TIPOS

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Encontrava-me ali parado, sentado, vendo a praça numa tarde qualquer de um dia da semana qualquer, assistindo os atarefados em suas próprias corridas rumo ao nada. O tédio foi interrompido quando ouvi tumulto e gritos de ordens. Virei-me e deparei com alguns policiais abordando um grupo de moradores de rua: os desgraçados deram por estacionar seus corpos em uma estrutura pública que ninguém faz questão de que exista (a estrutura, digo…). Pessoalmente, não havia notado nem a construção e nem os indigestos indigentes. E invisíveis também, pelo visto. Mas os policiais os viram. De certo aquela pintura de pobreza no meio de uma praça onde os bem-aventurados deram de correr pra ter a sensação de estar em contato com a natureza e, de certo, esses mesmos bem aventurados perceberam o destoar daqueles pobres em tal lugar e deram de ligar. Ou, talvez, os guardas estivessem apenas ociosos. Sei que eram uns 8 (os indigentes) e em 3 (os policiais). Mas esse grupo grande não me interessou de imediato, por que logo me vieram, na memória, aquelas cenas de tv  e me virei pro lado.

Contudo um dos policiais viu outros dois mendigos, afastados do grupo maior, deitados no e sob um banco próximo de onde me encontrava, e veio questioná-los. O diálogo desses foi audível. O policial foi falar com o maltrapilho, visivelmente embriagado, que se encontrava deitado na grama sob o banco de cimento, aproveitando sua sombra. Chegou com as ordens decoradas: levante-se, mãos ao alto, essas coisas. Porém,  visto a dificuldade do bêbado em levantar-se, o guarda disse: “tem alguma coisa embaixo dessa sua camisa?” e ouviu que “sim”, e tornou a perguntar “então levanta a camisa devagar…vamos…” (eu fiquei pensando em como se faz algo devagar com alguém exigindo pressa…). O bêbado, conseguiu sentar-se, mantendo a enorme dificuldade de se mover e falou com voz grossa, parecendo que tinha um trovão e um gato dentro da garganta, dizendo: “Sim…eu tenho um negócio embaixo da camisa…”. “Vamos, mostre…”. O bêbado, com sua voz de bebedeira eterna, disse: “Tenho o meu corpo…”.

E sorriu levianamente…

Pensei de imediato e de novo naquelas imagens da tv e vi nítido em minha mente o espalhafatoso tapa que por certo o bêbado receberia. Mas vi que, lentamente, o policial começou a esboçar um sorriso e, logo em seguida, não conteve a sonora gargalhada que ressoou alta no meio daquela praça sendo acompanhado pelo maltrapilho maltratado. E ambos gargalharam, mesmo sem se tocarem e ou se conhecerem, no meio daquela tarde de um dia de semana qualquer.

Fui-me embora pensando que talvez esteja vendo muita televisão e esquecendo-me que ainda existe gente, humana, na Terra.

MARCOS SILVA

Imagem: Lee Jeffries - http://leejeffries.500px.com/home
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