A pétala oculta

Pensei nela como se pensa numa rosa bonita que se cuida em jardim alheio.

Lembro-me da pele suave como flores sob o sereno; a carne macia num abraço que me despertava um desejo suave, inegável e, ainda assim, secreto. Sua boca pequena, seu sorriso pequeno, suas gengivas grandes e claras. Cabelos negros que, tocando meu rosto, perfumavam o mundo e soavam como um carinho. Seus seios eram pequenos e era, também, impossível encarar seus contornos sem lutar contra a vontade incomensurável de apertá-los contra os dentes, deixando a língua passear na pétala marrom daquelas aréolas.

Uma vez, ao apertá-la num abraço casual, meus dedos roçaram na pele de suas costas, entre a calça jeans e a blusa. Um fino pedaço de nudez em que senti a pele clara e morna e pensei no que haveria escondido sob aquela blusa, sob aquela calça jeans azul e justa.

Bastava tocá-la e um ímpeto interno me invadia, uma vontade dolorosa e tamanha de morder aquela bunda, enfiar meu rosto entre aquelas nádegas, sofregar minha língua em toda sua maciez e segredos.

Ademais, eu não conseguia vê-la sem insistir em manter meus olhos fixos nos dela, sem querer que ela se aproximasse, sem querer ficar ao seu lado, roçando sua pele, ao menos suas roupas.

Até que, um dia, a vi feliz.

Feliz ao lado de outro. Feliz com alguém que não se parecia comigo, que não dividia comigo as mesmas ideias, o mesmo humor, mesma visão de vida. E percebi que, como um jardim de rosas em que nascem cravos tristes e mórbidos, eu regava um jardim de ilusão. E busquei me afastar da pele, do desejo, dos sonhos incautos.

Vez por outra, porém, pego-me a pensar no sabor secreto que aqueles lábios escondem; no cheiro suave do suor naquela pele; na carícia inalcançável daqueles dedos finos; na pétala suave e úmida oculta entre o calor daquelas coxas…

M.

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O pacto

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A hora aproximava-se. O tempo é impossível de ser pausado e, os últimos quatro anos, caminharam lentamente. Prestes do fim, ele não saberia dizer se esteve vivo ou morto durante esse período. Os primeiros meses foram os mais felizes de sua vida: ao lado da mulher amada sentiu o quanto a vida poderia ser prazerosa. Tal prazer era ainda maior quando se lembrava dos tormentos que sentia por imaginar que nunca a teria ao seu lado. Amar a mulher impossível é a angústia inequívoca de todo homem e ele amava-a e sabia não haver reciprocidade.

Por isso, aceitou o pacto.

E, tão logo o fez, em poucos dias ela estava ao seu lado. O homem com capa de chuva num dia quente foi bem claro: “Você viverá ao lado dela por cinco anos e, nesse período, ela, de forma alguma, o abandonará!” A segunda parte é que, findo tal prazo, ele não teria mais alma. Existe alma para quem sofre por um amor impossível?

Como o amante desolado poderia negar o prazer do amor? Mesmo que por período tão curto, ainda assim, no momento do acordo, ele sentiu-se feliz. Escalou as montanhas da felicidade e do prazer durante os breves meses em que a teve ao seu lado. Ao chegar ao topo, porém, foi surpreendido: a esposa morreu no fim de uma tarde de outono.

A partir daquele instante, sua vida foi um flagelo.

Passado o desespero de vê-la morta, providenciou as questões de praxe para o sepultamento. Desolado, beijou-a em seu caixão cheio de rosas e sedas. Chorou como chora um bebê faminto. Era assim que sentia-se: como uma criança incapaz de contar o que sente e padecendo por isso. Sozinho, pensava no que seria sua vida sem ela. Sequer lembrava-se do pacto.

Contudo, durante a noite, sentiu umidade e frio em sua cama, no lado em que a esposa, um dia, dormiu. Ao virar-se deparou-se com a amada em seu véu branco, sua tez arroxeada e seus cabelos desgrenhados e sujos de terra.Gritou de desamparo e terror.

Já na varanda, enquanto tentava parar de tremer, atinou nas palavras do pacto e entendeu.

Entendeu que a teria por mais quatro anos e que não havia nada a ser feito. Amaldiçoou sua própria alma, mesmo já sabendo que ela estava condenada. Respirou o ar da madrugada com força e ódio. Subiu as escadas e, com piedade, encarou a mulher morta. A amada morta e fria, longe dos tempos da paixão e do prazer. Deitou-se ao lado dela e acariciou levemente os cabelos dela, como se fizesse um carinho.

E seguiram-se os meses e meses de angústia.

Viu-a definhando, perdendo cabelos, dentes, inchando, apodrecendo. Insetos invadiam a casa, vermes rastejavam. Enquanto podia, e conseguia, ele a observava. Mas não via o apodrecer lento do corpo morto: relembrava-se dela a cada instante, mesmo em meio a terror tão crescente.

E então, como tudo, restaram apenas ossos.

E ele, ainda vivo, talvez meio louco, via as horas de seu próprio prazo findarem. Logo, também ele estaria morto e, breve, seria apenas ossos.

Fechou os olhos, respirou fundo e ouviu baterem à porta. O velho de olhos sem cor entrou e sentou-se. Depois, disse: “Imagino que seu amor não durou até o aparecimento do primeiro verme. Para onde vamos, teremos a eternidade para nós lembrar e reviver cada detalhe…”

E foi nesse instante que ele sorriu.

Um leve movimento de lábios e, por um momento, sentiu que ainda era dono da própria alma. E com esse momento de paz no peito, depois do flagelo vivido nos últimos anos, respondeu: “Foda-se! Por aqueles primeiros meses, viveria tudo de novo!”.

O homem de unhas compridas cerrou o olhar, em ódio vivo, e as portas do inferno se abriram.

Marcos Silva

 

Instantes

boca

Em pé, em frente à cama, os olhos dele encaravam a imagem reluzente dela. Deitada, ela retornava o mesmo olhar alegre e atento. Pareciam decorar-se um ao outro.

Sorriam.

Apoiando a cabeça em uma das mãos, ela mantinha os cabelos loiros espalhados sobre o lençol. A camiseta branca deixava transparecer o volume natural dos seios e a calcinha de renda branca e de laterais largas valorizava a pele alva, as coxas grossas e os contornos do corpo. Olhando-o com desejo e carinho, e o sorriso mais malicioso e bonito que ele já tinha visto, retirou a camiseta, deixando os belos seios à mostra.

Manteve-se como estava e começou a passear as mãos pelo corpo.

Atrevida, roçava com um dos dedos as aréolas dos seios e depois umedecia o dedo na boca. A cada repetição, o bico de seu seio ficava mais duro. Desceu a mão pelo ventre, deslizando os dedos pela barriga. Pequenas manchas esparsas, que ele chamava de pintas, marcavam o caminho. Quando os dedos aproximaram-se da renda da calcinha, apenas roçou-a, voltando a subir os dedos pelo ventre. Seus grandes olhos procuraram os dele e, além daquele escuro da noite, viu o desejo e o tesão.

Ela sabia o quanto ele gostava de observá-la. Sabia que o mero ato de vê-la, e de vê-la se tocando, excitava-o. E assim, vendo-a seminua, tocando-se, de perto ou ao longe, era mais que suficiente para deixá-lo de pau duro e latejante. Ela sabia disto. E, por saber, chegava a sorrir, ao vê-lo assim, com os olhos vidrados em seu corpo, aguardando a oportunidade de tocá-la.

Depois de desenhar seu corpo com as tintas invisíveis do desejo e de dançar sobre a cama, girando o corpo para mostrar os contornos de seu corpo e as curvas em que ele adorava se perder, ela tornou a virar-se para ele e encará-lo. Os dedos, úmidos de saliva, deslizaram buscando o caminho entre o tecido de renda e a pele, buscando a vagina úmida. Penetrando-se com os dedos finos e suaves, retirava-os e chupava-os.

Sua intenção era clara: enlouquecê-lo.

Os gestos se repetiam e ele, imóvel, observava. Ainda não a tocara. Decorava cada detalhe da cena para, no futuro, quem sabe em momentos em que o desejo o encontrasse sozinho, ter sempre esta imagem dela, nítida e pulsante como o desejo que sentia.

Ela chamou-o com um gesto e ele aproximou-se o suficiente para que sua boca alcançasse aqueles dedos. Ela continuou penetrando-se suavemente, sentindo a umidade e o calor do desejo. Contudo, ao invés dela mesma provar seu próprio gosto, estendia a ele os dedos úmidos para que ele, faminto, sugasse-os. Agarrando-o pela cintura, puxou-o pela calça até junto de si e beijou-lhe a boca com sofreguidão, num deslizar de línguas que durou pouco tempo comparado à vontade que tinham de manterem-se neste beijo.

Com uma das mãos, ainda beijando-o, retirou-lhe o cinto e desabotoou a calça e, em seguida, deixou-o nu. Ele permaneceu de pé, como entendendo as ordens silenciosas que ela emanava. Ela, ao acariciar o pênis latejante e quente, apertou-o firme, como  se quisesse represar aquele desejo e saber que ali, naquele momento, ele pertencia a ela, além de alma, de corpo.

Deixando de beijá-lo, ela o encara profundamente. Os dois se devoram com o olhar, aqui, neste momento em que as carnes estão em brasa e também nos momentos do dia em que se encontram. Depois deste olhar profundo, em que ele encara o infinito e ela o abismo sedutor, ela, começa a masturbá-lo suavemente e desliza o corpo até a altura em que sua boca engolirá o pau dele. Contudo, ao invés de engoli-lo vorazmente, ela segura o pau, apertando firme, mas movimentando-o lentamente, e sua boca o engole com calma, quase numa pausa, mantendo-o na boca por alguns segundos para, depois, ficar deslizando a língua, como numa dança romântica, suave.

A língua úmida serpenteia vagarosa pela glande, enquanto ele tenta se controlar, sentindo o latejar constante de seu pau, o prazer sentido em ter a mulher amada assim, tão perto, tão cúmplice. A confiança entre os dois, no poder sentir, no poder fazer, é uma dança de sentimentos, onde os passos são feitos para o prazer do outro, não para o seu.

Agora ele sabe que tudo o que ela quer é senti-lo ali, sabendo-o pleno de desejos, enquanto mantém o pau quente dentro de sua boca. Tudo o que ela quer é sentir e ver aquele gozo farto. Tudo o que ela quer é banhar-se naquele sêmen quente, deixar escorrer por entre a boca, banhar os seios fartos de bicos rosados, enquanto o vê tremer e encará-la com o profundo de seus olhos.

Tudo o que ela e ele desejam é este amor, de seus muitos limites, mas com esta cumplicidade e este olhar e prazer profundo e inédito, que nunca sentiram antes.

22/03/2016

Uma fotografia

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Agora, por acaso, revi uma foto sua. Você me mandou há muitos anos e eu, possivelmente, a tenho salva em algum lugar, nem que seja dentro de mim. Afinal, tudo de você ainda está salvo dentro de mim. Mesmo que minha memória falhe, mesmo que eu não consiga expressar em palavras tudo de você que há em mim. Às vezes, sozinho, fico dançando minha mão no ar e imaginando que a sua está entrelaçada nela. Não, não é loucura. Estou apenas citando que você se encontra, inclusive, em meus gestos, como uma memória muscular.

Pois… revi, por acaso, uma foto sua. E é incrível como a mera visão de você, numa foto de anos atrás, ainda é capaz de mexer comigo. Suspirei e, ao mesmo tempo, senti um espécie de alívio que já senti outras vezes, mas sempre ao seu lado.

A foto é colorida, mas o tom que predomina nela é o verde. A parede ao fundo é verde (talvez você dissesse que é algum tipo de azul, mas para mim é verde…) e há algumas sombras, principalmente do seu lado direito. Imagino que você estivesse perto de alguma janela, a luz do sol entrando suave do seu lado esquerdo. Imagino que seja fim de tarde. O verde parece (a)tingir até mesmo seus cabelos: do lado direito, por conta da sombra, seus cabelos parecem algas, enquanto do lado esquerdo é como se eles fossem uma dança de ouro e esmeraldas. Alguns fios de cabelo fazem sombra sobre o lado esquerdo da sua face: parece uma teia no fim da tarde, no campos em que um dia, muito tempo atrás, eu passeei, tendo tempo de apreciar teias no fim de uma tarde. Uma lembrança, para mim, bonita.

Só é possível ver um de seus olhos. O esquerdo. O olho direito está coberto por seus cabelos. Seu olho encara a câmera e é escuro como o infinito rodeado de esperança. A foto não é de corpo inteiro: acima do busto, apenas. Você está usando uma blusa preta. Um sutiã, talvez? As alças são finas e aparece parte de um bojo. É possível que seja um sutiã ou uma blusa leve, sem mangas. Sei que sua pele banhada de sol é que dá o tom de claridade para a fotografia: sabe aqueles reflexos no fundo de uma água clara, quando o sol está de bom humor? É essa a sensação. Seus cabelos estão parcialmente jogados para frente e chegam até seu busto. É possível ver apenas o risco escuro entre seus seios, mas é possível imaginar que seu decote é bonito como mergulhar neles.

E você sorri.

É aquele seu sorriso de lábios fechados, como quando a gente se encontrava. É aquele sorriso que parece um disfarce. Mas eu não entendo como um disfarce: pra mim, seu sorriso é um instante. As fotografias, todas, são instantes congelados no tempo e não fui eu quem disse isso. Também não posso afirmar ou me lembrar de onde vi ou ouvi isso. Sei que seu sorriso é aquele instante mágico em que você, ao me ver, sorria como se eu fosse tudo que você estava procurando; como se fosse maravilhoso me ver e saber que eu estava ali, mesmo que não houvesse motivos para estar.

E, vendo esta fotografia, sentindo o que eu senti ao revê-la; depois de ter suspirado e esboçado aquele sorriso meio bobo meu, de quem ri sozinho, pude perceber que, de você, além de tudo que tenho guardado em mim, trago também esse sorriso que é o instante que antecede e eterniza o amor.

 

 

Todo

relogio quebrado

Que vamos todos morrer, não há dúvida. As dúvidas sobre o tema, em geral, pairam nos campos das especulações: inferno, céu, reencarnação, silêncio pleno. Até o Hamlet se complica na explicação, já que diz que a morte é “O país não descoberto, de cujos confins / Jamais voltou nenhum viajante…”, esquecendo-se completamente que toda sua saga começa ao vislumbrar o fantasma de seu pai, o rei.

Muitos dizem perceber a morte. Geralmente trata-se de um ente querido, distante, e muitas vezes a pessoa parece adivinhar que sua própria morte está chegando. Um caso emblemático, na literatura, é o de Guimarães Rosa que evitou por quatro anos seu lugar na Academia Brasileira de Letras. Supostamente, o escritor sentia “mau agouro” em assumir a cadeira. Por fim, ao aceitar, morreu três dias depois.

Se são fatos paranormais ou mera transferência energética, nem a ciência nem a religião entraram num acordo ainda. Sim, porque estas questões precisam de acordo para poderem acontecer ou não. Falando do caso das pessoas que sentem a morte do parente distante, na música “o relógio quebrado“, de Lourenço e Lourival, o que há não é a percepção da morte de um ente querido, mas uma aposta entre irmãos. Devido à divergências religiosas, por fim um diz que, salvando-se sua alma, ele faz uma surpresa para o outro. Anos depois, à meia noite, um antigo e, obviamente, quebrado relógio toca. No dia seguinte, o irmão que perdeu a aposta (mas que continua vivo…) recebe a notícia do falecimento.

Algum ruído, um aperto no coração, um barulho estranho. Talvez um sonho, um choro no meio da noite, inexplicável. O que não faltam são casos e citações diversas sobre o tema. Infelizmente, as pessoas tendem a ligar a morte a eventos anteriores, dizendo que “pressentiram”. No caso, é mais um caso de “pós-sensação”. A não ser por cartomantes, ciganas e pessoas agourentas que tendem a dizer que “fulano” vai morrer, insistentemente, até que percebem que estão no próprio velório, com “fulano” firme e forte jogando terra em cima do caixão.

É tolice dizer que a morte é tão importante quanto a vida. Não temos ponto de referência para dizer qual das duas é mais importante ou qual das duas é melhor, posto que conhecemos apenas uma delas. As luzes que alguns dizem ter enxergado em experiência de “quase morte” pode ser apenas falta de oxigênio no cérebro. Assim como a janela que bate pode ser somente o vento ou mesmo aquela sombra que se move no corredor pode ser apenas um tecido tremulando.

Talvez a morte seja importante para a vida. Ou o contrário.

Sei que morremos, todos os dias, um pouco. Isto faz-me pensar que, no fundo, nos matamos todo dia um pouquinho. Alguns usam a corda para calar o que aflige. Outros usam a bala: é o grito que fala por eles. Alguns morrem repetindo as mesmas horas, repetindo as mesmas horas, repetindo…

Alguns matam-se no carro que passa, enquanto alguém acena dizendo adeus; outros se atrasam para o trem ou conseguem ir no trem; algumas pontes caem; em alguns, outras vidas tomam conta do próprio corpo. Alguns morrem pela beleza, outros de tristeza, outros tentando respirar. Alguns se matam com sorrisos, com olhos verdejantes. Alguns, ainda na aflição do gozo, despedem-se dizendo “te amo”…

No fim, a morte vive dentro e fora de cada um de nós. E, no fim, todo mundo se mata desde o momento em que nasce. As horas, afinal de contas, sempre vencem nossa luta pela vida.

Marcos Silva

Tarrare

tarrare

 

A pele pálida desprendia-se dos ossos como as rugas de um ancião. Os cabelos, finos e negros, cobriam-lhe as orelhas e os olhos, que tornavam-se dois pequenos carvões tristes. À frente, os pratos sujos e vazios. E ele com fome. Mastigou a maça pensando no que teria na geladeira para comer. O último gato não lhe fizera muito bem: vomitou pelos negros por mais de meia hora. Revirou a geladeira e, como esperado, encontrou panelas vazias, um resto de leite numa caixinha e duas cebolas. Uma enganação, apenas para ocupar o tempo. Em dúvida, observava o pequeno pacote no quarto e tentava decidir o que comeria na hora de deitar-se.

Trêmulo, fechou a porta da geladeira e saiu.

Hoje era um dia especial e, caminhando, notou as pessoas afastando-se à medida que avançava. Isso sempre acontecia e ele sabia que, apesar dos perfumes e cremes, possuía um cheiro que, até mesmo para ele, era irritante, mas nunca saberia exatamente como exalava para os outros. Por isto, nas ruas, sempre usava roupas grossas e de mangas longas, um boné ou uma touca, deixando aparecer apenas as mãos e parte da face. Também não saberia dizer se isto aumentava o odor de seu corpo, por conta do suor que insistia em escorrer até a palma de suas mãos.

Mas hoje ele caminha sem se importar com os outros. Sabe onde está indo e quem irá encontrar. Pensa que, um dia, ela saberá o que ele sente e, ao seu lado, ela sentirá a estranheza que é gostar de alguém. Em suas palavras, diria que é uma sensação maior do que a da fome.

Encosta-se ao balcão de atendimento e a observa caminhar de um lado para o outro. É muito magra, ele pensa. Ainda assim, desperta nele uma vontade imensa, um desejo incomensurável de tocá-la, de sentir seu cheiro, aspirar cada detalhe de sua pele, sentir a mornidade de seu corpo, apertar cada centímetro seu e verificar o ponto de textura em sua carne macia. Ela, por sua vez, o trata como os tratam todos na rua, com a diferença de que, no emprego dela, tem a obrigação de fingir tratar todos bem.

E, quando ela chega, ele não sabe o que dizer. Simplesmente segura o cardápio e aponta duas das fotos que primeiro aparecem na lista. “Tem certeza?”, a voz de anjo dela pergunta e ele balança a cabeça afirmativamente, sem ter coragem de encará-la.

Vai para uma mesa no canto e os minutos passam e seu estômago parece que começa a devorá-lo. Começa a sentir os órgãos internos gritando, pedindo socorro e clemência ante a iminência de serem convertidos a suco gástrico. Abre todos os pacotinhos de sal e, um a um, os dissolve na boca; depois, repete os mesmos movimentos mecânicos com todos os pequenos sachês de catchup, maionese e mostarda; em seguida, todos os 86 palitos de madeira da caixinha são mastigados. Chegam a ser macios, como pequenos ossinhos de frango.

Quando tem coragem de olhar, percebe que é observado por todos, menos por ela. Alguns cochicham. A garota volta e, observando-a por entre seus fios de cabelo, parece que ela sorri. Mas é apenas um sorriso social, de funcionário de lanchonete: não é para ele. Mas é o sorriso dela e ele, pelo breve instante em que esquece que está sem fome, fica feliz de rever o sorriso dela.

Talvez seja isto: ela o faz se esquecer da fome eterna que sente.

Ela serve os pedidos. Porções de carne, ovo frito, duas porções de arroz, duas de feijão, duas saladas, duas porções de farofa. Uma refeição facilmente farta  para seis pessoas. Ele come tudo com sofreguidão, mas com um controle condicionado imposto pelo pai para que pudesse permanecer, minimamente em público, sem chamar “demais” a atenção. O que o pai diria ao ver que, no fim das contas, tudo é uma enganação para si mesmo, nunca para os outros?

Pratos vazios, agora ele ergue o queixo e olha em volta. Onde ela está? Mas ela logo reaparece e ele tira o dinheiro do bolso, dezenas de notas amassadas, dispostas indisciplinadamente em vários bolsos, e coloca-as sobre a mesa. A garota confere todas as notas, faz um somatório mental do valor total e, em certo ponto, estica a mão, devolvendo-lhe uma nota avermelhada.

Neste ponto, ele não sabe o que aconteceu.

Como um espirro impossível de segurar, ou uma tosse incômoda dentro do elevador, ou mesmo um estado orgânico incontrolável, ao sentir o cheiro dela tão perto, mesclado ao cheiro do seu próprio suor na nota, ele a mordeu.

Segurou a mão dela com a leveza que um príncipe de conto de fadas usaria, o suor molhando o pulso direito dela e, num átimo, levou a mão dela até a boca e mordeu. Com força, claro, mas também com doçura. Para ele, como se fosse um carinho em um bebê. Sentiu exatamente isto: como se mordesse as bochechas rosadas de um recém nascido. A mão dela, macia entre seus dentes; a textura adocicada; a expressão de prazer imaginada em sua face.

Mas ela gritou.

Ela gritou e ele sentiu a mão dela ser puxada com força e, numa reação também instintiva, apertou ainda mais os dentes. O gosto de sangue o despertou. Viu o terror nos olhos dela e os outros clientes começando a cercá-lo, “o que aconteceu?, o que aconteceu?”, e ele correu. Nem sabe como conseguiu, nem mesmo por onde correu, que ruas cruzou, se havia mais alguém no mundo.

Correu e correu.

Já em casa, suado e cansado, sentiu na boca o gosto de sangue e não sabia dizer se  era o gosto da felicidade ou do desejo. Sabia que tivera um momento feliz e que, talvez, isto pudesse acontecer de novo. Assim ele sonhava, enquanto a fome começava a fazer novos percalços dentro de suas entranhas. Então, foi ao quarto e olhou o pequeno recém nascido que dormia. Este, talvez, mais pesadamente por conta do diazepam.

Algumas horas depois a polícia arrombaria a porta e o encontraria dormindo, mordendo a palma da mão como se fosse uma chupeta. Ao lado dele, na cama, dezenas de ossinhos, como os de frango, misturavam-se às montanhas de embalagens de alimentos.

 

Marcos Silva

Infância

 

mao

Meu pai fedia à fezes.

Se fosse à urina, eu consideraria normal. É natural dos idosos urinarem e guardarem, em si e no ambiente em que vivem, um certo cheiro de urina. Mas meu pai não era idoso: tinha 45 anos quando faleceu. Acredito que morreu velho, apesar de tudo.

Mas meu pai fedia à fezes e morreu jovem.

Acho que começou como uma coisa banal: um entupimento na privada.

Lembro-me claramente: eu tinha seis anos e a privada de casa entupiu. Era uma privada de tom esverdeado. Não me lembro de meu pai antes disto. Lembro que eu estava na sala e me deparei com ele agachado na frente do vaso. Empurrava o desentupidor com tanta força que achei que iria quebrar o vaso.

Não falei nada. Meu pai não era de falar comigo e acho que, mesmo antes dos seis anos, eu já havia decidido não falar com ele. Não posso afirmar, mas imagino que tenha sido assim.

Sei que senti o cheiro absurdo das fezes de todos nós da casa e apenas meu pai tentando resolver o problema do entupimento. Minha mãe fazia o que fazem todas as mães: reclamava e exigia solução.

Não vou falar da minha mãe.

Fiquei parado no corredor, olhando meu pai agachado, mexendo no vaso, tentando desentupir as merdas de todos nós.

Não conseguiu.

Moramos muitos anos ainda, na mesma casa, e o vaso continuou entupido. Acho que isto também era um retrato do meu pai: tentar resolver as coisas e não conseguir. E ele, coitado, tentou. Dias e dias seguidos, atirou ácido, empurrou o desentupidor, jogou coisas que dariam pra fazer uma bomba. Até coca-cola.

E nada desentupia o desgraçado do vaso.

Naquele tempo, a cidade era pequena, não havia dinheiro ou serviços de desentupimento. Se fosse eu, na minha idade hoje, teria quebrado a privada, cavado um buraco no quintal, qualquer outra coisa, menos ficar dias e dias tentando desentupir uma privada, sem solução.

Com os dias, a aceitação foi maior que a necessidade. A merda de todos nós não fedia tanto quanto nos primeiros dias. Tornou-se um odor natural na casa, algo como ter um cachorro que mija no tapete: todos os moradores se acostumam, apenas as visitas estranham.

Mas lembro-me que meu pai fedia à merda. E foi nos primeiros dias que este cheiro dele tomou posse de minhas memórias olfativas. Lembro que, todas as vezes que a mão dele se aproximava, eu sentia asco, com temor de que me tocasse. Mas meu pai não era um porco: ele lavava as mãos, jogava até gasolina, esfregava fumo de rolo.

Eram mãos limpas as do meu pai. Mesmo assim, eu chegava perto dele e sentia cheiro de merda.

Meu pai me bateu naquele dia, no primeiro dia em que tentava desentupir o vaso. Por quê?

Porque eu ri. Ri como um garoto de seis anos que vê o pai agachado no vaso, com a mão enfiada no meio da merda.

Meu pai já tinha me batido antes. Não me lembro. Minha mãe me contou, muitos anos depois.

Mas não vou falar da minha mãe.

A única vez que lembro do meu pai ter me batido, foi naquele dia em que ele estava com a mão atolada na merda.

Eu comecei a rir, ele me olhou no corredor. E levantou-se e, sem dizer uma só palavra, me acertou com força a mão direita. Meu nariz sangrou. Disto me lembro. Não perguntei o motivo. Acho que já não conversava mais com ele, neste tempo. Mas me lembro que meu nariz sangrava e que meu rosto ficou todo sujo de merda.

Sangue e merda.

Não lembro de ter chorado.

Não lembro da última vez em que chorei.

Não sei o que aconteceu depois, também. Não sei se lavei meu rosto, se minha mãe o lavou. Não lembro.

O que lembro é que, toda vez que meu pai, num de seus momentos de fé ou de esperança na redenção, se aproximava de mim, eu sentia que ele fedia à merda. À merda de todos nós, da minha antiga casa.

Não sei se poderia dizer que meu pai era mau. Ele era o que era capaz de ser, nada a menos, nada a mais. Pra ele, o que era certo, era certo; o errado, errado; sem zonas cinzas.

Eu, com seis anos, rir dele com a mão enfiada na merda, era errado, imagino.

Não tenho raiva do meu pai. Acho que nunca cheguei a ter. Não me lembro de ter recebido dele qualquer coisa a mais que o cheiro de merda e sangue no meu rosto.

Mas não me tornei ingrato.

Cuidei dele, durante a doença, levei-o às consultas, aos exames.

Toda vez, ao chegar em casa, tinha que lavar meu carro. O cheiro de merda era insuportável. Mas não o abandonei. Fui com minha mãe e ele à todos os lugares em que era preciso ir. Não me tornei um filho ruim, acho.

O câncer o comia por dentro e teve horas em que senti pena do velho. Não, meu pai não era velho. Tinha quarenta e cinco quando morreu.

O câncer o comeu de dentro pra fora: seu esfíncter, seu cólon, seus intestinos.

Usava fraldas, dia e noite, e era como se não usasse. Banhava-se, envergonhado, várias e várias vezes ao dia. E continuava fedendo à merda.

Na última vez que o vi, ele estava deitado na cama do hospital.

Não, meu pai não morreu ali, na minha frente, implorando perdão (de quê, meu pai?) ou decidindo o futuro da família.

Lembro que falou, recordando, que já havíamos morado numa casa em que, por diversas vezes, tentou desentupir o vaso e não conseguiu. Lembro que contava e ria, ria, aquele riso choco, aquele riso moribundo, de quem não tem ar sequer pra respirar. E contava que tentou todos os métodos e meios e dicas e truques e não conseguiu desentupir o vaso.

E lembro que ria.

Em nenhum momento, falou que me bateu, que tivesse me batido uma vez sequer na vida.

Eu não ri.

Ouvi-o. Depois de rir e eu assentir com a cabeça que me lembrava da casa, ele contou que encontrou, há poucos dias, um colega de serviço que veio a morar na mesma casa. E que resolveu o problema no dia em que se mudou.

E ria.

Eu não ri.

E contou que o colega disse que, simplesmente, tirou os parafusos da lateral e retirou o vaso. No fundo, na curva do cano, encontrou um tipo de saboneteira, dificultando a saída da dejetos.

Naquele tempo, não sabíamos de nada disto. Por mim, a água do fundo do vaso era perene; retirar o vaso, impossível. Meu pai devia pensar assim, mas não com estas palavras.

E meu pai, morrendo, fedendo à merda, lembrava-se e ria que havia morado anos e anos numa casa fedendo à merda porque não sabia que podia retirar o vaso.

E ria.

Eu não ri.

E meu pai não falou que me bateu no rosto, com a mão suja de merda e que meu nariz havia sangrado.

Não perguntei nada. Não falava mais com meu pai. Apenas o ouvia e, às vezes, respondia. Isto, considero, não é falar com alguém.

E foi a última vez que o vi. Na cama, sentindo seu cheiro de merda, ele falando sobre merda e rindo.

Toda vida dele deve ter sido isto: precisar resolver as coisas e não conseguir.

Morreu dias depois.

E não consigo pensar nele sem me lembrar do cheiro de merda da nossa casa, o cheiro de merda das suas mãos, o cheiro de merda dele mesmo.