NOITE

141002266_184655f2d0_m

Um dia me contaram que um cavaleiro, capa escura e chapéu largo, seguia sob a chuva numa noite comprida de não ter mais fim, numa viagem de muitas léguas entre fazendas.

O dia em que fiquei sabendo da história talvez seja tão importante pra mim quanto o dia em que o cavaleiro viveu a história. Situações diversas mas palpitações semelhantes.

Pois…o cavaleiro seguia sua viagem, meio sem pensar em nada, que quem anda sozinho no meio da noite, no cerrado denso, sob chuva, nunca teve muita coisa na cabeça pra pensar mesmo… Ia como vão os cavaleiros, embornal de lado, no trote lento do cavalo que segue a viagem de cabeça baixa e orelha idem, evitando a água nos olhos.

O cavalo, na verdade, é o personagem central da história. Cavalo caramelo, pelagem lisa, sem manchas. Grande e forte, como são os cavalos de único dono, bem cuidado. Cavalo estradeiro, acostumado com longas distâncias e trilhas difíceis.

Pois…tudo ia como devia: barulho de água estalando nas folhas, barulho das patas do animal estalando galhos no chão ou afundando nas poças de água e lama. Num dos trechos do caminho tinha uma pinguela. Tinha uma pinguela num dos trechos do caminho e era uma pinguela feita com duas toras de madeiras que dava passagem sobre um córrego estreito, mas de muita lama, onde corria o risco de um bicho atolar e não poder sair e, como era pouca a passagem de gente por ali, o bicho morria e ninguém ia ficar sabendo, então, fizeram a pinguela. As laterais do mato eram muito densas também, mato e espinho em tudo, pra deixar tudo muito bem explicado.

Óbvio que o cavaleiro havia de passar por aquela pinguela, senão porque citá-la? Chegando lá, aconteceu o acontecido: o cavalo empacou. E este não era cavalo de empacar. Era de fazer birra na hora que se montava nele, mas nunca que havia empacado antes. E o cavalo empacou e deu de fazer pinote, dando a entender que queria voltar ou que nem nunca queria ter chegado ali. O cavaleiro, sujeito bruto, nunca teve paciência pra frescura de gente, quanto mais pra frescura de cavalo. Deixou o bicho dar o primeiro pinote e logo já firmou a rédea e esporeou a barriga do bicho com firmeza. O cavalo, que tinha cara de sonso, mas não era burro, parou de dar pinote na segunda esporeada.

E parado ficou, não indo nem pra frente, nem pra trás, novamente empacado. O cavaleiro puxava daqui e dali, o que era o mesmo que estar abanando as orelhas do Caramelo (que era o nome do cavalo, por sinal…), porque o pescoço do bicho estava duro e fixo no alto da árvore. Mais precisamente nos galhos logo acima do cavaleiro. O cavaleiro era astuto na arte da crendice e, mesmo sem ver nada, logo percebeu que o cavalo não dava chilique mode coisa à toa: haveria de ser uma cascavel, uma coruja agoureira ou outra plasta qualquer de coisa ruim, que só serve pra ocupar espaço no mundo. Firmou as vistas nos galhos da árvore, deixando o chapéu gotejar fios compridos de água por seu rosto.

Se tivesse dado tempo, ele teria rezado o credo e o terço, mas só deu tempo de dizer “benzadeus” entre ver os olhos brilhantes e vermelhos do sujeito no alto do galho e logo sentir que o mesmo sujeito já caía na garupa, abraçando sua cintura e fazendo o pobre do cavalo envergar como galho verde, dobrando-se no chão, com o peso súbito. O cavaleiro sentiu um frio que, mesmo na umidade daquela noite, ainda não tinha sentido.

Era como se as mãos do sujeito tocassem a pele, ignorando a manta de couro e a camisa grossa. Depois de bandear em cima da sela, com os pés já tocando o chão, conseguiu sentir um afrouxo no aperto que o sujeito lhe dava e, no mesmo instante, sentiu que o cavalo se aprumava, voltando a ficar em pé e emendando uma carreira desembestada, ignorando pinguela e lama, atravessando espinhaço e cipó.

Pararam só no destino.

O Caramelo todo alquebrado e o cavaleiro, mudo e trêmulo. Nunca mais se embrenharam por aquelas bandas, principalmente em noites assim. Ele, o cavaleiro, nunca mais deixou o cavalo ser montado novamente, deixando-o descansar no pasto próximo, como ele próprio gostaria de fazer em sua vida, se possível fosse.

Eu escutei a história, entre tantas outras, também numa noite, em meu turno de serviço. Eram dois rapazes que me diziam, um complementando o outro. Dá vontade de dizer que um era o cavalo e o outro o cavaleiro, pelo porte e formas de se expressarem, mas não, eram irmãos, e contavam o que o pai contava que o avó, o cavaleiro, passara muitos anos antes. Contaram a história e foram embora.

Eu, trancado num posto de combustível na saída da cidade, sozinho, comecei a ter aquela impressão arisca que penetra na pele em noites de pensamentos sombrios. Ficar com meus pensamentos era fácil. O difícil era me convencer que tudo que eu sentia e ouvia eram apenas de meus pensamentos.

Depois de mais ou menos uma hora da saída da bendita dupla, comecei a olhar os pastos à frente e a escuridão que a noite impingia. O silêncio era pleno, naquela cidade pequena e sem boêmios. Foi aí que eu ouvi: uma criança chorava, alto e pungente. Senti um arrepio na hora em que ouvi e, quanto mais o choro se tornava certo e próximo, mais aquelas histórias antes ouvidas faziam sentido: o sujeito só, a noite, a paz encerrada, o inexplicado. Não que um choro de criança seja inexplicado, mas um choro de criança, altas horas, num lugar sem casas próximas, um choro que não se tenha ouvido antes, com outras testemunhas próximas, um choro triste na hora em que os pensamentos retornam às cavernas de nossos antepassados, este choro é sempre o prelúdio de algo que não presta, em resumo.

Mas eu, seu moço, eu titubeei não. Avancei pra onde o choro brotava. Respirei fundo e avancei na escuridão, atravessando uns cem metro de distância. Não vou falar que não tremi. Tremi porque quanto mais eu chegava próximo, mas tinha certeza que alguém tinha abandonado um bebê no meio do mato alto. Isto era o que eu queria acreditar, porque meu coração pulava como assombrado, e o que ele pensava era que o demônio me pregava uma peça, querendo só estar à distância de um braço pra me segurar. Me acheguei e, a poucos metros de onde vinham os berros, a desgraça se fez  quando eu me deparei com minha ignorância e com o quanto podemos ser persuadidos, quando queremos e quando é o momento e local certo.

Do meio da braquiária alta, saltaram dois gatos, um macho e uma fêmea decerto, e decerto putos com minha intromissão em seus atos de amor…

MARCOS SILVA

Anúncios

7 comentários em “NOITE”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s