QUERER

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Quero ser o silêncio quando une as palavras
entre lábios que selam-se, matando saudades e desejos.

Quero ser o canto dos amantes nos dias de paz
e o choro dos amantes quando a dor os une.

Quero ser o pássaro da aurora que anuncia,
a qualquer um que tente ouvir, que há mais…

Quero ser a palavra certa na hora exata,
aquela que redime e perdoa, assentindo o significado da vida.

Quero ser o sonho das pedras
e o vento nas copas das árvores: imutabilidade e força.

Quero…

Porém, sou ausência e insignificância,
rastro e tempo ido, desconsolo e tristeza.

E meu querer se torna isto:
Querer, o verbo inútil dos sonhos
sem o primeiro passo, sem força, sem vida.

 

MARCOS SILVA

 

 

JÃO QUIABO

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            Nasceu João Tertúlio Augusto Chagas. O tempo, sempre atento, viu que o sorriso arteiro e os cabelos finos e claros não condiziam com a seriedade do nome e logo todos o conheciam pelo apelido de menino: Jão Quiabo. Era miúdo e magro  o que condizia com corte de uma letra fazendo justiça ao sujeito.

            Fez arte como todo garoto da idade: pipa, traque no rabo de gato, varada no lombo de sapo, paulada em vespeiro e caixa de abelha. Depois corria como o vento, deixando para trás velhos incautos e amigos recentes que bobeassem. Nunca foi de escola: preferia atolar os pés nos brejos, arrancar sanguessuga grudada nas canelas finas.

        Nunca era pego em nenhuma estripulia e isto fortalecia o apelido. E mesmo que tivessem certeza de que ele era o aprontador, ou ele sempre escapava ou a arte virava apenas motivo de piada depois. Se tinha certeza que viria castigo de vara de pau ou de couro de cinto, enrolava para chegar em casa, esperando que o pai já estivesse dormindo. A mãe, ao ouvir os pés descalços e sujos do filho a entrar em casa, levantava-se, apiedando-se, o colocava a dormir, sem fazer barulho, como uma cúmplice dos pecados aprontados. E, se não conseguia fugir do pai, se a arte era das que sabia que o velho ficaria acordado até o mundo acabar, esperando-o,  enfiava jornais aos montes dentro das calças para amaciar as vergadas que receberia na bunda e nas coxas. Cresceu magro e cheio de cicatrizes, mas cresceu feliz, sempre rindo de tudo e pra tudo.

           Jovenzinho, arrumou uma namorada. Feia como ele: magrinha, cabelos loiros ralos e pernas arqueadas, ao estilo dos que, desde pequenos, montam cavalos. Era sua primeira namorada e o que ele achava bonito nela era a cicatriz funda que descia da narina esquerda até o lábio superior. Ganhou a cicatriz do pai que, numa das muitas bebedeiras, jogou um prato contra a mãe, mas atingiu a garotinha de seis anos. O sinal dos dez pontos e uma infelicidade palpável perduraram nos olhos castanhos que ela insistia em manter sempre semicerrados, como se o mundo fosse grande demais pra ser visto com eles abertos ou bonito demais pra deixar de ser visto. E nunca sorria.

          De mãos dadas, começaram o caminho do amor. Namoraram na praça da igreja, escreveram iniciais (ela escreveu…) no tronco da árvore, sentaram na beira da lagoa e viram o pulo dos peixes. Ela via nele a inocência e a alegria que nunca teve. Ele enxergava nela um sorriso escondido, nunca visto por ninguém. E um dia casaram-se, que é o nome da gaiola onde se aprisiona o amor.

            E um dia brigaram, que é o nome do amor quando quer mais. E ela disse que não queria mais vê-lo e ele disse que ela era uma ingrata e ele é que não voltava mesmo.

            E Jão Quiabo saiu de casa. E caminhou em volta da lagoa, visitou a árvore com as iniciais, sentou no banco da praça. E chorou escondido até de si mesmo enquanto via as estrelas azuladas no céu frio. E andou até chegar no brejo que brincava quando era pequeno.

          Chegou em casa quase madrugada, descalço e com os pés sujos de lama. Entrou devagar, mas não era medo de apanhar do pai como quando criança, mas zelo em não acordar a mulher.

           Ela cochilava no sofá e, ao sentir a presença dele, acordou. Olhou-o e a seus pés sujos e viu suas calças enroladas até o joelho. E perguntou por onde ele tinha andado.

            – Fui voltar a ser menino. E quem sabe conhecer seu sorriso…

        Ela, sentada no sofá, sentiu a lágrima escorrer pela face sonolenta e banhar a cicatriz no lábio, e sua boca sentiu o já conhecido gosto salgado. E, sem que pudesse evitar, mostrou os dentes brancos que eram mais bonitos que o luar da madrugada.

            Então, como as duas crianças que um dia foram, abraçaram-se e dormiram no sofá, na inocência tardia dos que vivem, que é quando o amor, de fato, se faz.

 

MARCOS SILVA

EXERCÍCIO

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Pense num mundo com todos os cadáveres expostos.
Pense em dentes à mostra e em pedaços podres à vista.
Pense em fios brotando da pele e em nervos em flor, em sangue…
Pense nos cães, nos gatos, nas aves, nos vermes: devorando-se.
Pense em todos os olhos amarelos e abertos te encarando.

Agora, pense que isto é a vida.

Pois…
Isto é a vida…

 

MARCOS SILVA

 

 

A FAZENDA

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            Chegaram à fazenda antes do almoço. Tinham interesse em negociar as terras para criação de gado. Os proprietários não estavam, moravam na cidadezinha próxima, somente alguns peões trabalhavam no pasto. Os dois interessados vinham de terra distante muitas léguas, acampando e pousando pelo caminho, descansando no lombo dos cavalos se preciso. Conversaram com os peões, passearam pelas pastagens, observaram as águas, as árvores, a terra.

Depois do almoço, os peões sestavam e zoavam antes de voltar às tarefas. Uns, moradores da região, contaram que a fazenda era boa, terra de primeira, porém ninguém tinha conseguido se manter por ali. Falavam que era só anoitecer e começava um tormento de barulho, de urro de bicho, uivo de cão, coruja nos galhos aos gritos. Parecia que os bichos acordavam todos e ninguém conseguia dormir. Os moradores, alguns, tinham reclamado também de batidas nas portas e janelas como se fosse visita chamando.

Os dois viajantes ouviam de tudo por estes caminhos de terra mas não tinham interesse em crendices de rincões distantes. Tinham interesse na terra.

Por volta de quatro da tarde, os peões já se arrumavam para voltar a suas casas e os viajantes decidiram que um deles iria à cidade falar com os proprietários, tentar acertar os detalhes do negócio, e o outro ficaria pro caso de algum deles acabar por aparecer.

Assim fizeram.

Um deles se ajeitou e ajeitou suas coisas no cavalo e garantiu ao amigo que voltava antes de escurecer. O outro cuidou de soltar seu animal no pasto, pra descansar. Depois, escorado na porteira, viu os peões e o amigo ladearem o morro, rumo à vila. No horizonte, o sol baixava, tranquilo e cansado. Olhou a grandeza da terra, a beleza do campo. Cuidou de limpar um vão na frente da sede e acendeu uma fogueira assim que o primeiro vento do brejo soprou em seu rosto.

Logo a noite já vinha e pensou que, mesmo que o amigo voltasse, era ali que iriam pousar. Dormiam em qualquer canto, eram acostumados já. E ali era luxo: a  casa colonial, de grossas paredes de barro, sustinha grandes e firmes portas e janelas de madeira; o telhado pendia, recoberto por ramos de chuchus, mas suportaria muita chuva e não teria vento que o mexesse do lugar. Eram dois andares de firmeza e rusticidade que suportaram a natureza desde há muitos anos. Lá dentro, todos os móveis, apesar de carcomidos, mantinham a aparência de uma casa que parecia guardar a presença de seus moradores. Camas, armários, panelas, tapetes: tudo permanecia como que a esperar a presença humana.

A noite veio e o viajante deixou a fogueira acesa do lado de fora, o cavalo amarrado, e entrou. Sentiu o peso da viagem e percebeu, pela primeira vez, a solidão. Era cedo. Ouvia os sapos no brejo e o vento na copa das árvores, na mata de divisa. Com a água da mina que corria no tanque, limpou o suor do corpo com as mãos molhadas. Fez um café quente e mastigou a carne com farinha socada no pilão.

A barriga cheia lhe deu mais sono e, como não tinha hora pro amigo chegar, subiu as escadas de madeira  e foi ao segundo andar procurar um quarto. Jogou o capote de couro em cima do colchão velho e se cobriu com a manta de pano grosso, tecida por sua mãe, há muitos anos, na casa em que um dia foi menino. Olhou o teto escuro e buscou ouvir os barulhos lá de fora ao lembrar-se das histórias dos matutos, mas nem seu cavalo relinchava, nem corujas distantes agouravam.

Talvez tenha dormido.

Sabe que ouviu, ao longe, o gemido longo e persistente da porteira velha de madeira e logo o barulho de cascos contra as pedras que forravam a estrada da fazenda. Pensou que o amigo voltava e continuou deitado. O som dos cascos vinha direto pra casa e ouviu seu próprio cavalo relinchar alto e bater os cascos no chão. Em seguida, ouviu o som do cavaleiro que pulava da sela, as esporas tinirem e outro cavalo ser amarrado no mourão.

Já no rumo da porta da casa, o batido das solas das botas contra a madeira se assemelhava ao limpar da lama antes de entrar. Não viu tempo de chuva, mas pensou no brejão largo que decerto tinha servido de atalho.

“Demorô, cumpádi… Achei que num envinha hôji…”, gritou.

E não recebeu resposta. Nunca poderia dizer porquê, mas ficou deitado, talvez meio inerte no sono e no cansaço. Só arregalou os ouvidos, sempre ouvindo os passos contra a madeira do piso.

“Demorô casdequê, cumpádi?”

Depois o bule do café fez seu tilintar. Chegou a ouvir o café ser derramado na xícara de alumínio.

“Respondi, hôme… tá mouco, é?”

Começa a estranhar a falta de resposta e, numa casa e numa terra estranha e longe da sua, não sabe que tipo de visita chega neste lugar no ermo da noite. O arrepio nas costas é involuntário e ele se agarra ao capote.

 “Cumpádi, oh cumpádi…”

Sem resposta, num tremor que desconhece, acompanha o barulho da xícara sendo encostada. Os passos voltam a bater na madeira do chão e logo ele ouve o toc toc compassado do subir degraus.

 Pra tudo que são gestos e movimentos ele ouve os sons, menos para as respostas de suas perguntas. Os passos não cessam. E um medo que ele nunca pensou conhecer, um medo sem causa certa, invade o peão que não sabe se é o amigo quem sobe as escadas e, logo, está a empurrar a porta do quarto onde está. O ranger das dobradiças faz gemer o mundo inteiro no meio daquela escuridão e ele aperta o capote com a força de quem tenta segurar um novilho.

De olhos fechados, reza a oração que lhe dá coragem de olhar a porta.

Ninguém.

Ninguém na porta.

E a coragem da reza não é suficiente pra ele ficar quieto na cama ao ouvir os passos e escutar a porta do guarda-roupas ser aberta e não ver ninguém. Nem amigo, nem sombra, nem demônio.

Salta fora da cama e sai em disparada. Corre escada abaixo, busca sair, ficar fora da casa. Sob a lua, somente seu cavalo está amarrado, mas ele passa direto, corre pela estrada, busca a porteira.

Já perto dela, antes de estar fora daquelas terras, tropeça e, de medo ou da queda, desmaia.

Sol quente e sacudidelas o acordam e, abrindo os olhos, vê o rosto do amigo que acaba de chegar do pernoite na vila.

MARCOS SILVA

 

 

SONS E VULTOS

sons e vultos

Sob a úmida terra, os mortos – como os vivos – dormem seu eterno pesadelo.
Nesta escuridão, os olhos perdem-se nas sombras do passado.
São pessoas ou monstros que passam sob os postes, nesta madrugada?
São delírios ou verdades? Sonhos ou realidade? Observo…

Numa esquina qualquer, homens se procuram.
Caminham de mãos dadas com prostitutas
ou temem o mal que criaram, evitando as ruas escuras.
Outros veem tv, bebem cerveja, chamam os filhos de animais.

Na língua das mulheres, tédio e reclamações, o dia, o dia.
O sêmen ainda é quente ao escorrer entre pernas arrependidas.
A maquiagem, o olho roxo, o jantar, as crianças.
Sem mudanças, sem vontade. Sem saída?

Observo. E sinto uma explosão de sentimentos, de frustrações.
O coração é inchaço, é excesso, é pulso e parto.
Com minhas mãos ásperas aperto seios nus e flácidos.
E, na dor e na fraqueza do gozo, a vida se esvai, fraca e breve, num jato.

 

MARCOS SILVA