RELAÇÃO

quarto-escuro

Nossa relação começou por mero acaso, como todas as relações e seus términos. Ela ainda era muito jovem quando a conheci, uma quase garotinha. Não sei se minha solidão ou a solidão dela (que supus existir…) nos uniu, mas tudo fluiu muito tranquilamente e, à época, não me questionei sobre o que fazia.

Em pouco tempo, de uma visita casual ou outra, ela passou a morar comigo.

Sempre que eu chegava do trabalho, acendia a luz e a encontrava estática, algumas vezes no sofá, outras na cozinha, outras em minha cama. Seus grandes olhos me encaravam e eu sentia o grande vazio em mim.

O tempo foi passando e tivemos nossos problemas. Comecei a perceber que era uma relação de mão única, em que eu oferecia casa, comida, sossego, enquanto ela insistia em agir como se eu fosse o estranho, como se fosse eu a invadir a tranquilidade da casa que lhe pertencia. Por vezes, se assustava com minha presença; noutras, virava os olhos em outra direção e logo se escondia no quarto, ignorando-me.

Sei que o tempo foi passando e ela já não era mais jovem. Ostentava agora um corpo que eu diria gigantesco, com uma barriga que mostrava um volume avassalador. Até sua cor havia mudado – ou minha imaginação me fazia ver assim – e de uma tonalidade marrom dourada, bronzeada, ela adquirira uma cor mais escura, um tom negro como seus sentimentos por mim.

Só posso dizer que o que aconteceu não foi culpa minha.

Fiz tudo que podia por ela. Deixei-a ser como queria, deixei-a ter meu teto, dei a ela tudo que estava ao meu alcance e que me pareceu que ela, um dia, havia precisado. Mas a sensação de vazio que os olhos dela me causavam só aumentava a dificuldade em continuarmos juntos.

No fatídico dia cheguei em casa e, com ódio, quase asco, deparei-me com ela devorando os brigadeiros que minha mãe me enviara no dia anterior. Ela nunca atacara minhas coisas assim, nunca ao menos em minha presença e, mesmo na cama, ela sequer chegava a perturbar meu sono, tão leve eu me sentia ao dormir em sua presença, mesmo que não sentisse seu toque.

Gritei com ela.

Ela fingiu desdém e continuou a devorar o brigadeiro. Senti um desprezo ainda maior dela por mim ao notar que parecia lamber o doce, me encarando com aqueles grandes olhos que um dia me conquistaram.

O furor me dominou.

Avancei furioso, derrubando brigadeiros e ela.

Acertei-a em cheio, tornando ela e o chocolate uma só massa negra com pontos brancos gosmentos, vendo os mesmos pontos na sola do chinelo.

Depois juntei tudo e joguei no lixo, enquanto apertava os dentes, resmungando:

– Maldita barata!

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