BRIGA

briga

A casa era estrondo de coisas e o sujeito era berros:

– Matei e mato de novo!

E para os vizinhos todos, cabeças miúdas e línguas de tamanduá, parecia que o diabo tinha resolvido varrer a casa com baba, palavrão e enxofre:

– Coisa do caralho! Quero ver fazer de novo, diabo da porra…

Móveis tombavam. Panelas caíam. E ninguém teria coragem de ir perguntar o que acontecia, dado a fama do morador. Resolveram ligar para o posto de polícia. O plantonista, que também era todo o efetivo policial do dia, acordou – mesmo não podendo dormir – e cochilando ouviu na primeira ligação que era uma briga; na segunda, que era uma briga com muita gente; na terceira, que devia ter morrido pelo menos quatro pessoas e, antes que o fim do mundo acontecesse, desligou o telefone, bocejou, ajeitou a farda e o 38, e saiu a pé mesmo, por que a distância é sempre logo ali, em Minas Gerais.

Quando chegou ainda ouviu alguns móveis balançando e o sujeito nervoso aos gritos:

– Desgraça de capeta dos quintos dos infernos! Faz de novo agora!

Quando teve certeza de onde vinham os barulhos, o polícia titubeou. Era praça miúdo, mas nervoso e valente, porém conhecia o morador da casa e sabia que era sujeito igual ele, menos na parte de ser miúdo. Tentou escutar um pouco mais e, de repente, os barulhos cessaram. Pensou se era mesmo uma briga, se de fato alguém morrera, se iria precisar de reforço. Mas era miúdo e nervoso, resmungou um “foda-se”, chegou à porta, segurou o revólver carregado com seis munições mais velhas que o tempo de serviço dele e rezou para que nenhuma falhasse.

Encostou o ouvido na porta e ouviu o resfolegar grosso do homenzarrão lá dentro. Não tinha alternativa: era isto ou ser vexame e falatório pro resto da vida.

Bateu na porta.

O dono da casa chegou suado, parecendo tampa de marmita, e foi logo perguntado o que ele queria ali na casa dele, numa inversão de papéis que deixou o policial meio gago:

– Boa noi-i-i-te!

E explicou, segurando o revólver, o que os vizinhos contaram sobre os barulhos, os gritos, os objetos ao chão.

Nesta hora, o sujeito grande é quem tremeu. Não imaginava que tivesse feito tanto barulho, nem se deu conta que a língua dos vizinhos era maior que a cidade. Pensou, matutou, resolveu: pediu pro polícia entrar, era o remédio.

O polícia entrou, olhou em volta, caçou rápido com os olhos se tinha mais alguém, se tinha um corpo no chão, sangue, pedaços, restos. A arma tremia na mão e ele não entendia a questão.

O grandão falou:

– Vou contar, mas tu não conta pra ninguém?

Pensou se era sábio fazer acordos sobre coisas desconhecidas, mas lembrou que quebrar acordos também não era mais pecado e nem deixava o nome sujo. Aceitou.

– Eu estava quieto, quietinho aqui. Então, senti um troço passear no meu pescoço e um asco tomou conta. Meti a mão no pescoço, com força. Trouxe a mão e uma baba branca junto. Virei rápido e o nojo foi maior ainda quando vi o que era. E aí o cão tomou conta de mim. Fiquei cego. Bati nela com a bota, uma, duas, mil vezes. Meu sangue gelou e na raiva gritei e nem percebi. Respirei pouco antes de tu bater na porta.

O polícia olhou torto, erguendo um olho e abaixando o outro, caçando o diabo de quem o outro falava. O outro, percebendo que teria de mostrar, chamou-o pro meio da sala. E lá, toda macegada no chão, a mancha preta, marrom, amarela, branca. Prestando atenção, o polícia viu uma serrinha miúda, meio que se mexendo ainda, entre um pedaço de asa que parecia de plástico. E entendeu que bicho era.

E não riu porque tinha inteligência pra saber que não era coisa pra fazer com homem de fama de valente e seria humilhante com o morador aquela história sair dali.

Não riu, pensou. E depois olhou sério para o dono da casa e disse:

– A gente conta que era uma cobra…

O outro olhou cúmplice e agradecido, arrematando:

– Pode ser uma urutu?

MARCOS SILVA

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