SEDE

flor e desejo

A vontade de beijá-la era uma espécie de sede.

Sua boca ansiava aquela boca. Sentia o descontrole do desejo inundando os poros. Dois gomos vermelhos e úmidos, entreabertos, com o frescor de laranjas no amanhecer, reluziam na face dela e ele evitava encarar fixamente aquela escultura denominada lábios. Sua boca sentia sede. E ela sabia: lentamente deslizava a língua úmida sobre os lábios, numa dança crua e suave de seu próprio desejo. Ele desviava o olhar, tentando conter-se. E depois assustava-se ao sentir que, tornando a encará-la, percebia que sua sede era ainda maior. Os pelos dourados do braço, eriçados, davam a impressão que a pele dela o buscava, tentando aproximar seus desejos. Aqueles olhos profundos dela eram labirinto e perdição. E os dele eram caminhantes a percorrer, de modo discreto mas indisfarçável, as dunas e delicadezas dos braços, do colo, das coxas. Cada curva, cada elevação e cada perdição que apenas os caminhos do corpo dela podia esconder e oferecer. E, por alguma graça divina, um dia ele pudera conhecer e caminhar passo a passo cada pedaço daquele mundo de pele. Lembrava-se de outros lábios dela, mais macios e suculentos, mais úmidos, mais quentes. Lábios que, contrassenso, um dia o devoraram e ele se sentiu vivo e completo.

Pensava nestes lábios e, além de sede, sentia também fome.

Fome e sede há dias e horas: era assim que seu desejo incalculável percorria seu corpo.

Se sentia um morto, longe dela, depois que a perdeu.

Encarando-a, neste instante, era um morto que sentia sede e fome.

 

MARCOS SILVA

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