Se for alguém espaçoso e de conversa chata, aí finjo que estou dormindo a viagem toda.

No fim das contas, ninguém se senta comigo e não sei se isso é melhor ou pior que as outras opções: fui ignorado ou apenas seguem o que o bilhete marca?

A vida é isso: seguir o que está escrito no papel que nos dão desde o nascimento. Seguimos nosso nome, seguimos as categorias da habilitação, seguimos o endereço de nossas faturas.

Observo os que ficam e me imagino como um passageiro do Titanic que, mesmo sabendo seu destino gélido, segue viagem.

Eis que, do lado de fora, um jovem magro conversa ao telefone e, por seus gestos, noto que fala com uma moça duas poltronas à frente. Não consigo ouvir o que ela diz e não entendo o movimento dos lábios dele. Agora, impedidos por janelas sempre fechadas por causa do ar condicionado, conversam por telefone. Nada de toques amorosos, nada de voz suave e sussurrante. Sim, a sociedade moderna nos afasta cada vez mais do que nos torna humanos.

Então imagino que, anos atrás, vi um casal semelhante a tocarem-se os dedos enquanto o ônibus saia devagar desse mesmo terminal. Agora, abraçado à frieza desses tempos, percebo que viajo por isso: por amor, seja por ir ou por voltar, e apenas por isso suporto o preço e as angústias que me raspam a pele.

Ouço, em minha imaginação, a voz dele dizendo “eu te amo” e a voz dela, trêmula e feliz, sussurrando que também o ama.

Depois, engolindo um anseio e uma prece ateia e silenciosa, fecho a cortina para o passado.

O resto é trepidação e noite.

 

 

Despertar

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Não sei se estou doente, mas me sinto como se estivesse. Se alguém me observasse diria que passei a manhã inteira bebendo café e assistindo filmes. Na verdade, fiz isso, mas o que sinto ter feito foi ficar deitado no sofá vendo as manchas no teto. Sinto uma dor terrível no lado esquerdo do nariz e ainda não sei do que se trata. Já passei pomadas, tanto externa quanto internamente; já tomei anti-inflamatórios e antibióticos mesmo sem ter ido a um médico: prefiro morrer quieto, no meu sofá, do que esperando atendimento numa unidade de saúde pública. Nada fez efeito e a dor persiste. Meus gatos não param de miar e já chutei um deles, aos berros, até o quintal. Nunca fiz isso antes. Não sei se tenho febre, mas meu corpo é a sensação de estar num micro-ondas de função invertida. Ou seja, sinto frio, mas sinto calor e não sei explicar isso também. As manchas no teto não me dizem muita coisa: um cachorro morto, apodrecendo num aterro sanitário; um elefante correndo atrás de girafas; um pássaro atingido por uma flecha. A dor é como um mar revolto: ondas que arrastam e destroem cada milímetro do meu corpo, em velocidade constante e sem sinal de que haverá um fim. Ontem revirei meu nariz com uma pinça, retirando cada fio de cabelo que havia em seu interior, procurando alguma ferida, alguma pústula, algo de anormal. Foi uma dança terrível em frente ao espelho me equilibrar com uma pinça e a lanterna do celular. Tenho as narinas de um cheirador de pó agora, mas não vi nada de anormal. Pesquisei no google e descobri que tenho um tumor ou uma sinusite de modelo extremo, o que é a mesma coisa de dizer que não sei o que tenho. Não há explicação para o que sinto e não sinto nada além dessa maldita dor. Você pode estar com todos os malditos problemas do mundo, pode até estar doente, com alguma outra coisa que não consigo lembrar o nome, mas a dor é a coisa que nos coloca no momento presente. Sequer o prazer é capaz disso. Pense numa farpa atravessando sua mão ou no seu dedo acertando alguma quina de móvel ou qualquer outra dor típica do dia a dia: é isso que sinto no meu nariz há quinze dias. Ininterruptamente. Acho que dormi um pouco ou, pelo menos, não me lembro dos últimos acontecimentos. Já escureceu. A tv está ligada, mas não consigo ouvir o que ela diz. Só imagens retorcidas e pessoas disformes. Tento me levantar e meu corpo parece o peso de um mundo ou a sensação de um cadáver. Estou suado e frio e quente e trêmulo. Sinto algo se revolvendo no meu nariz e imagino que seja outro sangramento ou mais um pouco do catarro escuro que sujou meu travesseiro na última noite. Levanto. Apoio as mãos nos sofás, depois na parede, e consigo, quase me arrastando, chegar ao banheiro. Paro em frente a pia e passo minha mão, devagar, no rosto. Não há sangue ou escarro. Ainda trôpego, volto à sala e pego o celular: preciso da lanterna de novo. Vou ao espelho no meu quarto. No espelho, meu nariz parece normal. Só um pouco avermelhado, pelo excesso de fricção que tenho provocado, mas não está muito inchado. Nem aperto-o: a dor é terrível em toda a extensão. Lá fora, o gato que chutei mia alto e triste, como um lobo que nunca ouvi uivar. Com a lanterna, tento iluminar a cavidade nasal. É um pouco trabalhoso, mas, depois de alguns segundos, noto uma mancha branca, lá no fundo da cavidade nasal, entre meatos e conchas e septo. A mancha branca se mexe e acho que é um catarro ou algum tipo de pus. Deixo o celular cair. Estou trêmulo. Acho que, afinal, tenho um medo absurdo da morte, mas talvez sejam só meus nervos nesses dias que acho que são de febre. Assoo o nariz e nada sai. Torno a pegar o celular e torno a olhar dentro de minha narina. O movimento da mancha branca agora é rápido, como um verme gigante dentro de mim. Equilibro-me em frente ao espelho e, apreensivo, noto uma pupila dilatada hipnotizada pelo facho de luz que entra por minha narina. Em volta dela, uma íris avermelhada e um globo úmido e esbranquiçado brincam de se esconder sob uma pálpebra escura que pisca para mim.

 

 

O mal estar da televisão

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A coisa triste e engraçada de se reclamar do que se passa na tevê é que, independente do que assisto, só o faço por vontade própria. O botão de liga/desliga está sempre ao alcance, a tomada a dois metros, no máximo, e a porta da rua é a serventia da casa.

Outra coisa triste é que, ao reclamar da televisão, anuncio que sou velho: jovens de hoje não veem televisão. Pelo menos, não como era vista antigamente, nas décadas de 80/90. Os jovens de hoje veem tevê pela internet e vem a internet pela tevê e nunca saberão o que era a tevê antiga, com seus chuviscos, com seus ruídos e queda de sinal, essa predecessora da internet discada em sua forma de fazer sofrer.

A programação televisiva era, e é, terrível com suas propagandas intermináveis e seu volume variável. O que, hoje, também não se diferencia dos canais da internet em que se é impossível ouvir uma música sem que, para ouvir a próxima, não tenhamos que pagar; ou ouvir a Bettina, a Anitta ou um curso milagroso de inglês, chinês ou javanês enfiando-se entre “o rei do gado” e “o rei do café”.

Outra constatação, que só a idade é capaz de oferecer, é que a programação televisiva é infalível em sua capacidade de piorar: Fátima Bernardes é pior que tv globinho, mas tv globinho era pior que xou da xuxa e xou da xuxa era pior do que qualquer coisa anterior. Cito a globo e essa programação matutina por conta de ser velho e preferir falar de desenhos do que de doenças raras do anos 80 que eram o mote do fantástico e porque, na minha cidade, era o único canal com um mínimo de qualidade pra ser visto. E utilizo, aqui, o termo “qualidade” me referindo ao que era fornecido como imagem, não como programa.

E hoje, à parte essas questões que podem ser, todas, do saudosismo (e o que de bom não é saudoso?) vejo que sofro ainda mais ao ver os programas que dizem ser para pessoas da minha idade: o noticiário.

Esqueça os desenhos.

Esqueça as dicas de beleza.

Esqueça o cordel carioca remixado com funk.

O que há para ser estudado e registrado na história como a maior das perversidades da televisão brasileira são os ditos “programas de notícias”.

É importante se manter informado, buscar conhecimento, saber explicar que Plutão não é mais um planeta, porque o feijão custa mais que um fígado e que diabos é essa reforma que está dando mais canseira que trocar cerâmica sem sair de casa. O único problema é que você nunca vai entender isso vendo o noticiário nacional.

O noticiário é um jardim de infância de psicopatas.

Qualquer apresentador de noticiário seria facilmente o personagem principal de um novo filão de horror em que jovens imberbes à procura de transar, em vez de serem perseguidos por um maluco com um facão, são condenados à ouvirem seus gritos estridentes e sua narração de uma manhã de feriado no Coliseu até tornarem-se zumbis ou novos psicopatas.

No meio de qualquer lugar, eu correria desesperadamente vendo qualquer desses apresentadores e seus anúncios de fim de mundo.

Há a incitação clara à violência nesses programas. Aqui, em meio aos gritos loucos de “esse filho da puta”, “esse desgraçado”, o que se ouve é: vamos fazer pior com ele. Já cansei de ouvir assíduos telespectadores desse tipo de coisa à detalhar como estupraria tal sujeito com a perna de uma mesa, como os destrinchariam com mil cortes delicados, como gostariam de vê-los sofrerem.

Que diabo de tara é essa, gente?

Outro tema, sempre pesado, é o estupro.

Nesses programas, contudo, é difícil entender se o apresentador sabe o que é lógica ou mesmo o que é um estupro. Há sempre uma tendência, clara, mas nunca declarada, de julgar esse tipo de violência baseando-se no biotipo da vítima. Repare: um estuprador é visto como um criminoso quando violenta mulheres jovens e belas. E visto como o próprio demônio manco das escrituras que cuspiu em Deus quando estupra idosas. Se a vítima é bonita: cadeia nele! Se é uma idosa ou acamada: um sujeito desse tem que ser jogado no seguro (onde se colocam os estupradores e os ameaçados de morte, na cadeia…), um sujeito desses tem que capar com gilete.

O mote atual: violência doméstica.

Minha primeira ressalva é que, quando é um homem sendo agredido, a música de fundo é a dos desenhos Looney Tunes e a sonoplastia do Batman dos anos 60. A vítima, nesse caso um ser humano do sexo masculino, além da agressão, é humilhado por sua fraqueza física e emocional, é enxovalhado aos quatro ventos.

E ai se ele ameaçar revidar.

Aí, ele acabou de pisar no inferno.

Os papéis se invertem e a vida, de fato, nunca fez sentido.

Dentro, ainda, do absurdo da violência doméstica, a morte de uma mulher sempre é, também, medida por sua beleza em vida. “O que que a gente faz com um sujeito que mata uma mulher bonita dessas, Galinho?”, pergunta o apresentador à um galo empalhado e empoleirado no meio do palco (sim, é um circo, só pode…).

Se ela fosse feia, ele perguntaria o quê?

Se ela fosse feia podia, então?

Falar nisso: qual foi a última foto de uma mulher “feia” que você viu no noticiário como vítima de homicídio doméstico?

Os noticiários…ah, os noticiários e seus anúncios de que o homem pisou na lua, de que a poliomielite está erradicada, de que dias melhores virão. Se virão, honestamente, que venham logo. Enquanto isso, infelizmente, sou obrigado a ser saudosista.