O SOLDADO

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O soldado esquecido na vala de combate encara o céu e seus companheiros mortos.
O olho de outro soldado – um olho solto, perdido no chão de lama – fita o soldado esquecido.
Enquanto isto, o céu esplêndido brilha um anil tão bonito que enlouquece
as pupilas deste soldado esquecido na vala de combate.
A boca de outro companheiro borbulha sangue e saliva.
No chão, pedaços jovens do que um dia foram pessoas.

Solitário entre os mortos, pensa na casa para onde nunca retornará.
Lembra-se do cheiro da cozinha de sua mãe.
Lembra-se do gosto do suor nos seios da amada.
O soldado esquecido, antes de morto, está só.

O soldado esquecido, confundido com outros mortos,
respira a vida que lhe foge enquanto
encara o céu anil que brilha, reluzindo um sol dourado que a tudo ignora.
Este é o céu mais bonito que já viu em sua vida.

Mas, desta vala, o soldado esquecido nunca sairá.

MARCOS SILVA

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POEIRA NO AR

CAPÍTULO 07

Depois do almoço, de uma dúzia de latas de cerveja, duas doses de campari pra mim e duas doses de vodka pra ele, resolvemos ir num lugar menos movimentado e mais escondido pra continuar a tarde e por a cachola no lugar.

E onde tem, no meio da tarde, bebida gelada e sossego?

Zona, é claro.

Duas horas da tarde não é um horário que eu chamaria de decente pra se frequentar uma zona. Mas eu não tinha nada melhor pra fazer. Fomos.

Chegando lá, descubro que tenho uma amiga puta.

Conhecida minha, de muitos anos atrás. Tínhamos estudado juntos no colegial. Tentei trocar uns beijos com ela naqueles tempos, mas ela me ignorou. Foram-se muitos anos e topo com ela no puteiro. Na verdade, ela que topou comigo.

O puteiro era um prédio de dois andares. Muito discreto. Dentro era como uma casa bacana qualquer: sala, cozinha e muitos quartos. Na sala, diversos sofás e uma bancada de mármore servindo de bar. As cortinas vermelhas permitiam que as prostitutas vissem os fregueses, mas não que os fregueses as vissem. Uma maneira clássica de evitar transtornos com namorados ou parentes.

Já tive outras experiências em zonas: numa levei um tapa da dona do lugar – não me lembro do motivo. Noutra, precisei esperar um conhecido me levar o dinheiro pra pagar meia dúzia de cervejas. Mas nunca transei com uma prostituta declarada. Muitos menos numa zona: as camas me soam mais terríveis que as de motéis.

Sentamos em um dos sofás, cada um com uma cerveja, e vimos os suaves movimentos das cortinas. As garotas olhavam se éramos conhecidos, se éramos agradáveis. Várias passaram, mas, depois de algum tempo, apenas seis saíram. O que me faz lembrar que se você sofrer de crises de ciúmes ou de sensação de perseguição: não vá numa zona. Em puteiro decente, tendo as putas a possibilidade de verem o freguês antes dele, você pode ficar pensando se a sua esposa ou sua mãe foi uma das que voltou pro interior da casa.

Mulheres negras, brancas, loiras, morenas, ruivas, lingeries apertadas, fios finos, babydolls, saltos altos. Altas, no geral, mas, quando há baixinhas, geralmente são as mais bonitas. Não sei o motivo. Uma mistura de todos os sonhos em um espaço estreito.

Mas neste tipo de lugar acabam-se as ilusões: o que existe é o comércio. Elas querem se vender, você pode – ou deve – comprar uma ou várias ou todas, dependendo de suas finanças.

Meu amigo logo me deixou e saiu com uma das garotas, rumo ao quarto. Fiquei escorado no balcão, segurando meu copo e esperando as investidas. Mesmo pobre, se você está na zona, as mulheres vão até você: é o melhor lugar do mundo pra se conseguir mulher. Porém, lembre-se: como lá fora, sem dinheiro, o resultado final pode não ser o que você deseja.

Ela se aproximou e perguntou como eu estava.

Não notei que a conhecia.  Nem olhei pro lado, pra ser honesto. Disse que apenas acompanhava um amigo. Ela disse que eu não tinha mudado e foi aí que a olhei.

Quando me virei e prestei atenção, encarei a mulher de lingerie preta com detalhes vermelhos, cinta liga, rendas, coxas à mostra, um decote fenomenal e foi como encarar um retrato antigo sendo revitalizado. É estranho encarar uma mulher assim, quase nua, tão perto, mas sem ter intimidade com ela. Depois de muitos anos de casado você vai olhar pra uma mulher com as mesmas roupas que ela e, muito provavelmente, vai perguntar o que está acontecendo.

Fingi desdém. Não que não a desejasse. Só senti que não, não era ali, o tempo não deveria misturar este momento com os anteriores dela. A reconheci e encarei as coxas brancas e grossas, os seios pequenos. Era linda: uma esperança na guerra. Mas não aconteceu antes, e não seria agora minha vez. Esbocei um movimento de lábios: alguém, com esforço, afirmaria que sorri. Ela pediu pra eu fingir que não a conhecia, já que podia complicá-la. Falei tudo bem e, a partir daí, a cada garota que se aproximava, eu dizia que estava interessado nela, que estávamos apenas acertando os detalhes, o que fez com que as outras fossem saindo pouco a pouco da sala.

Ela falou que se lembrava de mim, do tempo na escola. Falei que também me lembrava dela. Mas não disse que, patética e tristemente, também me lembrava de mim: calado, sempre com as roupas amarrotadas, os cabelos bagunçados, muitas vezes numa bebedeira juvenil. Me perguntou se eu imaginava que tornaria a encontrar uma de minhas colegas de escola ali. Eu disse que não perdi tempo imaginando o destino de ninguém e que não me importava.

Ela se assustou.

Depois de alguns segundos, perguntou se era indiferente que ela chegasse neste ponto. Eu falei que todos os destinos são indiferentes pra mim, até porque não é possível mudá-los, e que o destino dela não cabia a mim, mas sim a ela. Deixou os cabelos tocarem o balcão, como se fosse encostar a cabeça, mas não o fez, e perguntou se podia tomar algo. Pedi uma dose. Experimentei e entreguei o copo pra ela: queria me certificar de que o que ela tomava não era água pura.

Após alguns minutos, ela perguntou sobre o que eu me lembrava dela. Eu disse que ela era tão bonita quanto agora; disse que a profissão a tornara mais sedutora, destacando mais sua beleza; mas que esta profissão não a denegria, nem me importava; que o sexo que ela fazia com os clientes, não mudava a pessoa que ela era; que o que ela faz, agora, não é diferente do que muitas pessoas, ditas decentes, fazem na rua, nos quartos, nas paróquias.

Não era mentira, apenas um pouco das muitas baboseiras de livrinhos de auto ajuda que eu sempre uso pra evitar me estrepar como sempre faço quando falo o que realmente penso. Acabei a cerveja e pedi outra. Ela ficou calada por um tempo, até que perguntou o que eu fazia na vida. Disse que respirava e que o resto era consequência.

Meu amigo saiu do quarto, ajeitando as roupas. Fedia a camisinha e cerveja e água sanitária. Não consigo tirar o maldito cheiro de água sanitária da minha cabeça, quando penso que as pessoas fizeram sexo. Me apertou no meio do seu abraço feliz de bêbado que acaba de foder, o que me deu vontade de dar um soco no meio das fuças dele.

A puta Tamires ou Tamires, a puta, cochichou que esperava me ver de novo. Eu disse que sim, sempre que ela quisesse. Pediu pra que eu esperasse ela sair, por volta de sete da noite, que ela falaria comigo. Eu falei tudo bem, a gente se fala. Arrastei meu amigo bêbado para fora e fomos embora.

Não, não a esperei.

Fiquei pensando que é um absurdo uma prostituta flertar com antigos conhecidos em seu local de trabalho. Pouco profissional, eu diria. Deixei meu parceiro alcoólatra na casa dele, fui pra minha, tomei uma ducha e, finalmente me sentindo bêbado demais pra fazer qualquer outra coisa, me dei ao luxo sublime dos desocupados, me deitando antes de escurecer.

 

 

Continua…

POEIRA NO AR

CAPÍTULO 06

 

Fiquei a madrugada inteira caçando piolho na cabeça. Toda hora me batia aquela coceirinha desgraçada de quem está procurando alguma coisa e  não está enxergando merda nenhuma.

Conheci o Tucano há muito anos.

É o tipo de sujeito gente boa, conversador, alegre, sempre sorrisão. Ou seja, os menos confiáveis. E isto se provou por diversas vezes. O sujeito é maldoso como bicho de pé: vai chegando de mansinho, dá uma sensação gostosa, uma coceirinha, daí põe uns ovinhos e depois te fode bonito, deixando uma cratera podre dentro do seu pé. É preciso se cuidar e ficar de olho aberto.

Topei com ele em várias ocorrências, ele sempre receptivo. Tirava várias fotos, assuntava as ocorrências e ficava sabendo muito mais do que estava escrito no boletim. Eu era jovem, batia punheta pra Vera Fischer ainda. Se bem que muito marmanjo ainda bate punheta pra ela hoje em dia. E muitos bateriam punheta mesmo se ela estivesse em uma cadeira de rodas e com um tubo de oxigênio.

Numa das vezes, cheguei num local de homicídio junto com as viaturas. Sujeito dirigindo o carro, do lado a mulher grávida, no banco de trás um amigo de passageiro. Rua escura, mato em volta, dois doidos pulam na frente e metem uma bala no motorista. O cara nem acelerou, nem tentou correr, nem acertou o poste. O Tucano ficou escutando a historia toda, eu fiquei tirando umas fotos do cérebro do cara espalhado no chão. Dava uma pintura abstrata até poética, não fosse um ser humano apodrecendo no auge da vida.

Depois de ficar calado uns dez minutos, o Tucano chamou o passageiro do carro prum canto, longe da viúva, e começou a questionar, pondo pressão, ela confessou tudo, fala seu merda, fala senão vou enfiar este bastão no teu cu. De repente, só vi o tapa estalando na cara do sujeito e depois o chute no saco, o cara se ajoelhando e berrando pelo amor de deus.

Resumo? A grávida esperava um filho de outro. Sim, do passageiro. Os dois combinaram tudo, pediram pra parar o carro, o marido corno ficou sentado, o outro desceu e meteu bala. Tinha uma porra de seguro pra ela e pro filho que viria também, etc, etc, etc.

O Tucano ficou tão bosta que sentou a mão na lata da vadia sem nem ligar pro tanto de gente que estava em volta. Tadinha da grávida, o povo cochichava. Nestas horas que vi que o povo tem é que tomar no cu mesmo.

É assim que o Tucano resolve suas coisas: calado, observando quietinho e, de supetão, vira um terremoto e sai arrebentando tudo.

Ainda bem que aprendi boas coisas com ele.

Noutra, ele enterrou um sujeito embaixo de um bezerro morto, pra ninguém estranhar os urubus, pelo que ouvi dizer, mas nesta eu não estava. Daria pra ficar o dia inteiro contando história do Tucano. No fim da tarde, depois de ter vomitado umas três vezes, as pessoas ficariam com medo até do passarinho voando.

Enfim…

Todos os diabos moram no mesmo inferno. O que é um tédio, afinal, é preciso muita criatividade para criar novos tormentos. Fogo? Temos. Gelo? Temos. Sufocamento, espancamento, estupro, análise anal, decúbito espiritual.

No fim das contas, as porras todas são estas: você está fudido.

Vivendo ou morando no inferno: você está fudido.

Acho bacana a palavra “fudido” por conta de ser tão bem aplicável pra qualquer situação. Você vai ter um filho não planejado? Fudido. Vai se casar? Fudido. Está solteiro? Fudido. Divorciou? Fudido. Não ganhou na mega sena? Fudido. Ganhou na mega sena? Fudido. Fudido. Fudido. Fudido.

Eu não fui fudido, carnalmente falando. E, pra deixa claro, eu sei que fudido é escrito corretamente assim: fo-di-do. Com um ‘o’ do tamanho do cu de quem reclama. Mas sempre tenho a sensação de que quem faz biquinho pra falar fodido com toda certeza já foi fudido n vezes.

Por opção.

E gostou…

E o que isto tem a ver com o Tucano?

Tem a ver que eu estou velho demais pra deixar os outros passarem a mão na minha bunda, quanto mais tentarem me fuder. Vou conversar com o dono da bagaça toda, o cara que o Tucano está pegando arrego. Como maltratei um dos bichinhos dele, ele deve estar doido pra me ver. Só assim pra entender esta história toda.

Olho o celular e tem uma chamada do Teobaldo.

São dez e trinta.

O filho da puta só me liga pra pedir dinheiro, pra chamar pra tomar uma ou pra me avisar que eu estou fudido. Como pode ser pelo último motivo, ligo de volta. Duvido que ele tenha dormido também. Na verdade, já tive minhas dúvidas sobre se ele chega a dormir.

Vamos tomar uma?

Motivo dois, então.

Você paga?

Claro, sou o cara do dinheiro.

Sei. Andou vendendo a bunda de novo?

O viado ri e diz, me pega aqui.

Sou pai de marmanjo nenhum, que eu saiba.

Vem logo, minha bicha.

Desligou.

Já que não vou conseguir dormir mesmo e não vou resolver merda nenhuma, vou tomar umas pra espairecer.

 

Continua…

Cinzas

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Este mês, até agora, morri  vinte e nove vezes…
Fosse quando encarava meu rosto no espelho;
quando tinha de encarar o sol que surgia;
ou mesmo quando meu rosto sorria.
Todos os dias…
Mas minhas cinzas persistem em se acumular nos cantos da casa,
sobre os móveis, os tapetes, as cartas escritas e não enviadas.

E meu corpo insiste em reviver com a mera imaginação de seu toque…

MARCOS SILVA

POEIRA NO AR

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CAPÍTULO 05

 

A casa é amarela. Um sobrado, como se diz, já que tem dois andares. Mas um sobrado pobre. Dá pra entrar pela garagem, pelo portão social pequeno ou escalando as paredes. Como já tem muito tempo que não invento de ser aranha, vou tentar o jeito mais prático.

Deixei o carro estacionado a dois quarteirões. No bolso, o revólver pra alguma eventualidade mas, se tudo correr nos conformes, só vou usar o que esta no bolso da calça, me apertando: vinte centímetros, rijo, firme, com curvas nos lugares certos; uma cabeça que humilha o restante, ainda mais dura e mais larga, do tipo que arromba e aperta e espreme e abre caminhos. A perfeição de um martelo. Prático e inabalável. O Teobaldo leva a cara dura dele e a Severina no bolso da camisa.

O portão de acesso dá direto à porta da sala, com uma distância de não mais que um metro entre um e outro. A grade é de tubos de metal branco e grosso, ninguém arrombaria esta porra, a não ser que viesse de trator. Vamos pedir com educação, que é sempre o jeito mais fácil.

Toc, toc.

Quem tá aí?

Pizza, mano.

Pera.

Ninguém duvida do entregador de pizza. Nem à meia noite. Por curiosidade ou por acreditar que boas notícias batem à porta, o cara que me respondeu gira a chave na porta. O Teobaldo se esconde no canto e eu fico de costas, esperando ele abrir. Quando escuto a porta se abrindo, me giro rápido, mas já vejo que o Teobaldo foi mais rápido ainda e já segurou o braço do sujeito que apareceu.

É o da foto, o sobrinho do Tucano.

O sujeito não tem tempo nem de gritar.

O tranco que o Teobaldo dá no braço dele, puxando ele até a grade, é tão forte que quando ele bate o corpo faz um barulho dos diabos. Olho em volta, pra ver se algum vizinho está bisbilhotando. Não noto nada mas, nesta hora da noite, isto não é sinal de certeza nenhuma. A cara dele está prensada contra a grade e eu chego pertinho dele e falo, faz um favor pra si mesmo e abre o portão, parceiro.

Meio apavorado, ele tenta pensar.

O que uma pessoa pensa nestas horas? Vou morrer? Estou fudido? Voltei à idade fetal?

Não quero saber.

Depois de dois segundos em que fico encarando aqueles olhos esbugalhados e vermelhos dele, eu resolvo acelerar o processo. Retiro o martelo do meu bolso e, segurando os dedos da mão esquerda dele pra fora da grade, acerto uma pancada contra o osso lateral do pulso. Ouço um creck que já ouvi outras vezes, o que me faz recordar que ossos ainda se partem da mesma maneira, desde sempre e para sempre, amém.

Ele começa a soltar um grito, só que o Teobaldo espreme a cara dele com mais força contra a grade e ele se cala. Gemendo e ainda seguro pelo braço machucado, ele alonga o corpo, retira a chave do lado de dentro da porta e depois joga ela pra fora. A pego do chão, abro o portão e digo pra ele, não vai nem convidar pra uma xícara de café, amigo?

Empurro-o casa adentro ao mesmo tempo em que o Teobaldo já sobe correndo as escadas que vão pro segundo andar. O sujeito começa a diminuir o ritmo, como se estivesse tentando pensar no que fazer. Cadê o telefone? Cadê uma faca? Cadê Deus? Antes que ele consiga ligar um neurônio ao outro, torno a acertar o martelo. O osso do quadril é resistente e eu não ouço o creck, só uma pancada seca mesmo. Ele se dobra, ajoelhando, fala ai e eu digo que se gritar, arranco o olho dele com a unha. Seguro-o pela gola da camisa e o faço seguir de joelhos, gemendo, até chegar a cozinha.

Pela cortina feita de tubinhos transparentes observo o contorno do Teobaldo descendo as escadas. Vejo que tem uma perna feminina de cor negra reluzente com ele, mas só vejo a perna mesmo. Os dois ficam em pé na escada e eu vou puxar uma prosa com meu novo amigo.

Dez minutos depois, estou suado e começando a ficar nervoso. E não posso ficar aqui mais tempo já que dez minutos é o tempo médio pra chegar uma viatura se alguém estranhou o movimento na hora de entrar na casa.

Meu novo amigo é o merdinha que se vê em cada esquina: usuário de maconha, cheirador de pó, metido a fodão. Como viramos amigos, ele está super tranquilo e tudo que sabe fazer é responder sim ou não e falar por favor. Descobri quem fornece drogas pra ele, onde ele costuma vender de vez em quando pra ganhar um extra. Descobri que é parente do Tucano mesmo e que, de fato, deu um cacete na esposa há alguns dias. História, até certo ponto, bate. Mas é só por isto que estou aqui?

Não, mas a única coisa que descobri que me deixou encucado é que o Tucano mentiu pra mim e que anda pegando arrego com o pessoal do tráfico e, até onde eu sabia, ele nunca tinha entrado nestas paradas. E descobri que o Tucano está dando canseira pro pessoal, pedindo cada dia mais e que este meu novo amiguinho deve ter falado demais não só pra mim.

Em cima da mesa tem três pedaços de dente. Tiro uma foto deles com o celular, depois os enfio na boca do cara e faço shhhh, segurando o indicador na frente da boca.

Estou matutando pra entender tudo e, principalmente, meu papel nesta história quando chego na sala e me deparo com a cena:  Teobaldo cochichando no ouvido da gordinha e ela com os peitos de fora. Não sei como ele consegue se distrair em toda porra de lugar que tem mulher. Melhor dizendo, com toda porra de mulher feia da vida, cristo. Não que eu tenha algo contra mulheres feias, apenas acho que todas vão para o inferno. E não é uma questão de maldade: é de adequação delas ao ambiente mesmo. Ou tu acha que o inferno vai estar cheio de gente bonitinha e cheirosa?

Quero esganar ele, mas não dá tempo.

Dou uma encarada nos dois. Ela parece estar gostando do cheiro no cangote. Ele me olha e solta um, não reclama, pô, você tava fudendo o cara lá dentro, me deu vontade de fuder alguém também, e nesta hora eu xingo porra do caralho e já vou abrindo a porta pra sair.

Torno a olhar pra gordinha, sobrinha do Tucano, e só então vejo semelhança entre os dois. Tá faltando só o bigode grosso pra serem gêmeos. Os seios dela são volumosos e caídos, de aréolas pretinhas como amoras maduras. Começo a querer rir de tanta desgraça no mundo.

Qual seu nome, garota?

Stephanelly, ela me diz com a voz suave de quem estava fazendo algo bom. Pergunto quantos anos tem e ouço um vinte e dois enquanto ela acaba de se cobrir. Não resisto e falo, moça, cuidado com a gravidade, neste ritmo, com cinquenta anos seus peitos estarão encostando na Austrália…

Abro a porta, dou uma olhada em volta e, antes de escutar os passos do Teobaldo me seguindo, ouço o estalo de um beijo que ele dá na garota. Este mundo não presta mesmo.

Saímos rapidamente e não vi ninguém. O cara sem dente entendeu o recado, não ouço seus gritos, nem ele aparecer desesperado tentando nos deter.

Serviço feito, o Tucano me deve.

Um pouco de suor na nuca e um pouco de tremor nas mãos. Tomo um gole do uísque do cantil e coloco o braço pra fora pra sentir o vento da madrugada enquanto dirijo. O Teobaldo vai todo faceiro, bebendo e soprando este bafo de cachaça dele, decerto pensando nos peitos da Stephanelly.

Paro algumas quadras depois e envio a foto com os pedaços de dente pro Tucano. Depois escrevo, FEITO. SENHA? e aguardo.

Cinco segundos depois, recebo como resposta, TOMA TUA SENHA e uma foto das costas de uma mão preta fechada e um dedo médio em riste.

Respiro fundo, a raiva querendo tomar conta de mim.

Pra completar meu humor, vem outra mensagem, VAI TOMAR NO TEU CU.

Aquele puto viado, filho de uma puta, cachorro desgraçado, filho do cão.

Resmungo e xingo e esmurro o volante do carro. Olho pro lado e o Teobaldo está com um pequeno sorriso no canto dos lábios e diz, o Tucano sendo o Tucano, imagino.

Olho pra ele e resmungo, aquele preto viado está pensando que eu sou moleque. Não vai cumprir o trato…

Pego o cantil, tomo um gole longo. Desce rasgando e não sei se é porque estou com raiva ou se é só a bebida mesmo.

Penso, penso, penso e pergunto pro Teobaldo, tu acha que a gente tem cara de besta?

Ele me olha, abaixa o quebra sol, se olha no espelho e diz, eu não, mas a sua entrega fácil.

Finjo que nem escuto e digo, acho que o Tucano tá querendo fazer com a gente o que você tá pensando em fazer com a sobrinha dele.

Ele faz cara feia, mexe os beiços, bebe outro gole.

Bom, quem gosta de ser fudido, gosta de ser fudido de qualquer jeito, concorda, Teobaldo?

Uai, se for pra fuder quem eu estou pensando, topo a homenagem.

Ménage, besta, se diz ménage à trois.

Então…foi o que eu disse, homenagem atroz…

Olho pra cara besta do Teobaldo de quem não está nem aí com porra nenhuma e escuto um, uai, o importante é gozar.

Começamos a gargalhar enquanto eu torno a dirigir.

Continuo apertando meus dentes.

Depois de deixar o Teobaldo em casa, vou pro meu apartamento com a nítida sensação de que não vou conseguir dormir.

 

 

Continua…

POEIRA NO AR

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CAPÍTULO 04

 

Dormi como um cadáver e acordei como se estivesse mascando cimento e fígado cru. A cabeça latejava como se tivesse uma fanfarra juvenil dentro do meu crânio. Devo ter ficado uma meia hora olhando o teto antes de ter coragem de me mexer. Joguei meu corpo pro lado e vi a chave do carro jogada no chão, ao lado da cama. Nem sei como o Teobaldo voltou pra casa dele.

Como um retardado, ou um velhote moribundo, caminhei até o banheiro e tomei um banho.

Depois, olhando o celular, vi as horas: meio dia e dezesseis. Perdi o almoço, o café da manhã e a noção. O celular também indicava sete chamadas que não atendi. Três do Tucano e quatro desconhecidas. O Tucano, pra começar a encher o saco com tanta insistência, ou está perdendo dinheiro ou com vontade de dar.

Acordar e imaginar que as pessoas que estão atrás de mim são do tipo do Tucano não me agrada muito. As ideias estavam todas embaralhadas na minha cabeça e eu não conseguia entender a dificuldade dele em resolver um problema doméstico, a merda de um assunto de família.

Mas eu não estava com pressa. Fiquei sentado na cama, acendi um cigarro e traguei tranquilamente. O melhor e o pior de todos os cigarros é o primeiro do dia. Este formigamento, este gosto amargo, esta fumaça morna avançando pela garganta, enfiando-se nos pulmões e o veneno subindo até o cérebro, dilatando veias, adormecendo a testa. Não sei se dá vontade de vomitar ou de gozar.

Terminado o cigarro, como um inferno que me perseguisse, ouvi o barulho de uma mensagem no telefone. RESOLVE LOGO. Tucano com seu jeitinho amistoso. Pensei em mandar ele tomar no cu com letras maiúsculas também, mas quero saber que porra ele não consegue resolver e quero fechar o acordo com ele. E preciso da senha: mais um tipo de acesso livre à endereços, telefones, placas de carros, acontecimentos tenebrosos. Tudo isto pode vir a ser útil, um dia.

DE NOITE. E PARA DE ENCHER O SACO.

Torno a me deitar. Ligo pro parça.

Fala, seu viado.

Ui, a mocinha acordou azeda.

Vamos tomar umas mais tarde?, como se precisasse convidar ele pra isto.

Se a mocinha pagar, tô dentro.

Ah, se a madame aguentar o tranco. Vai ser bebida forte. Inclusive, é bom levar a Severina.

Ele fica alguns segundos calado. Não sei se é preocupação ou se não entendeu o que eu quis dizer.

Depois responde, vou junto, senão a bichinha acaba caindo de bêbada e se machucando.

Beleza. Às onze, certo?

Certo. Passa aqui e me pega.

Hummm, pego de jeito, você sabe, né. Ele ri e desliga.

O dia se arrastou lento e quente. Aproveitei pra dormir depois de comer as sobras que achei na geladeira e tudo continuou na pasmaceira de sempre, enquanto eu esperava a noite surgir e ser hora de sair. Por volta das sete, o telefone tornou a tocar: desconhecido. Demorei um pouco para atender e mais um pouco para entender quem era. Neste ínterim, uma voz masculina gritava muito e seu vocabulário era feito de xingamentos e de reclamações.

Aí entendi: o punheteiro marido da ruiva me exigia a devolução do dinheiro, dizendo que iria me processar, que eu o havia enganado, que isso, que aquilo. Bocejei, já cansado da choradeira, deixei o telefone em cima da mesa, me levantei e fui mijar.

Quando voltei, escutei que o chiado das reclamações dele continuava.

Quando ele deu um tempo, foi minha vez de falar. Comecei dizendo que a esposa dele era a ruiva, não eu, e que se alguém o enganava era ela. Ele veio com o papo besta dado por ela de que, a mulher na foto, sentada em cima do ogro peludo, não era ela. Lógico que ela falaria isto, não é não? Ele disse que prestou atenção, olhou direito, comparou, não era mesmo.

Que não era, eu sabia, mas não ia confirmar e eu estava puto com estas meninices de chifrudo dele, sem um pingo de saco pra escutar corno que acredita na mulher pega no flagra.

Bocejei de novo e falei pra ele arrastar o chifre no asfalto. Sem devoluções, parceiro. Fui contratado pra descobrir se ela te traía. Descobri, tem fotos aos montes com ela passeando com o gorducho. A parte de você acreditar ou não, não é prevista no contrato.

Ele não me conhece. Gritou que eu pagaria, que eu estava fodido. Senti a boca amargar e me perguntei porque eu ainda estava ouvindo tanta lorota. Num tom sério e seco falei, pega a senha. A fila é grande e o pré-requisito é chupar meus bagos, ok?, e desliguei o telefone.

Além de corno, o sujeito ainda é chato. Ligou mais três vezes, enquanto fiquei fumando e olhando pela janela. Não atendi nenhuma.

A cidade lá embaixo continuava prazerosa de se ver, cheia de pessoas voltando do trabalho, seguindo o destino do tédio doméstico, abraçados em seus sonhos, como se o dia de trabalho fosse o retorno de uma guerra que conseguiram vencer. Em casa, esposas e maridos infiéis completariam suas declarações de amor, jantariam juntos e dormiriam abraçados. Noutros cantos, alguns estariam sendo espancados, outros mortos e a tv mostraria como é bonito um sorriso alvo e uma vida perfeita.

Meu humor se diluiu junto com a fumaça que subia e se perdia por entre as vidraças do meu prédio.

Quando notei, já era hora de ir buscar o Teobaldo.

 

 

Continua…

Olhos

cegueira

 

Não tinha os olhos.

Devido ao atraso no diagnóstico, passou por todas as fases do linfoma, suportando por meses os olhos inchados e vermelhos, uma coceira constante. Depois, ouvindo a notícia do único oftalmologista que perdeu tempo estudando seu caso, sentiu que iria morrer em breve. Afinal, era um tumor que tinha em seus olhos e, no dia em que soube, dormiu agarrado aos exames enquanto pensava que o tumor, decerto, estava em seu cérebro e começava a espalhar-se, saindo de seu corpo.

Mas era apenas um tumor nos olhos.

Iniciou os tratamentos e pensou em desistir quando soube que a quimioterapia seria através de injeções oculares. Injeção ocular deve ter sido o termo mais ameno que conseguiram inventar para alguém introduzir uma agulha com veneno através do olho de outra pessoa. Suportou o tratamento, as injeções, os pesadelos de uma massa negra e putrefata alimentando-se de seu cérebro e expandindo-se pelo mundo.

Não houve solução.

Precisou ter os olhos retirados.

Os dois globos oculares, pensava depois, teriam sido postos sobre panos azuis em uma sala de cirurgião iluminada enquanto os médicos comentavam futebol ou pornografia.

Quando acordou na enfermaria, imaginou que ainda era noite. Tudo escuridão. Mas escutou carros e pássaros e passos no corredor e o tumulto típico dos dias. Por alguns minutos teve ainda o pensamento atroz de que continuava na mesa de cirurgia e de que, logo, sentiria pinças e agulhas costurando suas pálpebras.

Os médicos fizeram um excelente trabalho, dizia-lhe uma enfermeira. Pena que você não pode ver o resultado final. Esta foi a primeira piada que ouviu enquanto se recuperava.

Não sabia mais se estava num hospital ou num show de horrores. Abafava o rosto contra o travesseiro com medo de chorar. (Podia chorar?) Eram tantas medicações, tanto soro fisiológico, tantos cuidados com a cicatrização, que nunca soube se chorara durante aqueles momentos ou se eram apenas os medicamentos escorrendo por seu rosto.

Para sua surpresa, entretanto, estava curado. Não tinha tumor no cérebro, a mera extirpação de seus globos oculares resolveram o problema, podia levar uma vida normal dali em diante. Os médicos diziam todas estas coisas como um dentista que termina de retirar um siso.

O que era a vida normal, afinal?

Foi pra casa de táxi.

Era sozinho no mundo, no auge de seus quarenta anos, e nada do que fizesse, de hoje em diante, mudaria isto. O taxista foi atencioso e o ajudou a descer do carro e a abrir a porta. Ficou parado na porta por muito tempo, sentindo o cheiro de poeira e mofo, antes de resolver entrar. Era como se invadisse um lugar proibido, uma residência alheia. Ele não era mais o dono daquela moradia. Era um intruso que tateava no escuro, tentando o roubo, tentando não ser pego.

Ouviu o barulho do taxista fechando a porta e o imaginou fazendo o sinal da cruz, pensando nas impiedades humanas. Tateou pelos móveis, sentiu o pó em seus dedos, esbarrou em objetos jogados por todo o lado, até que conseguiu alcançar o sofá e sentar-se.

Que diabo de vida seria esta a partir de agora?

Cego, incapacitado, sozinho…

Passou o dia todo no mesmo sofá, com medo de levantar-se, mexendo-se apenas para tomar os medicamentos que, por bondade de uma enfermeira de voz suave e tom baixo, lhe orientara que seriam três comprimidos por vez, de oito em oito horas (como adivinhar as horas?) e que os três estavam envoltos em papel alumínio. Bastava pegar o pacotinho (prata?), desembrulhar e tomar a medicação.

Não levantou-se para buscar água. Tomou os comprimidos com a saliva amarga que brotava em sua boca.

Sentiu fome (madrugada?), mas não levantou-se.

Talvez tenha dormido sem perceber.

Muitos anos depois diria que, pela primeira vez desde o diagnóstico, não havia sonhado com o tumor no cérebro, mas com uma melodia suave e de tom baixo que adentrava pelas paredes, iluminavam a casa empoeirada e perfumava seus sentidos.

Batidas na porta?

Pensou em fingir-se morto, fingir ausência, fingir surdez.

Num movimento involuntário, passou as costas das mãos sobre o lugar onde antes eram seus olhos, como  se estivesse acordando, mas sentiu as linhas dos pontos como pequenas agulhas dançando sobre sua pele. Chorou desesperadamente, soluçando, como se fosse apenas o pesadelo que retornasse para dizer que a escuridão seria eterna, que a vida seria este breu imenso que o preenchia, que estava dentro dele o tempo todo, mas que ele nunca tinha se posto a abrir os olhos, quando os tinha, para ver.

A voz suave e de tom baixo perfumava o ambiente e ele descobriu que estava mesmo acordado e que alguém, de fato, batia à porta e o chamava pelo nome.

Era a primeira visita que recebia nesta casa.

Tateou, procurando numa bússola mental o rumo da porta, guiando-se pelo som de seu nome, pelo som do toc toc.

Abriu a porta e a voz da enfermeira que lhe dera os comprimidos penetrava em seu peito como uma chuva que lavasse seu coração.

Ela deslizou a mão sobre seu braço, como se dissesse, estou aqui…

Tornou a chorar ao perceber que teve de ficar cego para ser visto…

 

 

Marcos Silva