DOMINGO

domingo 1

 

No brilho deste sol de domingo, em que um cadáver descansa sob as sombras das árvores, os olhos úmidos e negros de outro cadáver perscrutam o limitado horizonte.

Dentro destes limites geográficos há pássaros cantando e crianças correndo e velhos arrastando-se na praça que enlaça e engana.

Nos braços destas horas, vítimas das vontades humanas de controle, todos os demônios passeiam entre as frestas abertas das portas, entre as brechas dos olhos semicerrados, entre os dentes que se abrem, dentro dos corpos que caminham.

Sorriso alvo, mas também pálido como os defuntos em suas eternidades, o homem de cabelos curtos busca se encontrar e se perde em seus pensamentos, sucumbindo sob pesos que seu coração não aguenta mais carregar.

Ombros tombados, encarando a manhã de luzes e brilhos e sons, não sabe se está sob o sol para sentir vida ou se é apenas o cadáver que deseja o descanso sob as sombras das árvores.

O homem está só. Como sempre esteve, como sempre estará.

Caminhante entre a multidão, encara os rostos e é impossível se encontrar.

Enxerga os cadáveres nos balanços, em suas caminhadas, em suas obsessões por compras e alimentos e sabe que, no fundo, o único cadáver é ele.

Sabe que está morto.

Mas persegue, insistente, o infinito perdido nos sonhos e nos olhos.

E os dias seguirão…

 

MARCOS SILVA

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5 comentários em “DOMINGO”

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