Sorriso

Banhup teh photography

A primeira coisa que percebeu nela foi o sorriso. Era uma boca de lábios finos, bem delineados, vermelho escuro. Quando ela abriu-os, brotou a maciez escarlate da língua e ele notou que ela não possuía nenhum dos dentes. A estrutura alva e cálcica que se espera ser vista não brotou naquele rosto: apenas um infinito rubro composto de lábios, gengivas, língua e outras estruturas maleáveis.

É óbvio que ela possuía outras qualidades, porém ele, sempre sério, depois deste primeiro contato e de forma ilógica, ignorou a todos eles. Não se atentou à pele macia e parda, aos olhos cansados de uma noite que durou uma vida inteira, aos braços finos, à bunda roliça e pequena, à honestidade dos gestos e da voz, à segurança nas palavras ditas, à sua vontade de viver para além dos sofrimentos diários. Ele sabia, via, percebia e respeitava todas estas qualidades e também os defeitos indizíveis, de tão minúsculos, daquela mulher magra e miúda, contudo o que hipnotizava, para além das coisas diárias, era a boca.

Aquela boca o fazia ter visões noturnas, impedia o sono e fazia-o sonhar de dia, ter visões secundárias ao que os olhos viam. Na primeira conversa com ela, tentou encarar seus olhos, para depois perceber, envergonhado, que atentava apenas para a boca da mulher que falava da vida com a experiência de uma anciã, mas que não possuía mais de trinta anos. Depois, receoso de que ela se enganasse crendo que observava sua boca com desdém e se intimidasse com sua presença, teve nisto a desculpa perfeita para tornar a encontrá-la: queria mostrar que não ligava para o fato dela não possuir os dentes.

Depois de alguns dias de encontros “casuais”, que inicialmente duravam minutos e depois tornaram-se horas, percebeu que gostava dela. E gostava com amor, com desejo, com vontade. Conversou com ela, que há muito tempo conservava dentro de si a solidão das horas e o silêncio dos verbos, e ela o ouviu. Com os lábios semicerrados, mas reluzindo uma expressão de alegria, calada, ouviu todas as palavras pobres, mas sinceras, que ele despejava com a maciez da ternura e o sabor doce da esperança. Enternecida, abraçou-o forte para logo aproximar sua boca da dele em um beijo que só o amor é capaz de criar.

Ele, com seus cães ao lado em algazarra, sentiu os lábios finos apertando-se contra sua boca e a língua quente deslizando sobre a sua, numa umidade próxima ao prazer do sexo, e a abraçou forte, seus farrapos de roupas se misturando. Deram-se as mãos e seguiram pela rua, rumo a algum lote vago e sossegado, arrastando as pequenas carrocinhas cheias de papelão e outros recicláveis. Por fim, feliz por estar ao lado dela, olhou-a profundo nos olhos enquanto andavam e viu o mais belo sorriso de felicidade que se pode ver no rosto de uma mulher: estampado nos olhos dela o sol refletia o desejo e a esperança da aceitação  em um mundo de aparências e enganos.

MARCOS SILVA

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2 comentários em “Sorriso”

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