AMOR

papel

Escorado no balcão do bar, ele dizia, sem destinatário certo:

– Caralho da desgraça!

Então, tomava mais um gole de cerveja, alinhava o guardanapo e o rabiscava com a caneta que, quando não estava sendo usada, era tamborilada sobre a testa. E, às vezes sorrindo, às vezes carrancudo, infalivelmente amassava o papel e o jogava no lixo.

Ao fim do expediente a garçonete, que passava o turno de trabalho sempre ouvindo os xingamentos e sempre o observando em silêncio, fazia a faxina usual e recolhia do cesto os papéis amassados, os ocultando na bolsa.

Em casa, tarde da noite e sozinha, desamassava os papeis – alguns já manchados por restos de bebidas, outros queimados por cigarro ou sujos de cinza. Um a um esticava-os, soprava-os suavemente para secar quando era o caso, depois os colava em um caderno de capa dura abarrotado dos bilhetes destinados ao esquecimento.

Em seguida lia as histórias desenhadas em letras que começavam claras e legíveis, logo tornando-se garatujas, siglas, símbolos. Via nos escritos os amores, as brigas, o sexo, a tristeza, a fé, a solidão.

Via sua mesma história traduzida por um estranho.

Terminado o ritual, abraçava o caderno e chorava até que o cansaço a adormecesse.

Abraçava sua solidão e sonhava, lembrando-se das rimas pobres e bêbadas:

“O amor é rastro de pólvora:
depois de arder o desejo
restam as cinzas que
um dos dois deve varrer.

 

MARCOS SILVA

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