INFÂNCIA

 

mao

Meu pai fedia à fezes.

Se fosse à urina, eu consideraria normal. É natural dos idosos urinarem e guardarem, em si e no ambiente em que vivem, um certo cheiro de urina. Mas meu pai não era idoso: tinha 45 anos quando faleceu. Acredito que morreu velho, apesar de tudo.

Mas meu pai fedia à fezes e morreu jovem.

Acho que começou como uma coisa banal: um entupimento na privada.

Lembro-me claramente: eu tinha seis anos e a privada de casa entupiu. Era uma privada de tom esverdeado. Não me lembro de meu pai antes disto. Lembro que eu estava na sala e me deparei com ele agachado na frente do vaso. Empurrava o desentupidor com tanta força que achei que iria quebrar o vaso.

Não falei nada. Meu pai não era de falar comigo e acho que, mesmo antes dos seis anos, eu já havia decidido não falar com ele. Não posso afirmar, mas imagino que tenha sido assim.

Sei que senti o cheiro absurdo das fezes de todos nós da casa e apenas meu pai tentando resolver o problema do entupimento. Minha mãe fazia o que fazem todas as mães: reclamava e exigia solução.

Não vou falar da minha mãe.

Fiquei parado no corredor, olhando meu pai agachado, mexendo no vaso, tentando desentupir as merdas de todos nós.

Não conseguiu.

Moramos muitos anos ainda, na mesma casa, e o vaso continuou entupido. Acho que isto também era um retrato do meu pai: tentar resolver as coisas e não conseguir. E ele, coitado, tentou. Dias e dias seguidos, atirou ácido, empurrou o desentupidor, jogou coisas que dariam pra fazer uma bomba. Até coca-cola.

E nada desentupia o desgraçado do vaso.

Naquele tempo, a cidade era pequena, não havia dinheiro ou serviços de desentupimento. Se fosse eu, na minha idade hoje, teria quebrado a privada, cavado um buraco no quintal, qualquer outra coisa, menos ficar dias e dias tentando desentupir uma privada, sem solução.

Com os dias, a aceitação foi maior que a necessidade. A merda de todos nós não fedia tanto quanto nos primeiros dias. Tornou-se um odor natural na casa, algo como ter um cachorro que mija no tapete: todos os moradores se acostumam, apenas as visitas estranham.

Mas lembro-me que meu pai fedia à merda. E foi nos primeiros dias que este cheiro dele tomou posse de minhas memórias olfativas. Lembro que, todas as vezes que a mão dele se aproximava, eu sentia asco, com temor de que me tocasse. Mas meu pai não era um porco: ele lavava as mãos, jogava até gasolina, esfregava fumo de rolo.

Eram mãos limpas as do meu pai. Mesmo assim, eu chegava perto dele e sentia cheiro de merda.

Meu pai me bateu naquele dia, no primeiro dia em que tentava desentupir o vaso. Por quê?

Porque eu ri. Ri como um garoto de seis anos que vê o pai agachado no vaso, com a mão enfiada no meio da merda.

Meu pai já tinha me batido antes. Não me lembro. Minha mãe me contou, muitos anos depois.

Mas não vou falar da minha mãe.

A única vez que lembro do meu pai ter me batido, foi naquele dia em que ele estava com a mão atolada na merda.

Eu comecei a rir, ele me olhou no corredor. E levantou-se e, sem dizer uma só palavra, me acertou com força a mão direita. Meu nariz sangrou. Disto me lembro. Não perguntei o motivo. Acho que já não conversava mais com ele, neste tempo. Mas me lembro que meu nariz sangrava e que meu rosto ficou todo sujo de merda.

Sangue e merda.

Não lembro de ter chorado.

Não lembro da última vez em que chorei.

Não sei o que aconteceu depois, também. Não sei se lavei meu rosto, se minha mãe o lavou. Não lembro.

O que lembro é que, toda vez que meu pai, num de seus momentos de fé ou de esperança na redenção, se aproximava de mim, eu sentia que ele fedia à merda. À merda de todos nós, da minha antiga casa.

Não sei se poderia dizer que meu pai era mau. Ele era o que era capaz de ser, nada a menos, nada a mais. Pra ele, o que era certo, era certo; o errado, errado; sem zonas cinzas.

Eu, com seis anos, rir dele com a mão enfiada na merda, era errado, imagino.

Não tenho raiva do meu pai. Acho que nunca cheguei a ter. Não me lembro de ter recebido dele qualquer coisa a mais que o cheiro de merda e sangue no meu rosto.

Mas não me tornei ingrato.

Cuidei dele, durante a doença, levei-o às consultas, aos exames.

Toda vez, ao chegar em casa, tinha que lavar meu carro. O cheiro de merda era insuportável. Mas não o abandonei. Fui com minha mãe e ele à todos os lugares em que era preciso ir. Não me tornei um filho ruim, acho.

O câncer o comia por dentro e teve horas em que senti pena do velho. Não, meu pai não era velho. Tinha quarenta e cinco quando morreu.

O câncer o comeu de dentro pra fora: seu esfíncter, seu cólon, seus intestinos.

Usava fraldas, dia e noite, e era como se não usasse. Banhava-se, envergonhado, várias e várias vezes ao dia. E continuava fedendo à merda.

Na última vez que o vi, ele estava deitado na cama do hospital.

Não, meu pai não morreu ali, na minha frente, implorando perdão (de quê, meu pai?) ou decidindo o futuro da família.

Lembro que falou, recordando, que já havíamos morado numa casa em que, por diversas vezes, tentou desentupir o vaso e não conseguiu. Lembro que contava e ria, ria, aquele riso choco, aquele riso moribundo, de quem não tem ar sequer pra respirar. E contava que tentou todos os métodos e meios e dicas e truques e não conseguiu desentupir o vaso.

E lembro que ria.

Em nenhum momento, falou que me bateu, que tivesse me batido uma vez sequer na vida.

Eu não ri.

Ouvi-o. Depois de rir e eu assentir com a cabeça que me lembrava da casa, ele contou que encontrou, há poucos dias, um colega de serviço que veio a morar na mesma casa. E que resolveu o problema no dia em que se mudou.

E ria.

Eu não ri.

E contou que o colega disse que, simplesmente, tirou os parafusos da lateral e retirou o vaso. No fundo, na curva do cano, encontrou um tipo de saboneteira, dificultando a saída da dejetos.

Naquele tempo, não sabíamos de nada disto. Por mim, a água do fundo do vaso era perene; retirar o vaso, impossível. Meu pai devia pensar assim, mas não com estas palavras.

E meu pai, morrendo, fedendo à merda, lembrava-se e ria que havia morado anos e anos numa casa fedendo à merda porque não sabia que podia retirar o vaso.

E ria.

Eu não ri.

E meu pai não falou que me bateu no rosto, com a mão suja de merda e que meu nariz havia sangrado.

Não perguntei nada. Não falava mais com meu pai. Apenas o ouvia e, às vezes, respondia. Isto, considero, não é falar com alguém.

E foi a última vez que o vi. Na cama, sentindo seu cheiro de merda, ele falando sobre merda e rindo.

Toda vida dele deve ter sido isto: precisar resolver as coisas e não conseguir.

Morreu dias depois.

E não consigo pensar nele sem me lembrar do cheiro de merda da nossa casa, o cheiro de merda das suas mãos, o cheiro de merda dele mesmo.

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Decisão

audiencia

O Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz Teófilo Nogueira já andava pelas tampas. Há meia hora tentava por fim à audiência conciliatória entre um consumidor e o dono de um bar. Fosse uma demanda por terras, uma causa de herança, a acusação de um homicídio intrafamiliar, talvez ainda tivesse paciência pra escutar, mas dívida de cachaça era o cúmulo do absurdo para o magistrado.

O caso é que as partes não entravam num acordo. O dono do bar informava o valor de oitocentos e cinquenta reais, mas não tinha recibos assinados, só um monte de folhas soltas com o nome do cliente e os valores de cada consumo diário. O cliente alegava que não tinha consumido aquilo tudo e que nem era cliente do local há mais de seis meses. E o dono do bar alegava que, de fato, foi só ele cobrar amigavelmente um pouco da quantia devida que o cliente já deu um jeito de beber em outro estabelecimento.

O juiz escutava a ladainha batendo a caneta sobre os autos. Olhava para o promotor que fingia nem estar presente, enquanto mexia no celular. Anos e anos de estudo, OAB, pós, mestrado, meses e meses de estudo para conseguir passar no concurso de magistrado, anos de atuação em varas criminais e, num átimo do destino, vê sua carreira ser coroada numa audiência de conciliação sobre conta de boteco, dívidas de vendedoras Avon e atritos por conta de galhos de árvores passando limites de quintal. Era o ápice do fracasso em uma carreira bem sucedida.

O defensor público, que atendia o dono do estabelecimento, transpirava, deixando a gola da camisa em cores fortes. Pensava na fama de durão do magistrado e sequer havia ousado falar qualquer coisa, muito menos agora, ao vê-lo bater insistentemente a caneta sobre os autos: a decisão do juiz também poderia coroar com fracasso a sua própria carreira mal iniciada.

O dono do bar continuava a insistir em receber o valor total. O cliente continuava a insistir em pagar metade do valor e, ainda assim, com fortes ressalvas, visto a “desonestidade” do outro em nunca colher uma assinatura, podendo ter anotado o que bem entendesse. A audiência era um mundo à parte e, naquela sala fechada, afora o tamborilar da caneta do ilustre meritíssimo juiz, só ouviam-se os argumentos de querelante e querelado. O ventilador fazia girar sombras tênues sobre todos e a luz branca parecia querer transportar o nobre juiz para um universo de tédio e sonhos.

Só que o destino é bicho salafrário e Deus bambeia a rédea pra cavalo ruim e o devedor, em momento de fúria e certeza estúpida, bradou, num desrespeito total ao ambiente:

— Pois não é questão de dinheiro que este valor eu lhe dou de esmola…

Foi como acordar.

O juiz pigarreou, suspendeu a caneta e olhou para o defensor, para a moça que digitava, para o promotor que parou de mexer no celular. E mandou escrever nos autos: “que o querelado, mediante uma caridade do espírito pouco vista na atualidade, de bom grado e perante as testemunhas neste juízo, declarou a doação pura e integral do valor de oitocentos e cinquenta reais, ausente de qualquer causa anterior, para o querelante…” e olhando para o devedor boquiaberto, apontou-lhe a caneta como se fosse a espada de Salomão e, sério como matuto em dia de missa, arrematou:

— E a dívida? O senhor pretende parcelar ou quitar à vista?

MARCOS SILVA

 

Ser ateu

ateu

A coisa mais estranha em se admitir ateu é a necessidade de se explicar, a todo instante, como é viver sem Deus. Ser ateu é como respirar: você faz o que seu biológico manda. Tenho certeza que os que creem podem usar a mesma analogia, então, somos todos normais no final das contas.

O problema todo é que os ateus conseguem ser mais idiotas e chatos que os religiosos idiotas e chatos. A maior chatice de um ateu é ficar tentando provar que Deus não existe. Não é muito diferente dos que têm fé e tentam provar que Deus existe. Um bando de chatos…

Eu sou um ateu que toda hora está falando “Deus te ajude”, “puta que pariu, Deus, tô fodido”; “Deus escreve certo porque estudou direito”. Quer dizer que acredito em Deus? Não. Mas não é porque falo que adoro o ser humano que acredito nisto também…

Ao pensar no que sou, acho que me tornei ateu não por deixar de acreditar em Deus: acho que deixei foi de acreditar em tudo que me contavam. Alguém tem que desistir do Papai Noel, afinal. E, claro, tudo isto culpa dos chatos. Chato é a prova definitiva de que o nome da nossa espécie foi trocado com a de outra: não dá pra comparar a chatice de um ser humano chato com um inseto (acabei de aprender que o dito se chama Phthirus pubis… até o nome dava mais certo pra bicho gente: complicado e besta…) que passeia em partes íntimas.

Domingo de manhã e acontece o clássico nacional da chatice: testemunhas de Jeová. Afora as piadas (chatas…) de que eu nunca vi Ele aprontando nada pra ter que testemunhar a favor, a gente ainda tem que passear no terreno pantanoso de ser sincero ou só despachar o povo mesmo. Resolvi ser sincero:

— Bom dia, senhor. O senhor tem alguns minutinhos? Gostaria de provar a existência de Deus através de um pequeno e colorido impresso gutemberguiano…

— Bom dia, senhora. Até que eu aceito o impresso. Sou fã do Gutemberg. Mas sou ateu…

— Err…

— Pois…

— Ah, sim…a gente agradece a sinceridade do senhor… Mas como o senhor acha que será a vida após a morte?

— Provavelmente igual a quando estou dormindo, só que sem os sonhos…

— Err… Mas o senhor acredita que o universo surgiu do nada? Não acredita que uma obra tão grandiosa veio de uma mente também grandiosa?

— Acredito que nada surgiu do nada. E, se for assim, também somos nada…

— Mas existe um grande plano para você, para todos nós, os filhos…

— Nada de teoria de conspiração, senhora… Cadê o panfleto?

Na capa, um desenho de um piquenique no parque.

— O céu vai ser assim?

— Sim, o senhor nos reserva um lugar abençoado, pleno de felicidade ao lado dele.

— Ah, já me senti assim. Mas não lembro direito porque eu estava muito bêbado…

A mulher não sabe se eu falo sério ou se estou zoando. Acho que nem eu sei…

— Bom, senhor. Um bom domingo pro senhor…

— Obrigado. Paz do senhor, irmã…

 

 

MARCOS SILVA

A mulher mais importante

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No meio de tantos desenhos infantis, um chamou-me a atenção. Todos eram rabiscos coloridos em que se percebia uma forma humana, alguns pássaros, uma árvore. O que me chamou a atenção não era muito diferente. No topo da folha, os dados da escola, o nome do aluno e a pergunta: “Desenhe a mulher mais importante da sua vida”. Sem ponto final ou dois pontos.

O que se passa na cabeça de uma criança que se depara com uma pergunta que envolve tanta memória, escolha, sentimentos? Talvez a sinceridade e a graça infantil torne suave pensar e desenhar sobre isto. Mas será que não é uma pergunta muito dolorosa?

Com certa dificuldade, pus-me a pensar e tentar responder quem seria a mulher mais importante da minha vida. Quem seria, também, a mulher mais importante da vida de alguém? Olhando as redes sociais, muitos responderiam rapidamente a depender da data comemorativa. A mãe, a irmã, a esposa, a filha: estas decerto estariam na maior parte das respostas entre os adultos. Mãe, provavelmente, ganharia: todos têm uma. E é a resposta mais fácil de dar e não se arranjar uma discussão ou ter que contar uma história longa demais.

E fora os modelos já citados, qual a mulher mais importante na vida de alguém? A primeira professora, a primeira namorada, a última namorada, as ilusões femininas todas que permeiam a vida de um homem, com suas dores e seus prazeres? Pensar assim, contudo, é pensar de forma decrescente até chegar na menos importante. Muitas são tão importantes quanto uma memória suave que se apaga com o mero respirar.

Parei de pensar e o que me veio foi o sentir. Olhando as respostas, escritas com a letra bonita de professor, uma sensação de solidão e tristeza me invadiu. A solidão de uma criança que, obrigada a permanecer num ambiente escolar, é pressionada a declarar sentimentos, a escolher entre respostas difíceis até mesmo para adultos; uma solidão que na infância ainda não tem nome, mas que a vida vai cuidar de ensinar; uma solidão que vai abraçar nas horas mais festivas, mais inoportunas: a solidão de se estar no meio de muitos e não ser compreendido por ninguém.

A data comemorativa era o dia da mulher e as professoras deram na telha de que a maneira certa de lembrar que as mulheres existem era fazer aquela pergunta capciosa, as crianças desenharem, elas colocarem o nome da mulher mais importante e depois colar os desenhos num grande mural, exposto a todos que ali passavam.

Como esperado, a resposta mais usada, foi “mamãe”; uns três desenhos gritavam “vovó”; e, no meio de cores berrantes, riscos de lápis feitos com força e surrealistas borboletas se enfiando entre cabelos, um garoto pintou a solidão e a tristeza suave de certos afetos ao responder: “babá”.

 

MARCOS SILVA