Decisão

— Depois de enfrentar sua presença por todos esses anos, de tolerar você a me assombrar do raiar ao morrer do dia, finalmente tenho-o diante de minha arma para silenciá-lo eternamente.

— Aperte o gatilho. Descubra se sou o fantasma que você diz ou se passarei a ser…

(+18) IMAGENS

Saio de carro pela cidade. Sigo um trajeto não definido e apenas tento evitar ruas próximas de onde moro. Dirijo devagar, observando as coisas em volta, o movimento dos comércios, as pessoas nas portas de suas casas. No semáforo, olho o motorista no carro ao lado: tem o rosto gordo, bochechas enormes, e um cavanhaque já meio grisalho. Olha-me por um segundo e torna a encarar a luz vermelha à frente.

Tenho me sentido triste. O trabalho, o lar, a vida: tudo tem entedia-me. Por isso que evito ir direto para o trabalho ou para casa e fico rodando pela cidade. Em alguns momentos paro e não sei como cheguei a tais e tais ruas, esquecendo-me por completo do trajeto que fiz.

Paro no cruzamento deserto. Quase sete da noite. Olho e, ao lado, um carro branco estacionado próximo à esquina. Aguardo no cruzamento, sem necessidade, já que não há veículos passando e nem semáforo. Noto que o carro branco balança. É um movimento constante, que faz os amortecedores do veículo se moverem devagar. Eu nunca transei dentro de um carro. Nunca tive esta experiência e muitas outras que se conta por aí. Paro logo à frente do veículo. Pelo retrovisor, vejo as costas de um homem do lado do banco do passageiro. É moreno, magro, muito magro: consigo ver os contornos de suas costelas e escápulas. Faz movimentos vigorosos, no estilo usual dos homens fazerem sexo: mecanicamente. Rápido, constante, sem percepção das coisas, apenas o interesse no gozo.

Ainda observando pelo retrovisor, vejo ele se contorcer, depois se vira rapidamente, indo para o banco do motorista. Gozou e deixa o corpo da mulher: ela que se vire, se quiser gozar.

Viu meu carro e acho que se assusta, tentando ver se há alguém dentro. Não sei se consegue ver meus olhos no retrovisor, mas não parece se importar. A garota, uma negra muito magra também, ergue-se e começa a levantar o banco do passageiro. Acho que ele fala sobre o meu carro. Ela olha, primeiro assustada, depois sorri. Deve ter uns 16 anos. Ele, uns 20. Vejo os movimentos que ela faz para vestir a blusa. Ele veste a camiseta, depois, liga o carro, acelera e para ao meu lado. Não sei o que fazer e faço o que não é recomendável: abro o vidro. Ela me cumprimenta com aparente zombaria e ergue a blusa, mostrando os peitos pequenos e negros, com aréolas escuras como uma sombra. São firmes, bonitos, mas muito pequenos. Então, me aponta o dedo médio esticado, com o indicador e o anelar dobrados, claramente me mandando ir me foder. Riem alto e ele acelera

Sei que deveria me irritar. Criticar a rebeldia juvenil, seus modos. Porém sinto certo alívio ao ver como as crianças não contam as horas para morrer, aproveitando os gozos e os momentos, sem pensar em consequências.

Sigo meu caminho.

Em casa, no meio da noite, acordo delirando.

Sonho que estou no meio de um grande deserto e uma garota negra se aproxima, primeiro como um vulto, depois em plena nitidez. Tem o tamanho de um dedo ao surgir, mas, ao caminhar, se aproxima e cresce vertiginosamente, parando sobre mim. Olho para cima e ela tem o tamanho de um prédio de muitos andares. Ela está completamente nua. Uma boceta gigantesca, com seus lábios escuros e pelos grossos e pretos, paira sobre mim. Se agacha e meus olhos apenas vêm aquela boceta, a enormidade de seus lábios, a espessura de seus poros e pelos. Agacha-se sobre mim, pressiona seu sexo sobre meu rosto, depois aperta-me entre os dedos e empurra-me para o interior de sua intimidade, seu desejo. Meu corpo inteiro está dentro dessa efígie escura e desperto.

Sinto um arrepio.

Uma excitação, certa eletricidade, percorre meu corpo.

O sonho não seria motivo para isto, mas tenho a roupa de baixo úmida. Raspo as unhas no pescoço, na nuca, sobre minha barriga, minha bunda.

Quero sentir o toque de mãos sobre mim.

Deslizo as mãos sobre meus cabelos, agarro-os e puxo com força, querendo conhecer suas raízes. No meio da noite, um tesão enorme apossa-se de mim e não consigo e nem penso em me controlar.

Ao meu lado alguém dorme, emitindo um suspirar baixo. Decerto sonha. Passo minhas mão sobre suas costas, sobre seu sexo. Depois de insistir, a pessoa não acorda e desisto. Acaricio meu corpo, meu sexo, e com minhas mãos dou-me o prazer que sinto merecer. Gozo.

No dia seguinte, reinvento novos trajetos. Entretanto a excitação noturna me acompanhou durante todo o dia. Toquei-me várias vezes. Às escondidas sob a mesa do escritório, disfarçando; no banheiro, enquanto ouvia outros conversando. A presença deles, próximos, me excitou muito mais. Toquei-me com força, desejando que me descobrissem. Não ouviram nada.

O dia passou e procurei até encontrar o ponto onde o veículo se encontrava parado no dia anterior. Hoje ele não está aqui. Paro meu carro onde ele esteve estacionado. Abro os vidros e tento buscar no ar um cheiro, uma lembrança, a memória. Toco meu corpo de novo. Sinto uma excitação profunda, uma inspiração, uma busca.

Chego ao ponto em que os toques sobre o tecido não são suficientes e retiro a calça jeans e a camiseta. Sem roupas dentro do carro, de vidros abertos, deslizo minhas mãos, toco-me na ânsia de um sonho, pensando em mãos alheias sobre mim. Um carro passa devagar ao meu lado, para no cruzamento, depois vejo que dá ré. Para ao lado do meu. É uma mulher. Pergunta se preciso de ajuda. Acho que vê apenas meu rosto e meu ombro, pela janela. Digo que está tudo bem. Ela, insiste, oferece ajuda, pergunta se foi problema mecânico, diz que conhece alguém.

A excitação toma conta de mim. Desço do carro e mostro-me.

Ela vê a nudez de meu corpo, expressa surpresa, depois sorri. Poderia sair correndo, mas, em vez disso, diz que o que eu estou precisando ela não pode oferecer. Acena um tchau e vai embora, sorrindo.

Eu, fora do carro, continuo tocando-me até um êxtase que não consigo explicar em palavras.

Volto para casa e, finalmente, faço o que chamamos de sexo.

É um sexo forte, mas apático. Um gozo rápido, sem entrosamento, mera biologia. Depois de tudo feito, sinto o mesmo vazio dos dias anteriores. Nada da excitação que senti ao ver a garota feita de chocolate e seus seios de aréolas e sombras. Nada da excitação que senti ao ver os olhos da mulher no carro se surpreendendo com meu corpo nu. Penso que meu corpo é uma obra de arte, uma tela de um grande pintor, mas sinto que esta tela está coberta por um pano e escondida em um porão, longe dos olhos do mundo.

Penso que esta pintura deve ser apreciada.

A partir deste dia, além de rodar pela cidade, começo a parar próximo a pessoas sós e mostrar meu corpo, somente abrindo a porta.

Evito o risco da agressão que pode ocorrer com muitas pessoas no mesmo lugar. Evito descer do carro, também. Mostro-me rapidamente, toco-me o quanto e quando possível. Se vejo a pessoa aparentar excitação, demoro-me mais. De forma alguma deixo se aproximar ou me tocar. Assim que me afasto, encosto em algum lugar e toco-me até gozar. Só então volto para casa. A vida segue, como antes. Agora, porém, um sorriso sempre me acompanha, enquanto espero o fim do dia.

No sinal vermelho, com o carro parado, olho o motorista ao lado. De repente, numa ânsia, abaixo a blusa e mostro meus seios, de bicos pontudos. Ele sorri bonito. Disfarça. Tem uma mulher ao lado, a esposa talvez, que fala e olha o celular, ignorando o mundo. Ergo meu seio e abaixo minha boca. Aperto o mamilo entre os dentes. Vejo uma gota de suor escorrer da têmpora dele no momento em que o sinal fica verde.

Momento

No meio da madrugada chuvosa, eu mergulhava nos olhos profundos e cansados dela. Bocas à um palmo de distância, conversando sobre tristezas e fracassos, sonhos e ilusões. Sorríamos, apesar de tudo. Sabíamos nus e, presos à uma realidade que não nos pertencia, nossos corpos assumiam um tom natural de desejo e cumplicidade. Meus lábios dançavam com os lábios dela e o beijo tinha gosto de cerveja e eternidade.

Nesse instante eu entendi que a vida é isso: um momento que importa.

enigma

Refrão de bolero tocava no rádio e eu pensava em você. Dirigi por entre o trânsito tumultuado do fim de tarde e senti-me um náufrago em meio ao aço e à ilusão. Sussurrei seu nome na esperança de que me ouvisse e esperei que o mundo se calasse. Aumentei o volume para que a música chegasse naquele momento perdido há anos em que sua mão segurava a minha e seus olhos sonolentos encaravam a paisagem distante. Depois, senti-me sozinho com um astronauta abandonado ao vácuo, e guardei em mim meus segredos, desejos e teu nome proibido.

(+18) DEDOS

Sei que me chamam de vadia. Sempre soube que as pessoas são limitadas em nomear as coisas que não entendem ou desejam. E não me importo. Ser vadia num mundo de hipócritas é quase um elogio. Sempre fui liberta e sempre fiz o que quis. Não me sinto vítima. Nem me sinto uma “vadia”. Sou apenas o que sou, sem me preocupar com o que esperam que eu seja. Considero-me livre. Também não sou pobre. Nunca precisei ficar com alguém em troca de comida, de dinheiro, de casamento. Já fui bancada por muitos, mas certos homens sentem prazer em cuidar financeiramente de uma mulher. É como um consolo para sua incapacidade de fazê-las gozar.

Perdi a virgindade aind muito jovem e não foi nem gostoso e nem traumático. Foi apático. Ele subiu sobre mim, num papai e mamãe, colocou o pau dentro como se soubesse o que estava fazendo. Senti minha vagina úmida e uma dor profunda na base do abdômen. Só depois fui ver que sangrava. Ele sentiu um pouco de nojo, se limpou e logo foi embora. Depois de tomar banho, deitei-me e fui ler o livro do Machado que a escola tinha pedido. No dia seguinte, ninguém ligava para a história do Machado, para a ressaca da Capitu ou os olhos do Bentinho. Só o que faziam era cochichar quando eu passava. Depois, quase no fim da aula, fui descobrir que ele tinha contado que tinha me comido, que tinha me virado do avesso, que o pau dele era tão grande que tinha me rasgado. Conversa. Era um pinto tão pequeno e fino que se eu tivesse me enfiado uma tampinha de caneta teria sentido prazer maior.

Óbvio que nunca mais dei para ele. Mas, já que estava falada como puta, resolvi assumir. Não que me considerasse. O que eu queria era calar a boca de todos e saber se eu sentia o sexo como algo tão bom quanto se comenta por aí. Transei com mais dois colegas de sala, com um professor, com filhos dos amigos de meus pais, com os amigos de meus pais, com paqueras no fim de festa.

Conheci os jovens, quase imberbes, de 13, 14 anos; depois os jovens imaturos de 18, 20 anos. Homens mais velhos os tive, mas determinei-me um limite de, no máximo, alguém com o dobro de minha idade. E, isto, tento manter até hoje, que tenho 35. Mas incrementei a regra: também aceito os que tem metade da minha idade.

Nesta jornada conheci o prazer. A primeira vez foi com um rapaz de minha idade, na época, cerca de 22 anos. Ele me amava. Era possível ver em seus olhos ou no cuidado que tinha comigo. Eu não o amei, mas gostava que ele me tratasse daquele jeito. Zeloso, atento, sempre com elogios e mimos. Na cama, ele me descobria. Passeava as mãos, deslizava os dedos, a língua, os lábios. Me chupava com calma, demoradamente. Eu percebia, com ele, que o pau dentro de mim não era sexo. Era só um alívio temporário, fosse para os homens ou para mim. Era como ter vontade de urinar e fazer xixi. Feito. Passou. Esperar a próxima urina.

Com ele não. Com ele o ato de me penetrar era quase uma reza. Ele fazia as preliminares como quem se benze, se ajoelha, se prostra diante do divino. E sua divindade era meu sexo. Ele conseguiu me penetrar sem que eu ou ele precisássemos segurar seu pênis teso para encaixar. Bastava deixar seu corpo deslizar sobre o meu e o encaixe era perfeito. Com ele eu gozei absurdos. Minha pele eriçava, minhas pernas tremiam, meu corpo baqueava, querendo apagar, e um gozo limpo e claro, quase impercetível, escorria por entre minhas coxas. Muitas vezes ele me chupava até depois que eu já tinha gozado. Muitas vezes eu gozava tanto que o máximo que eu conseguia fazer por ele, era masturbá-lo: não o aguentava mais dentro de mim. Fazia-o gozar, com a mão ou com a boca, e ele sentia um prazer enorme que eu nunca entendi: como um homem pode sentir prazer na mão ou na boca de uma mulher havendo uma buceta e um cu disponíveis? Outra coisa que nunca entendi: qual prazer de gozar na boca, no rosto, de uma mulher? Vê-la cheia de porra nunca me pareceu uma coisa bacana, afinal, poucos deles tiveram coragem de me beijar ou lamber, logo depois. Mas, enfim, isto o satisfazia.

Com o tempo, como tudo, acabou.

Eu fiquei com outros enquanto estava com ele. Ele descobriu. Perdoou. Eu continuei a traí-lo. Então uma outra conseguiu convencê-lo de que era melhor que eu e se casaram. Mudei de cidade. Nunca mais o vi, mas soube que é feliz. Eu também fui feliz, mesmo sem ele, muitas outras vezes. O sexo passou a me suprir. Talvez eu me sentisse só. Talvez fosse só uma “vadia” mesmo. Mas antes eu não sabia quem era.

Muitos homens quiseram se casar comigo e eu sempre os desdenhei. Não passavam do ciclo inicial das coisas: presentes, no começo; sexo muito bom, no começo; grosserias, no meio; sexo só para eles, no meio; agressões, no fim; sem sexo, no fim. Todas as coisas começam e findam e, no geral, findam mal. Mantive-me na situação mais difícil de uma mulher nos dias atuais: solteira e sem filhos. Nunca soube se meu ventre era vazio ou se tive a sorte de um escoteiro. E digo sorte porque sei que crianças me impediriam de ser quem sou. Teria que me tornar respeitável, ficar em casa, trabalhar de segunda a sexta, das 8 às 18.

Preferiria morrer…

Os homens são criaturas extraordinárias, mas consideram, em geral, que o pau é mais importante que o resto. Sempre entedio-me com isto. Adoro um pau, devo deixar claro. Mas, se o homem fosse apenas isto, bastaria que eu mantivesse meu estoque de vibradores (o de vidro, com ondulações, depois de aquecido na água morna, é o meu preferido…). Um pênis que flutua no ar e me penetra não é uma visão agradável. Mais triste que este tipo de homem são os que acham que as mulheres são apenas uma boceta para ser penetrada. Um pau e uma boceta voando no ar, sem corpos interligados, que copulam…

Depois do sexo sempre preferi sentir o calor da porra do homem sair de dentro de mim, escorrendo por entre minhas pernas. Nunca tive pressa em me limpar e sempre passei a mão entre minhas coxas para sentir exatamente a textura do que escorria de mim. Tinha medo que fosse o fracasso do sangue, da primeira vez? Talvez. Mas sempre acreditei que uma porra mais espessa e mais abundante era sempre sinal de um tesão ou uma espera maior, por parte dele. Homens com pouca porra ou com porra rala sempre me fizeram sentir cansada e pouco me agradaram. Este foi um dos motivos de evitar homens casados. Eu disse evitar, mas nunca tornei isto uma regra. Explico: homens casados fazem muito sexo, mas, no geral, é um sexo rotineiro, apático, limitado ao gozo, em que o medo de tentar novas coisas é sempre presente. Mas homens casados, longe de seus lares e suas esposas, são, em geral, os mais aventureiros, os que mais querem impressionar uma mulher. Em geral, não sempre…

Conheci bocas de lábios sedosos e lábios rudes, ressecados. Apalpei costas peludas e bundas lisas como a de uma mulher. Senti o peso de garotos magros como gravetos, a ponto de sentir a pressão de suas costelas e dos ossos dos quadris me machucando. E também senti a dificuldade de me encaixar em sujeitos gordos, nauseantes, com suas barrigas enormes que escondiam pintos, muitas vezes grandes, mas que limitava posições. Desses, sempre tive medo que morressem em cima de mim. Sempre pedia para sentar por cima, apesar de ser forçada a dobrar o corpo pra trás, apoiando a mão na cama. A única vez que um gordo conseguiu me fazer gozar foi quando introduziu dois dedos gordos dentro de mim enquanto chupava meu clitóris com uma língua grossa e que me pareceu peluda. Os dedos dele, com certeza, eram melhores que seu pau.

As pessoas pensam que fazer sexo é o destino das pessoas. Já parei e pensei: muitas pessoas que estiveram comigo não procuravam sexo. Queriam atenção, queriam rir, queriam conhecer o novo, queriam se perder de suas rotinas. Muitas não queriam voltar para casa.

Sempre voltavam.

É como um imã: o lar os atrai sem que forças da natureza, da física, da química, os impeça. Querem a segurança de um nome, de um lar, de uma família que, no geral, ou os odeia ou os suporta. Como eles também…

Transei com homens de pau fino e comprido, pau grosso e curto, pau fino e curto, pau grosso e comprido, pau minúsculo, pau gigante. Os grandes demais sempre machucam: parece que os órgãos internos são empurrados para cima. Os de pau curto, que os sabem usar, sempre deslizam certos, apertando o lugar certo, apesar da dificuldade inicial da cabeça entrar. Depois que a cabeça grande, algumas que se assemelham a maças vermelhas, é aceita, tudo se encaixa. Mas homens assim são obrigados a mexer os quadris devagar. É importante o movimento do quadril. Mas mais importante é o movimento do corpo em geral. Não sou bicho: não vou ficar quieta e ser cutucada como se fosse uma boneca inflável, como se eu não me importasse comigo. Aceito o que quiserem fazer, mas que façam bem feito.

Um sujeito, um dia, com o pau grosso como um punho, mas curto como um dedo indicador, tentou me enfiar tudo de uma vez. Na mesma hora o esbofeteei. Ele se assustou e pensou em ir embora. Eu o agarrei pela cintura, o lambuzei de saliva, chupei-o como se chupa um picolé na propaganda da Kibon. Ele gozou em menos de dois minutos. Depois, sente-me sobre ele, seu pau ainda quente e pegajoso, e eu mesma decidi o jeito que ele entraria em mim. Foi como enfiar a mão em luvas de tamanho menor: houve esforço, senti minha carne se abrir, achei que meu quadril ia se partir, achei que ia morrer. Minha boceta parecia um ferro em brasa: quente, ardente, flamejante. Meus lábios, empurrados para dentro, pulavam querendo escapar, e aquela pressão, do pau dele e dos meus lábios dentro de mim, me fizeram rir, gargalhar, quando ele começou a murchar, deixando um pau minúsculo dentro de mim e incapaz de dar a segunda. Ele me bateu forte no rosto, fiquei com o olho inchado por dois dias. Foi embora e eu fiquei na cama rindo e acariciando-me por pelo menos mais uma hora…

Noutra vez aceitei o convite de um amigo para visitar um casal de amigos dele. Disse que precisava ir com alguém, para não ficar um triângulo estranho na sala de jantar. Aceitei. Não tinha nada melhor para fazer. A casa era de ricos. Eu não sou pobre: sei reconhecer a casa de um rico. As portas são mais largas, o vazio é maior. Ricos enfeitam, com tudo que é possível, sua solidão e sua pobreza interior. Depois de um jantar em que falamos de filmes, de MPB, de tédio (eu sei falar de qualquer assunto: quadrinhos, putaria, Godard… mas prefiro falar de mim, algo que eu descobri muito tarde na vida, senão, talvez, a vida fosse diferente…).

Depois do jantar, com direito a vinho e cerveja, sentei-me na sala, com a mulher. A TV estava ligada, passando um novela. Os dois homens foram para o quintal, ver os materiais de hobby dele. Na cena da TV, os casais brigavam por conta de uma coisa que nunca aconteceria na vida real. Os personagens das novelas conseguem ser mais estúpidos que os reais. Do nada, enquanto eu esperava meu amigo, senti a mão dela deslizando por meu joelho. Não senti nem desejo, nem desconforto. Apenas me senti melhor do que vendo a novela.

Olhei-a nos olhos. Ela, aparentemente acostumada com a situação, ignorou meu olhar e logo seus dedos deslizaram por entre minhas coxas, por baixo do vestido. Senti seus dedos finos retirarem para o lado o tecido da minha calcinha, sent a pressão do tecido apertando minha boceta. Ela forçou um pouco mais, eu permaneci quieta, como se continuasse a ver a novela. Os dedos finos, de unhas longas, penetraram-me. Senti seu indicador dentro de minha boceta quente. Eu estava úmida. Não gozava, mas sentia como se um gozo, um cuspe, uma saliva, escorresse de dentro de mim. Sentia um misto de aflição, de tesão, de novidade. Tinha receio que o marido dela chegasse e eu fosse acusada de barbaridades.

Ele não chegou.

As unhas dela raspavam dentro de mim como uma pequena serra, mas não era ruim. Era apenas diferente. Acostumada com pênis, flácidos ou tesos, mas de limite delimitado, sentir a mão de uma mulher dentro de mim, abriu-me portas. Ela sabia o que fazer. Deslizava os dedos por meus pelos, descia por meu clitóris, enfiava um, depois dois, depois três… Eu queria, na hora, que ela fosse uma centopeia, que tivesse cem braços e quinhentos dedos e que cada um penetrasse cada poro de meu corpo, que eu me desfizesse em água, que eu me transformasse em sonho.

Encostei minha cabeça no encosto do sofá e ignorei a novela. Lembro que ouvi a voz dos dois homens lá fora, rindo. Quando soltei-me no sofá, ela ajoelhou-se e me chupou, sem retirar minha calcinha, com tanto furor e tanta delicadeza que me desfiz. Deu-me um tapa na boceta, com os dedos virados para baixo, que fez meus lábios vaginais arderem, mas, por dentro, sentia-me como quando enfiava meu vibrador de borracha negro e grosso.

Depois de, acho, uns cinco minutos me chupando, ela sentou em cima de mim, como se eu fosse o macho, e beijou-me a boca. Eu estava de olhos fechados. Nunca tinha beijado nenhuma mulher antes. Pensei em bater nela. Mas estava tão alheia, tão desacordada depois daqueles dedos dentro de mim, que retribui o beijo com uma língua molhada e firme. Ela agarrava-se ao sofá e balançava em cima de mim como eu fazia com os homens: era como se eu tivesse um pinto e ela estivesse encaixada nele. Depois de beijar-me forte, de lamber meu pescoço, de deslizar as mãos em meus cabelos, ela mordiscou meus seios. Eu já tinha ficado com os mamilos duros, antes. Mas, agora, eles estavam duros como rochas, trêmulos como minhas pernas. Os mamilos apontavam para o norte, para o sul, o oeste, o céu, o inferno…

Gozei na minha calcinha. O pano ficou molhado como se tivesse urinado depois de uma risada longa. Já urinei sobre as coxas de homens, uma urina clara e quente. Nenhum deles reclamou. Mas ouvi, de repente, as vozes dos dois homens entrando na casa. Ela saiu de cima de mim, sentou-se no sofá e disse no meu ouvido, raspando os lábios nos lóbulos de minhas orelhas: “boca gostosa… a de cima e a de baixo…”.

Respirei fundo. Abaixei o vestido. Fiquei muda. Deve ter sido a primeira vez que fiquei muda. Quando eu era chamada de vadia, e ainda me parecia ofensa, eu xingava. Depois me chamavam de vadia e eu, sabendo que me era indiferente, virava o rosto. Hoje, se me chamam de vadia, pergunto “Com qual dedo você quer me sentir primeiro?”. Me é indiferente.

Fui embora.

Meu amigo, meio bêbado, parou o carro próximo a um lote vago, com postes apagados. Sentei no colo dele: os bêbados tendem a ficar de pau duro mais rápido do que os sóbrios. Eu sei que o que se diz é que os bêbados dormem, broxam, ficam de pau mole, impossível ser injetado de sangue e endurecer. Isto não é mentira, mas também não é verdade. O exagero, claro, impede muitas coisas. Mas pode ter certeza que um homem bêbado, dentro do limite de cada um, só não deu conta de te comer, porque já te comeu antes. E, provavelmente, muitas vezes. As coisas inéditas sempre atraem cartazes. Mesmo que o público não se lembre do que fez depois. E o pau de um bêbado sempre fica maior do que o normal. Sempre engrossa mais. Os bêbados querem comer tudo e todo mundo. Só os bêbados comem gordas, comem feias, comem homens. Tire disto a conclusão de que, um bêbado de pau duro, vai te comer como ninguém nunca antes…

Meu amigo penetrou rápido em mim. Não era o pênis, fibroso, duro, firme, quente, rascante, que eu sentia. A única coisa em que eu conseguia pensar era nos dedos finos, com unhas parecidas com serra, dentro de mim. Pensava nos dedos, nas unhas, na língua, nos lábios dela. Porém, no que eu pensava mesmo, era na boceta dela. Já conheci todo tipo de pau, como disse. Mas boceta, fora a minha e a visão próxima da boceta de alguma amiga, nunca tive o prazer de ter, de tocar.

Uma boceta feminina, como sei bem, merece recados, merece bilhetes, merece cartas, e-mails, poemas, romances, livros, bibliotecas. Uma boceta é um canto e uma ópera. Só uma mulher pode saber do que uma boceta é capaz, se se deixar estudar no assunto de seu próprio corpo. Do meu corpo, eu sabia tudo.

Do corpo de outra mulher, eu sabia nada.

Fiz meu amigo gozar. Fui pra casa. Dormi.

De noite sonhei que estava no meio de mil mulheres, com suas bocetas de todas as cores, tamanhos, lábios expostos, lábios escondidos, gozando, chupando-se. Todas, depois do gozo, vinham a mim, e eu, como rainha, tinha que lhes enfiar o dedo dentro da vagina e depois chupar meu dedo, sentindo o gosto do gozo de cada uma. As que não tivessem gozado, eu as mandava pendurar sobre meu trono, de pernas muito abertas, seguras por cordas: os súditos abaixavam as cordas e as bocetas delas chegavam até minha boca e eu as chupava. Enquanto isto, as outras, se tocavam, se penetravam os dedos. Apenas a mim, agora, era permitido tocar em outra. A mulher, sobre mim, gozava a ponto de urinar forte. Esta urina, como um banho, aquecia o ambiente e eu também gozava.

Acordei molhada. Não sei se urinei ou se gozei…

No dia seguinte, liguei para meu amigo e inventei a desculpa de que havia esquecido um brinco de estimação na casa, no dia anterior. Homens acreditam em tudo. Ou fingem acreditar, nunca soube. Ele me deu o telefone dela. Me sentia tão aturdida que contei para ela a mesma desculpa que disse ao meu amigo. Ela fingiu acreditar e falou que me esperaria às 15 horas, em casa.

Arrumei-me como nunca me arrumara para nenhum homem antes. Enfiei os dedos dentro de minha vagina e os cheirei, pelo menos, dez vezes. A última coisa que eu queria era que ela não gostasse do meu cheiro.

Na casa dela, surpreendi-me ao vê-la com roupas jeans, normais, de quem espera visita. Tive medo que fosse uma armadilha. Entretanto, depois de termos conversado amenidades, na cozinha, sentada em um banco alto próxima a uma bancada de mármore, ela veio por trás de mim e cheirou minha nuca. Arrepiei-me. Ela desceu as mãos por entre minhas coxas.

Eu tenho um e sessenta e cinco de altura. O balcão era mais alto que minha cintura. Não sei como ela me colocou com a barriga sobre o balcão e eu fiquei com as pernas no ar, balançando. Subiu minha saia e abaixou minha calcinha. Me chupou, de costas, com a bunda elevada e as pernas soltas no espaço. Eu abria minhas pernas e sentia aquela língua, quente e úmida, dentro de mim. Enfiou-me os dedos, os lábios, a língua. Roçou os joelhos por entre os vão de minhas coxas. Sentia que iria desmaiar e ficar como um doente, sobre a bancada, parecido com um socorrido num rede.

Pau nenhum me deixou assim. Boca nenhuma se enfiou dentro de mim assim. Língua alguma soube ter esta textura, este calor, leveza, calma e pressa, raiva e mansidão. Eu gozei, de bruços, na posição mais medíocre que se espera estar, num gozo.

Depois de ver que eu já não sabia de mim, ela deu-me um tapa forte na bunda. Enfiou-me quatro dedos, quase a mão. Enfiou um dedo em meu cu e chupou meu cu com o mesmo tesão e pressão que tinha chupado minha boceta. Eu já fizera sexo anal, mas nunca tinha tido a sensação de querer gozar pelo cu. Tinha medo de, além de urinar, defecar sobre ela. Tinha medo, mas tinha vontade de fazer isto. Sujá-la com tudo de mim, do melhor e do pior. Homens não se importariam.

Permaneci ali, como um tipo de paciente num procedimento médico. E digo que, se toda atendimento médico fosse assim, não haveria tanta gente doente. Ou o contrário, os consultórios estariam cheios de pessoas querendo sentir o que eu sentia.

Por baixo da bancada, de cabeça para baixo vi que ela continuava de roupas. Resolvi assumir minha curiosidade e forcei meus braços sobre o balcão, descendo de minha posição esdrúxula. Abaixei-me de frente para ela e retirei suas calças. Ela tinha um sexo mais bonito que o meu: pelos tão dourados que pareciam ter sido pintados; os lábios da vagina eram pequenos, rosados e delicados. Homem algum resistiria àquela mulher. Mulher alguma, no momento certo, diria não…

Tratei-a como já fui tratada pelos homens: bati em seu rosto, cuspi em sua boca, enfiei, com força, os dedos dentro de sua boceta, lambi seu cu, bati em sua bunda, puxei seus cabelos. Ela gemeu, eu gemi. Ela gozou, eu gozei em sua boca.

Fui embora de pernas bambas, não querendo ir. Ela me disse que o marido voltava. Eu queria ter ficado, com ele e com ela. Queria saber como era o pau de um homem que conseguia segurar consigo uma mulher daquelas. Queria sentir um pau destes dentro de mim enquanto meus dedos estivessem dentro daquela boceta maravilhosa.

Ela nunca mais me chamou, nem atendeu minhas ligações.

Estou acostumada com homens me abandonando sem motivos aparentes, mas não entendi o motivo do abandono, sem causa, por parte dela. Talvez o medo, usual, de ser descoberta, de ser mal falada. Nunca tive medo disto…

Expandi meus limites e hoje sei que, além de um pau carnudo e quente dentro de mim, também quero sentir dedos e unhas finas, beijos de lábios suaves, o cheiro de uma boceta quente e molhada, pingando gozo, unhas me serrando por dentro…

Sim, sim, aceito…

Mas já falei demais e, o pacote, como eu disse, é completo, eu não sou uma vadia que limita seu prazer ou que limita o prazer do outro: você quer que eu chupe ela ou você primeiro?

Ella

Ela sorri e o mundo é sonho.

Tem lábios finos, mas beija com força e vontade e é isso que procuro nela: desejo. Parece ter fome quando toca sua boca na minha, quando morde minha língua e meus lábios, e é um banquete que eu também degusto. Seus lábios não se contentam com os meus, eu sei, nem por isso me perco nessas questões porque ela me procura a pele por completo, desliza sobre meu pescoço, meu peito. Acorda-me para o sexo, para a vida, para o futuro, quando eu mesmo já desisti de mim.

E o que posso fazer? Retribuir os passeios, deslizar a língua em suas costas, passear a boca em seus seios, mordiscar cada caminho que se abre à minha visão. Depois, meus dedos dançam em seus cabelos, descobrem notas musicais entre suas coxas e ela olha-me. A encaro.

Sorri e tudo é um sonho quando a voz dela sussurra: “Seja meu!”.

Não respondo, mas penso: “De quem mais, neste momento, eu poderia ser?”.

E tornamo-nos um só corpo, em fogo e gozo, em sonho e silêncios.

Beijo

A transposição, serena e ardente, entre o estranho e o amante; o rio que separa dois (três, quatro..?) corpos; o rio-tempo, translúcido e ciente, que exerce o papel de início entre os espaços-corpos, entre a carne e o sonho, a ilusão e …

Era

Ontem (que dia foi?) sonhei com minha ex. Aparecia-me com seu cabelo reluzente e dourado, o pequeno dente frontal meio torto, o lábio vermelho como uma lingerie sensual. Os olhos dela, entretanto, eram opacos; depois, percebi-os vazios, mostrando a parede ao fundo. Falava-me de tudo que não faço questão de ouvir, de tudo que não faz sentido algum, de tudo que se perde no tempo, nas horas, na brumas e brisas do fictício passado. Depois, escondeu-se em meio ao sonho e, espero, fique por lá…

O Amor e outras texturas

Nada sobrevive intacto quando penetro.

Sempre ludibriei e fiz gozar homens e mulheres e o sexo, esse sexo plástico e incógnito que pratico, é a verdadeira razão de meu prazer. Desde o acidente e minha horrenda amputação, modifiquei meus gostos e me abri para o novo, aumentando os gozos em minha e em outras vidas. Mesmo horrendo, contudo, não senti dor alguma em minha tragédia e somente recordo-me que voltava de uma festa e, quando acordei, fui informado pelo Dr. DeSange de minha perda orgânica. Espiritualista e químico consagrado que somente minha família poderia pagar, logo receitou-me antidepressivos e alegrantes que me fizeram ignorar a presença insípida daqueles médicos e enfermeiras trajados em plástico branco.

Em menos de uma semana estava em casa e, em menos de um mês, instalei uma prótese peniana com sensores que me davam a real sensação de prazer sexual já que microprocessadores ligados ao meu cérebro atingiam as regiões cerebrais (que não me interessam nomear…) liberando hormônios e etc e tudo mais. Outras pessoas utilizam o mesmo artifício, imagino, mas sem tanto zelo e cuidado como somente o Dr DeSange poderia fazer e minha família pagar.

Nunca terei filhos e nunca os quis ter. Decerto será chamado de meu filho a porra de meu bisavô, assim como sou filho dele, dessa mesma porra fatídica que nutre os laços genéticos de minha família há gerações. Ou seja, sou filho de meu bisavô e irmão de meu pai e de meu avô e isso tudo é tão normal que apenas me espanta que nunca tenha sido assim.

Escolhi a prótese mais adequada à minha necessidade: 30 centímetros ininterruptos de controle e performance, com liberação fluídica de 20 milímetros cúbicos de líquido lubricante e reservatório para até 300 mililitros de substância coagulante deslizante, sendo que posso controlar o fluxo de saída e mesmo a temperatura. Nada me difere de ninguém e meu pai cuidou para que ninguém soubesse de meu acidente.

O Dr DeSange, como o bem pago profissional que é, semanalmente me vinha fazer testes físicos diversos, recolhia amostras de sangue, repunha fluidos. Inclusive testava o grau de rigicidade e este, devo admitir, sempre foi tremendo e satisfatório. Atravessei a musculatura interna de uma garota, muito bem paga por sinal, apenas por atrever-me a colocar tudo de uma vez. Devia ter me atentado a esses detalhes, inclusive na dificuldade que foi livrar-me dela posteriormente.

E tudo fluía bem em minha vida, sem dificuldade de prazer, sem que alguém notasse a ausência de minha carne substituída por plástico (inclusive, recomendou-me o Dr DeSange, que evitasse felações e vídeos muito próximos, dado os pixels demonstrarem um brilho maior no plástico, eventualmente…) até que, mesmo em meio à toda fortuna e à visão semanal das costas do Dr DeSange, encontrei ZND (as vogais foram banidas da língua depois da reestrutura de 2867, portanto, o que você eventualmente lê aqui, é uma tradução, inevitavelmente falha, no dialeto que escolheu como versão… Alguns nomes próprios, contudo, perderam-se para sempre no arcabouço dos antigos idiomas).

ZND, dizia, era o anjo em forma de imagem e logo me apaixonei. Ela, contudo, ignorava-me e apenas fazia o que era contratada para fazer em minha casa. Doía-me deitar e, desejando-a, ter que dormir sem sentir seu corpo. Proibido por leis imemoriais, o ato de tocar seu corpo por prazer sexual seria rebaixar-me à classe vil dos marginais interestelares, à sujidade dos comuns.

Enfim… todo esse relato é sabido, minha história consta em todos os anagramas e pórticos de minha cidade natal. Um dia, uma noite, sai de minha cama e desci ao quarto de ZND. Preparei minha parte divina, enrubescendo-a, endurecendo-a, tornando-a viril e irresistível até mesmo para ela. Adentrei o cômodo e, entre os chiados de válvulas e motor, presenciei o Dr DeSange, meu salvador e meu destronador, rompendo as fuselagens e rebites de ZND.

Meu martírio não terminaria ali, posto que, vendo meu amor proibido exposto à lascívias diversas, ainda fui obrigado a ouvi-lo sussurrar:

– Comerei seu orifício de descarga, mista suja!

Ataquei-o ali mesmo, despedaçando a ambos, rompendo crânios e costelas, parafusos e fios. A Guarde Electric encontrou-me abraçado aos despojos dela, meu falo em riste e sólido como pedra em minha mão esquerda. Apodreci numa cela pelo pecado do amor entre espécies. Mas apodreci feliz: nunca conseguiram retirar-me a pequena faixa de lítio e zinco que cobria parte do ombro de ZND quando ela aspirava a casa.

Ming

Li este artigo: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ming_(molusco)

A veracidade da informação, dada a fonte, mantém-se, mas não vem ao caso. Muito menos a maneira como se determina a idade de qualquer ser vivo. Obviamente, também, não me interessa determinar a importância de um molusco, conhecido como Ming após ser morto, comparado com qualquer outro molusco de qualquer espécie. É possível, além de tudo, que existam dezenas, centenas, etc, de moluscos mais velhos que não tiveram o desprazer de encontrar a espécie humana. Matar o mais velho ou o mais jovem, só faz sentido para as manchetes.

Surpreende-me, na verdade, dois pontos: a necessidade da ciência (muitas vezes, da religião…) de determinar a origem das coisas como se isso determinasse uma mudança em nossa própria mentalidade, nossa maneira de ver a vida e o mundo. Por mais que se assevere que o estudo dos seres vivos, animais ou vegetais, pode nos contar sobre como eram os oceanos, a temperatura da Terra, se havia mais corais ou mais gelo no planeta, isso em nada nos afeta: morrerremos com ou sem tais conhecimentos e, extinta a espécie (o mais provável…), tudo isso terá sido inútil. Tais estudos, inclusive, se permanecerem nas academias ou na restrição de seus estudiosos, em nada afetarão a vida comum, doméstica, dos diversos ignorantes que, como eu, passeiam sobre a crosta terrestre. O mundo foi o que foi, é o que é e será o que será, com algumas alterações sob nosso controle e outras, não.

Contudo, a vida (ou a morte…) desse molusco modificou-me. Pensei que sou o humano que o retirou de seu ambiente e depois, por um interesse puramente egoístico, abri-o e dilacerei-o em sua estrutura para obter respostas para perguntas desnecessárias. Eu, então, seguro aquele bisturi que rompeu a concha, sob luzes brancas e fortes, em busca de uma nota acadêmica, ou um artigo, ou meu nome citado no jornal. Isso faz-me pensar que, em breve, romperemos a casca óssea ou gelatinosa ou cremosa, de criaturas abissais ou universais e descobriremos, impassíveis, que nada nos mostra além de que a lâmina corta e a morte devora a tudo, deixando-nos, sempre, o vazio dos dias e da ignorância.

O segundo ponto: Ming tinha, em tese, 507 anos. Talvez fosse o Adão de sua espécie, citado numa bíblia oceânica ou, dado a dimensão da história de tais animais, fosse o próprio Messias trazendo, para além de seu povo, uma mensagem de bom senso e amor “aos próximos”.

O talvez, sempre, é mais bonito e poético que a realidade…