ZÉ DO CAROÇO

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Zé do Caroço tem um apelido que é o próprio nome e o próprio retrato da pessoa. Negro alto, magro e encurvado, braços e pernas longas e um enorme papo no pescoço desenham a criatura. Já o caráter de um homem é uma ponte entre o bem e o mal, uma dança que parece fazer seus passos sobre túmulos. Irmão de muitos outros irmãos, como é normal nestes tempos que se foram e neste interior que nunca teve limites para nada, é um quase bicho, que quando não está enfiado no parco pedaço de terra que os pais lhe ofertaram, terra seca e pedregosa no alto de um morro abandonado, está nos matos, andando sem destino, muita vezes dormindo como um quati, ou perambulando pelas vilas e casas de outros parentes distantes, na procura de um prato de comida e uma tentativa de demonstrar que ainda é bicho gente.

Fala aos berros neste bar que é um mercado e que não tem luzes, apenas velas acesas e o reflexo da luz da lua; onde a poeira recobre os objetos à venda e a bebida para sede é a aguardente; e o banheiro de uso comum é um areial do lado externo.

Hoje bebe como bebe todos os dias em que conseguiu algum dinheiro de parente, de algum furto pouco e sabido, de algum outro mais bêbado que paga para todo mundo.

E conta alto que na casa do alto do morro tem algumas galinhas, mas o que cria mesmo é pedras, porque é o que mais há por ali. No chão que lhe cabe não há cultura a ser plantada que vá adiante neste solo seco e pedregoso. Um de seus irmãos, o mais jovem, divide a propriedade na baixada do morro, onde a terra é mais úmida e o sol mais brando, e conseguiu que em alguns metros da plantação brotasse arroz, que talvez dê algumas sacas.

E vai contando que na última noite, enquanto dormia, escutou barulhos no quintal e pensou em onças comendo as galinhas últimas que possui. Saiu no ímpeto que só os loucos têm, agindo no impulso da inutilidade das coisas. Foi olhar entre o monte de madeira, sob o pé de uma mangueira velha, já sem folhas, um projeto de galinheiro e de preguiça claramente demonstrada. Mexeu daqui e dali e ouviu o barulho do arrastar no chão e ali estava a jiboia grande e lisa e faminta, com o papo tal qual o de Zé do Caroço, a engolir uma de suas últimas penosas, conseguidas a muito custo de pedidos a vizinhos e parentes.

E conta, papo cheio de cachaça, que não pensou duas vezes, porque era por demais desaforo um ladrão daqueles nojentos e lisos abocanhar o tira gosto sagrado dos domingos. E com um pedaço de pau resolveu a delonga, acertando rápido a cabeça do réptil e repetiu o golpe, repetindo repetidas vezes. Mas para ladrão pouco, desgraça maior é benção e contar vitória com pinga é sempre mais vitória.

“Ladeei a safada com pretume nos olhos de ódio da desgraçada nojenta e vendo que era morta e que pro inferno fosse e o cão dos demônios a sacaneasse e pisei e repisei para ver se ainda havia movimento de imundície saindo da boca da feia e cuspi pra garantir a pureza da crua e vendo o volume que a barriga inchaça fazia e logo vi que minha galinha chance ainda tinha e de faca cortei um risco fino na cobra gorda e grande qual belzebu no cio e abri a pança ainda quente e retirei minha galinha, ainda de penas ensopadas de dentro mas morta como a desgraçada nojenta assassina…”

Dosou os olhos no copo à sua frente e bebeu o gole final da cachaça antes de encerrar a história que seria a última sua que seus conhecidos ririam:

“…e tirei minha galinha e a banha da cobra, pra dar castigo adequado ao animal, e com a banha da matadora foi que fiz o escaldado da galinha da minha posse, porque desaforo eu nunca fui de aceitar.”

E os bêbados riram daquela desfaçatez do sem caráter.

Mas Zé do Caroço ficou sério, de repente, e viu que era hora de ir e nem deu tchau, acelerou no passo e foi parar na casa de seu irmão mais moço, o que cuidava do arroz ao lado de seu rancho. Este irmão tem bom coração e pouco conhecimento sobre as coisas da vida, por isto só ele aguenta o irmão, mesmo bêbado, que lhe busca sempre nos momentos de rancho apertado e mesmo para noites em que não tinha mais o que fazer.

Alegando histórias todas, já bêbado, Zé do Caroço pediu pouso, porque o alto do morro, pra criatura maltrapilha e de pernas trôpegas, era de difícil acesso e precisava de lugar pra dormir até que nascesse o dia. O irmão, coração amplo, cedeu-lhe a própria cama, simples como o proprietário, mas ainda uma cama de respeito, porque era ali que dormia com sua esposa, mas que esta não estava em casa hoje, fora visitar a mãe, léguas dali, e voltava só amanhã cedinho.

Zé do Caroço ouvia tudo. Mas já, também, sabia de tudo isto.

Fora ali com o coração negro seu, que era só este que tinha, o resto era careta e histórias. Pensava só pra si que o sucesso do irmão, mais novo, e seu rancho melhor cuidado era obra não do trabalho e do zelo, mas do furto de seu pedaço de chão, dele, Zé do Caroço, melhor pedaço de chão que havia ali, o do arrozal que, bem cuidado e nutrido, ainda assim, daria poucas sacas.

E corações negros não tem sono. Têm prosa, porque gostam de enredar os inocentes. E falou e escutou o irmão até muito tarde, sempre numa tontura fingida que também era constante, até que se deitou na cama do irmão, enquanto este foi ajeitar umas cobertas no chão ali perto, pra passar a noite.

O irmão dormiu. E Zé do Caroço era só olhos abertos naquele escuro de fim de mundo. Aqueles olhos viam no futuro o que o passado não lhe dera. Viam Zé do Caroço com dinheiro pra suas extravagâncias tolas, seus delitos deixados de lado, ele, Zé, dono do arrozal que lhe roubaram tão descaradamente…

E um homem acordado, só, no escuro do mundo e do seu coração, um homem assim não tem limites nem juízo. Zé do Caroço nunca tivera nem sequer com o sol claro…

Levantou-se sorrateiro, deslizou pelo quarto, lento e camuflado, silencioso e escorregadio, do quarto passou para a cozinha e, parecendo usar só o faro e o negrume de seus olhos misturados na noite, localizou a mão de pilão entre as tralhas todas, sem barulho, sem urgência, respiração dosada para não acordar a presa inerte que neste momento devia sonhar com um arrozal banhado e pleno, cobrindo o mundo todo, fruto de suor seu e de sua mulherzinha, magrinha e trabalhadeira, que estava longe…

O pesado porrete, de uso vertical usualmente, mas agora horizontalmente aplicado, desceu como tempestade súbita, forte e certeiramente na cabeça do coitado que dormia e dormindo continuará, entretanto banhado em sangue, cabeça deformada, lembranças e vida escorregando pelo chão no líquido vermelho cheio de nodos gordurosos de massa cerebral, agora inútil como é a vida quando acaba. Duas. Três. Quatro vezes a mão de pilão desceu certeira, sempre no mesmo ponto, e só restou um corpo.

Não era mais gente aquilo…

Zé do Caroço não estava bêbado de não saber o que fazia. Também não estava sóbrio, isto é certo. Da noite para o amanhecer ainda tinha muito chão, e uma cachaça ou duas dão sono em qualquer cristão e ele já sabia o que dizer pra cunhada que choraria anos a fio pensando naqueles bandidos maldosos que lhe levaram o marido para sempre pra quê? Pra roubar um pobre coitado que nem dinheiro não tinha, trabalhador que só, bandidos desalmados que só fizeram maltratar o pobre homem assim, deixando-o ali, sem nem esteira direito poder usar pra ser enterrado, enrolado que estava naquele calorão, estes bandidos deste sertão mineiro sem lei, de polícia a cavalo que não chega nem nunca e mesmo quando chega não adianta, não se tem mais nada a fazer, o morto já fede, os parentes já o estão a enterrar, e quem vai entrar no mato pra achar sabe-se lá quem, já que no escuro não se vê nada de rosto…

Zé do Caroço, cansado, mas pleno de certezas, deixou a mão do pilão no chão e foi dormir, porque o dia seria comprido, cheio de assuntações…

E seus dias, na maldade humana que repousa na terra, foram compridos…

MARCOS SILVA

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