Sr. Amaro

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Acabava de voltar do enterro e, ao abrir a porta, encarou o silêncio da casa com desânimo. Não era a dor do luto ou o sentimento pesado de ausência. Sentiu mesmo um desânimo incomensurável ao olhar o interior da sala, as coisas todas por fazer, o cheiro de escuridão e silêncio. Imaginou a mulher deitada, algodões enfiados em seu nariz, o calor úmido do solo começando a impregnar as rendas e as flores no interior do caixão.

Acendeu a luz, tentando expulsar o temor do escuro, mas percebeu que as sombras adquiriam vida própria, como ervas daninhas, querendo dominar o ambiente, engolir a placidez de um lar em que, depois de décadas, finalmente habitava o silêncio. A esposa era um marca-passo de barulhos e gritos e ordens e coisas caindo e torneira ligada e luzes acesas. Agora, ela morta, parecia-lhe que as coisas inanimadas finalmente tinham a liberdade de assumir suas vontades e exercerem o mutismo lógico das coisas inanimadas.

Sentou-se no sofá e pensou em ligar a tv. Depois, imaginou que seria uma ato ignóbil, uma ofensa ao corpo quase putrefato da mulher (mulher?), e resolveu apenas tirar os sapatos. Olhou as solas, na espera de encontrar um cheiro diferente, algum tipo de carimbo que se obtém ao visitar um cemitério, um grão diferente da poeira que recobre tantas vidas que se acabaram. Não viu nada de anormal, mesmo assim enfiou o sapato ao lado do sofá e levantou-se para lavar as mãos.

No banheiro, olhou os olhos cansados. Uma noite inteira velando, cumprimentando parentes e amigos, consolando os filhos, todos já adultos, enquanto pensava nos compromissos que seriam adiados, na nova dívida fúnebre adquirida. Vez ou outra, sentado ao lado do caixão, olhava para o rosto plácido da mulher. A pele alva quase camuflada por entre os tecidos e as rosas brancas que a ornava. Em sua mente não conseguia ligar que o cadáver, ali ainda insepulto, fosse a mesma matéria orgânica que, na parte da manhã, havia feito café e ovos fritos, depois tomado dois comprimidos e, de um mal súbito, caíra para nunca mais reerguer-se. Ele estava no banho. Sequer escutou a queda. Ou talvez tenha escutado mas, como tudo depois, as coisas se perderam num vão de memória líquida e, neste momento, ele não consegue sequer dizer o que fez em seguida: ligou para o filho mais velho? Correu ao vizinho? Ligou para o trabalho (“irei faltar na segunda…”)?

Saindo do banheiro, vai até o quarto. A cama está arrumada. Alguma alma nobre, vendo as cobertas bagunçadas da noite anterior, teve a prudência de manter a fama de boa dona de casa para a falecida. Ele retira as roupas e, de cuecas, pensar em tomar banho, mas pensa que achar uma toalha limpa neste momento será trabalhoso e entediante. Pensa em se deitar, mas o calor é muito. Não, não está tão quente, na verdade, ele pensa que a cama, com apenas ele deitado, parecerá insuportavelmente grande. Sua cabeça começa a sentir o peso da noite em claro, o sono aprisionado querendo ser liberto. E ele também tem medo de dormir e sonhar; sonhar que tudo foi um sonho; sonhar que ainda não se levantou; ou que talvez a esposa esteja na cozinha fazendo o café; ou talvez sonhar que estes dias se repetirão, que o ontem terá morte, esquecimento e vigília e o hoje será de sepultamento e condolências.

Deita-se sobre o tapete de crochê que está posto próximo à cama. Foi a esposa quem fez este tapete, como fez muitos outros que estão espalhados pela casa. Seus dedos passeiam sobre os nós, caminham sobre o desenho, percebem as nuances de cada ponto. Pensa que, há muito tempo, os dedos da esposa também tocaram este tapete e, enquanto fazia-o, ela pensava em coisas mais amenas do que enterrar o marido ou fazer café com ovos todos os dias de manhã.

Não sabe como será o amanhã. É um homem perdido em um instante em que sequer tem certeza sobre a existência do ontem. A vida agora é este desengano, esta espreita de móveis e sombras que tentam dominar o que um dia foi um lar.

Deitado no tapete, de cuecas, ele boceja. Suavemente o sono domina-o e, sem ter mais consciência de seus gestos, seus dedos apertam os nós do tapete como se apertasse a mão da esposa.

E esta é a primeira vez em que, depois de trinta e sete anos, adormece sem ter a esposa ao lado.

 

 

MARCOS SILVA

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O SOLDADO

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O soldado esquecido na vala de combate encara o céu e seus companheiros mortos.
O olho de outro soldado – um olho solto, perdido no chão de lama – fita o soldado esquecido.
Enquanto isto, o céu esplêndido brilha um anil tão bonito que enlouquece
as pupilas deste soldado esquecido na vala de combate.
A boca de outro companheiro borbulha sangue e saliva.
No chão, pedaços jovens do que um dia foram pessoas.

Solitário entre os mortos, pensa na casa para onde nunca retornará.
Lembra-se do cheiro da cozinha de sua mãe.
Lembra-se do gosto do suor nos seios da amada.
O soldado esquecido, antes de morto, está só.

O soldado esquecido, confundido com outros mortos,
respira a vida que lhe foge enquanto
encara o céu anil que brilha, reluzindo um sol dourado que a tudo ignora.
Este é o céu mais bonito que já viu em sua vida.

Mas, desta vala, o soldado esquecido nunca sairá.

MARCOS SILVA

Cinzas

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Este mês, até agora, morri  vinte e nove vezes…
Fosse quando encarava meu rosto no espelho;
quando tinha de encarar o sol que surgia;
ou mesmo quando meu rosto sorria.
Todos os dias…
Mas minhas cinzas persistem em se acumular nos cantos da casa,
sobre os móveis, os tapetes, as cartas escritas e não enviadas.

E meu corpo insiste em reviver com a mera imaginação de seu toque…

MARCOS SILVA

Olhos

cegueira

 

Não tinha os olhos.

Devido ao atraso no diagnóstico, passou por todas as fases do linfoma, suportando por meses os olhos inchados e vermelhos, uma coceira constante. Depois, ouvindo a notícia do único oftalmologista que perdeu tempo estudando seu caso, sentiu que iria morrer em breve. Afinal, era um tumor que tinha em seus olhos e, no dia em que soube, dormiu agarrado aos exames enquanto pensava que o tumor, decerto, estava em seu cérebro e começava a espalhar-se, saindo de seu corpo.

Mas era apenas um tumor nos olhos.

Iniciou os tratamentos e pensou em desistir quando soube que a quimioterapia seria através de injeções oculares. Injeção ocular deve ter sido o termo mais ameno que conseguiram inventar para alguém introduzir uma agulha com veneno através do olho de outra pessoa. Suportou o tratamento, as injeções, os pesadelos de uma massa negra e putrefata alimentando-se de seu cérebro e expandindo-se pelo mundo.

Não houve solução.

Precisou ter os olhos retirados.

Os dois globos oculares, pensava depois, teriam sido postos sobre panos azuis em uma sala de cirurgião iluminada enquanto os médicos comentavam futebol ou pornografia.

Quando acordou na enfermaria, imaginou que ainda era noite. Tudo escuridão. Mas escutou carros e pássaros e passos no corredor e o tumulto típico dos dias. Por alguns minutos teve ainda o pensamento atroz de que continuava na mesa de cirurgia e de que, logo, sentiria pinças e agulhas costurando suas pálpebras.

Os médicos fizeram um excelente trabalho, dizia-lhe uma enfermeira. Pena que você não pode ver o resultado final. Esta foi a primeira piada que ouviu enquanto se recuperava.

Não sabia mais se estava num hospital ou num show de horrores. Abafava o rosto contra o travesseiro com medo de chorar. (Podia chorar?) Eram tantas medicações, tanto soro fisiológico, tantos cuidados com a cicatrização, que nunca soube se chorara durante aqueles momentos ou se eram apenas os medicamentos escorrendo por seu rosto.

Para sua surpresa, entretanto, estava curado. Não tinha tumor no cérebro, a mera extirpação de seus globos oculares resolveram o problema, podia levar uma vida normal dali em diante. Os médicos diziam todas estas coisas como um dentista que termina de retirar um siso.

O que era a vida normal, afinal?

Foi pra casa de táxi.

Era sozinho no mundo, no auge de seus quarenta anos, e nada do que fizesse, de hoje em diante, mudaria isto. O taxista foi atencioso e o ajudou a descer do carro e a abrir a porta. Ficou parado na porta por muito tempo, sentindo o cheiro de poeira e mofo, antes de resolver entrar. Era como se invadisse um lugar proibido, uma residência alheia. Ele não era mais o dono daquela moradia. Era um intruso que tateava no escuro, tentando o roubo, tentando não ser pego.

Ouviu o barulho do taxista fechando a porta e o imaginou fazendo o sinal da cruz, pensando nas impiedades humanas. Tateou pelos móveis, sentiu o pó em seus dedos, esbarrou em objetos jogados por todo o lado, até que conseguiu alcançar o sofá e sentar-se.

Que diabo de vida seria esta a partir de agora?

Cego, incapacitado, sozinho…

Passou o dia todo no mesmo sofá, com medo de levantar-se, mexendo-se apenas para tomar os medicamentos que, por bondade de uma enfermeira de voz suave e tom baixo, lhe orientara que seriam três comprimidos por vez, de oito em oito horas (como adivinhar as horas?) e que os três estavam envoltos em papel alumínio. Bastava pegar o pacotinho (prata?), desembrulhar e tomar a medicação.

Não levantou-se para buscar água. Tomou os comprimidos com a saliva amarga que brotava em sua boca.

Sentiu fome (madrugada?), mas não levantou-se.

Talvez tenha dormido sem perceber.

Muitos anos depois diria que, pela primeira vez desde o diagnóstico, não havia sonhado com o tumor no cérebro, mas com uma melodia suave e de tom baixo que adentrava pelas paredes, iluminavam a casa empoeirada e perfumava seus sentidos.

Batidas na porta?

Pensou em fingir-se morto, fingir ausência, fingir surdez.

Num movimento involuntário, passou as costas das mãos sobre o lugar onde antes eram seus olhos, como  se estivesse acordando, mas sentiu as linhas dos pontos como pequenas agulhas dançando sobre sua pele. Chorou desesperadamente, soluçando, como se fosse apenas o pesadelo que retornasse para dizer que a escuridão seria eterna, que a vida seria este breu imenso que o preenchia, que estava dentro dele o tempo todo, mas que ele nunca tinha se posto a abrir os olhos, quando os tinha, para ver.

A voz suave e de tom baixo perfumava o ambiente e ele descobriu que estava mesmo acordado e que alguém, de fato, batia à porta e o chamava pelo nome.

Era a primeira visita que recebia nesta casa.

Tateou, procurando numa bússola mental o rumo da porta, guiando-se pelo som de seu nome, pelo som do toc toc.

Abriu a porta e a voz da enfermeira que lhe dera os comprimidos penetrava em seu peito como uma chuva que lavasse seu coração.

Ela deslizou a mão sobre seu braço, como se dissesse, estou aqui…

Tornou a chorar ao perceber que teve de ficar cego para ser visto…

 

 

Marcos Silva

ODE

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Não sei quem tu és, mulher, e nem que deus teceu a pele de teu corpo.
Não sei teu nome, teus gostos, teu gosto…
Te vejo as costas nuas e a beleza te inunda e inunda meus olhos.
Se tu, assim, já me atrai tanto, que sobrará de mim quando te conhecer cada nuance?
Quando te encarar o sorriso? Te apreciar o toque?
Enfiar-me entre tua vida, teus cabelos, tuas pernas?
Dentro de ti, perdido em teu fogo, sobrará cinza de mim?

 

MARCOS SILVA

PÁSSAROS

beija flor

 

Há três dias, os pássaros começaram a cair no meu quintal.

Todos mortos.

Juntei os pequenos cadáveres em sacolas de supermercado, no primeiro dia, e coloquei na rua para que o lixeiro lhes desse destino. Eu poderia ter me alarmado, mas pardais e pombos nunca me fizeram falta. Ao voltar da rua, já reencontrei alguns outros mortos pelo caminho. Era como uma goteira.

Não consegui dormir durante a noite. O barulho vinha em espaços não definidos, atingindo o telhado e o quintal. Fiquei pensando não na morte dos pássaros, mas no absurdo de haver algum voando sobre meu quintal à noite, horário em que deveriam estar dormindo e não gotejando em meu telhado.

Depois da primeira noite insone, juntei todos os pássaros mortos novamente e tornei a colocar as sacolas de “lixo” na rua. O lixeiro não havia passado no dia anterior e as sacolas se acumularam, deixando principiar um cheiro de morte. Outra coisa que estranhei é que os malditos gatos e cachorros não vieram rasgar os sacos de lixo. Saí pra passear buscando me livrar da sensação de um bairro que começava a morrer junto com seus pássaros. No fim da tarde, quando voltei, outras dezenas de pássaros apontavam seus peitos para o céu, asas esticadas e duras, pescoços tortos, pernas finas arqueadas: mortos.

Passei outra noite insone, tentando contar cada pancada que soava no teto, mas desisti e fui para a calçada no meio da noite, que seguia morna e calma. Sentado e fumando, vi o dia amanhecer, os primeiros trabalhadores e estudantes seguirem seus destinos. Observei os vizinhos ressuscitarem do sono e seguir para uma vida que, para mim, cheirava a penas e morte.

Ao entrar, já supunha o flagelo de penas e ossos finos espalhados pelo chão e isto não me surpreendeu. Surpreendi-me, porém, com a cena que já acreditava perdida para sempre. Com os pés agarrados à tela do quintal, um pequeno beija-flor, de asas verdes e peito azulado, me observava. Vez por outra, retirava a fina língua de dentro do bico, como se tivesse sede.

No chão, parentes distantes da pequena ave jaziam como se fossem enfeites da terra, mas totalmente desconectados de seu ambiente, o céu.

Tentei me aproximar do pequeno beija-flor, mas ele voou célere pelo quintal, com suas asas ágeis, fazendo estripulias áreas. A vida, com este voo, me cheirou a normalidade e respirei como quem volta de um longo mergulho, sentindo meu peito se encher de novo de vida e esperança.

Acho que uma lágrima caiu quando entendi o valor do voo daquele pequeno pássaro, aquele voo com gosto de vida. Neste instante, ouvi a campainha tocar e, ainda suspirando forte, senti dentro de mim que era você voltando.

MARCOS SILVA

 

MODOS

tântrico

Ela me olha, súplice, e pede pra que eu leia o folheto. Eu, no meio do telejornal, pego o pedaço de papel e olho-o, lendo mas sem prestar atenção. Não entendo muito bem alguns termos: tantra, pompom, tao. Eu, que nunca fui o tal em nada, muito menos em outras línguas, pergunto pra ela do que se trata. Ela toma o folheto da minha mão e abre-o. Finge ler e eu entendo que é porque já decorou o que está lá. Fala da necessidade de melhorar nossa vida sexual, que os anos de casamento já estão entediando, que deveríamos fazer algo de bom pelos dois para que voltássemos para a ligação que tínhamos. Eu escuto tudo calado, com um olho na tv e o outro nela. Ela continua dizendo que o sexo tântrico é uma forma nova e especial de conhecer o próprio corpo e de melhorar o desempenho sexual. A encaro e pergunto se está me chamando de broxa. Ela diz que não, que apenas está procurando um jeito de melhorar nossa vida na cama. Minha vida na cama é ótima, digo, deito e durmo maravilhosamente bem. Ela faz um muxoxo e eu pego o folheto da mão dela, para entender melhor. Spa Luz e Toque cursos de descoberta cursos de pompoarismo cursos de massagem tântrica, leio tudo assim, na pressa. Caio os olhos nas fotografias e vejo mulheres seminuas, cobertas apenas o sexo com tecidos multicoloridos, vejo homens sem camisa sendo massageados, vejo um corda presa a três bolinhas plásticas. Arregalo um olho e fecho o outro. É o sinal para ela perceber que não entendi nada. Ela explica que falou com a terapeuta e que ela recomendou que eu e ela, para aumentar a união e a energia entre nós, fizéssemos os cursos de massagem e de pompoarismo. Eu perguntei se ia me custar o rim esquerdo, como a última reforma me custou o direito. Ela sorri e sabe que eu vou aceitar. Aquele sorriso desgraçado dela me faz aceitar qualquer coisa. Ela me beija e vai pra cozinha. Eu pego o celular e, curioso, pesquiso mais sobre o tema. Na parte das explicações, as mesmas palavras estranhas com nome de sabonete de bebê ou de filme indiano. Mudo pras imagens. Aí que a porca torceu o rabo e eu me retorci no sofá. Me pareceu um negócio muito interessante: mulheres abraçadas, sentadas uma sobre a outra; homens sendo massageados por vinte mãos diferentes; objetos de fetiche; abraços calientes. Tudo em fotos muito coloridas, com tons fortes. Um verdadeiro oásis de sexo na rotina dos dias. Cheguei quase a me excitar. Ela voltou da cozinha e perguntou se eu aceitava mesmo. Fingi desinteresse, mas disse, sim, tudo por você, meu amor. Ela me beijou e saiu rebolando. Dei um tapa na bunda dela. Me falou que já tinha ajeitado tudo, a desgraçada, e que no outro dia cedinho iríamos para lá. Quase discutimos, porque achei uma desfaçatez dela agendar sem minha anuência, e fomos dormir cedo. Não transamos e eu acordei como nos outros dias: sem ter transado de noite. Fazia algum tempo que estávamos assim. Não era culpa dela e não era culpa minha. Acho que eu queria conhecer novas bocetas, ela novos paus, mas no casamento monogâmico não tem espaço pra curiosidade e descoberta, só pra aceitação. No outro dia cedo saímos e rodamos meia cidade até chegar numa chácara num bairro afastado. Muros altos, tudo muito bonito. A cara de um spa ou clínica. Nos recepcionou uma moça muito bonita e educada, trajando roupa de enfermeira. Fiquei meio trêmulo: detesto agulhas. Só a visão da enfermeira já me dava calafrios. Por sorte, após a entrada, apresentava-se um jardim muito bonito e, com o ar puro, respirei melhor. Uma outra moça, esta com roupas de academia, muito justas e coloridas, nos indicou que deveríamos ir para a sala de introdução, no corredor à direita. Cochichei no ouvido da minha mulher que se fosse pra introduzir as bolinhas, eu saía correndo, mas não sem antes esbofetear quem tentasse. Ela estava séria e me mandou calar a boca. Entramos na sala e haviam mais seis casais. Meu lado putista logo pensou: oba, suruba! Mas o povo se mostrou muito tranquilo, muito paz e amor. Tinha cheiro de incenso e mandalas por todo lado. Pensei na Jocasta da Vera Fischer. Eu era garotinho e a Vera me fez passar bons momentos no banheiro. Minha mulher viu que eu voava e me beliscou suavemente. Chegou a professora. Uma senhora de 50 anos, magra como uma tábua de passar roupa, usando uma manta indiana, creio, já que tinha um tipo de elefante na estampa colorida e não era o Dumbo. Pensei que se fosse suruba com ela, preferiria as bolinhas. Começou falando do energizar dos sacras, dos fluidos que percorrem os corpos, do poder sexual que nos liga à vida. Eu prestei atenção na hora em que ela falou de sexo e olhei para as outras mulheres. Todas dondocas elitizadas, provavelmente com curso superior e família esnobe. Provavelmente traíam o marido e nunca tiveram uma foda decente. Os homens eram outros mequetrefes em suas vidas vazias e pintos murchos. Como não sou burro, logo fiquei meio deprimido: eu estava ali, com eles, então, decerto era também um deles. Aquele começo de depressão foi legal que me fez prestar atenção no que era dito. A professora falava agora que as mulheres aprenderiam a fortalecer a musculatura vaginal para dar mais prazer a si mesmas e a seus maridos; que em breve seriam capazes de apertar com a vagina a base do pênis, impedindo o gozo; que sugariam o pênis como se suga com a boca; que travariam o pênis, que ordenhariam, que torceriam. O negócio começou a ficar interessante, pensei. Este tanto de mulher agachada, mexendo os lábios da boceta até conseguir fazer isto tudo e eu só observando… Dinheiro bem empregado, este. Depois ela foi falar dos exercícios para os homens e eu logo me entediei: eram pesos pra carregar no pau. Nunca gostei de academia e se meu pau ficasse mais forte era perigoso minhas calças não servirem mais. Além do quê, um bando de homem com o pau carregando pesinhos por uma sala, quase me fez disparar em fuga. Depois dessas apresentações todas, fiquei sabendo que meu curso seria o de casais, então, tudo que eu faria, seria com minha esposa. Ou seja, nada de suruba, nada de bocetas arreganhadas abrindo e fechando. E, graças a deus, nada de paus com pesos. Mas, como sempre, minha alegria durou pouco . Começou a oficina. Minha esposa parecia estar num playground. Eu me sentia numa peça infantil no papel de árvore. Tudo muito enfadonho, tudo muito chato. A melhor coisa era observar as bundas arrebitadas das dondocas. Comecei a pensar em sair, mas minha mulher ia me matar se fizesse uma bobagem desta. Fui ficando. E quanto mais ia ficando, não sabia se era para ficar de pau duro ou não. Teve passação de mão, eu na minha mulher e ela em mim, deixo claro, teve suspiros nos ouvidos, teve beijos sem tocar os lábios. E teve a hora de tirar a roupa. Não era obrigatório, mas a coisa fluiu tão bem que todo mundo tirou. Já gritei dentro de mim: suruba! Mas, então, percebi que ninguém se olhava, no máximo, olhavam pro companheiro, companheira. Era um negócio muito profissional mesmo, muito intimista. Minha mulher se sentou em cima de mim e eu deveria apenas encará-la. Meu pau queria ficar duro e eu me controlava pra não deixar. A gente fica a vida inteira querendo que o pau fique duro sempre que a gente queira, mas aí chega neste ponto da vida, no meio de estranhos, rezando pra não passar vergonha com o pau duro. Fizemos uma massagem nas costas um do outro. Tava tudo muito bacana. Mais achei mais bacana ainda quando acabou. Escapei das bolinhas e da professora com corpo de tábua. As mulheres foram convidadas a irem para outra sala: era o curso pra aprender a ordenhar com a boceta. Os homens se permitiram relaxar um pouco, mas logo chegou um professor, já peladão, com o saco todo depilado. Já vi coisa feia, meu deus, mas homem que raspa o saco, o peito, os braços, isto não me cheira bem. Gosto do meu cabeludo, com os pelos pretos enroscando. Fica parecendo que tenho uma almofadinha sob a cueca. O sujeito indicou uns pesinhos, mostrou os movimentos que deveríamos treinar em casa. Ficava balançando o pau duro pra lá e pra cá. O meu estava murcho como bunda de velho. O dia acabou passando rápido, ainda bem. Teve comidinhas, trocas de telefone (oba, swing!), promessas de contato. Minha mulher saiu cheia de sorrisinhos, me abraçando, dizendo que ia me fazer loucuras. No meio do caminho eu parei o carro e puxei ela pra cima de mim. Meu pau já duro pra cacete, só arredei a calcinha dela pro lado e ela rebolou como uma doida em cima de mim. Gozei em menos de dois minutos. Olhei pra minha esposa e falei: você ordenha muito rápido, deste jeito arranca as tetas da vaca. Ela me deu um tapão no pescoço e voltou pro banco do passageiro. Eu comecei a rir e ela, acho que de raiva, gargalhou. Me falou que já tinha acertado tudo pra fazermos outro curso. Pensei: agora sim, suruba!. Ela me deu o folhetinho do curso de respiração primal. Entortei um olho e fechei o outro. Ela deu um sorrisinho e falou pra gente ir logo pra casa, que estava com pressa pra ver a novela.

 

 

MARCOS SILVA