CORPO

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Ela tem cicatrizes em todo o corpo.

É uma mulher morena, com cerca de 40 anos, de cabelos castanhos que chegam ao ombro. É magra, de cintura bem definida, seios pequenos, com uma bunda atraente, dentro do jeans. Usa somente calças jeans e camisetas de manga comprida. Sempre. Suas mãos têm rugas e grandes sinais de queimadura, já cicatrizadas. Vista de perfil, seu lado direito é bonito, com uma pele morena, dourada, nariz fino bem delineado e lábios que se encaixam deixando apenas uma fresta central.

Seu perfil do lado esquerdo, porém, tem cicatrizes de um sofrimento difícil de imaginar: seu olho é um pouco encoberto, visto que a pele em volta se esticou o máximo possível e a parte superior apresenta uma dobra de pele. A lateral do lábio tem uma grande ondulação, um tipo de queloide, que faz a boca ficar repuxada para cima. Sua bochecha é cheia de pequenas ondulações de pele e lhe falta cabelo, próximo à testa, mostrando um novo trecho de pele marcada pelo fogo.

É uma mulher simpática que ocupa seus dias entre o trabalho e a família. Quem a vê percebe sempre um bom humor, suave, sempre presente. Conversa com todos, animadamente. Se alguém encara suas cicatrizes, ela ignora, nada dizendo. Sabe que sempre a encaram, que se questionam sobre os danos em seu corpo.

Mas ela gosta de pensar seu corpo como mero casulo: o que importa é que a borboleta está dentro dela, prestes a voar.

À noite deita-se e pensa nas coisas que fez e não fez.

Pensa em como era jovem e bonita, na aparência. Pensa nos namorados que teve, no ex-marido, que a abandonou no meio do tratamento. Perdoou a fraqueza dele. Lembra-se das amigas que tinha no colegial e nunca mais as viu.

De repente, chora um choro profundo, molhando o travesseiro e adormece, suspirando alto.

Todos os dias é assim, sempre.

Seus dias se repetem e ela mostra o mesmo sorriso e disposição, ainda que a noite tenha sido tortuosa e infindável. Chega ao trabalho, brinca, faz o que deve fazer. Vai em casa, almoça, beija o rosto da mãe, abraça a pequena criança que lhe faz sorrir e acreditar que as pessoas são perfeitas.

No trabalho, um novo funcionário é contratado. Ela o recebe bem, diz como as coisas funcionam, o que ele deve fazer, seus horários, coloca-se à disposição se ele precisar de ajuda. Ele agradece.

E encara seus olhos.

Ela não se sente constrangida com o olhar dele e nem ignora que ele a observa. Sabe que ele não olha suas cicatrizes, as marcas que a vida lhe deixou. Ele olha seus olhos, no profundo deles, como se mergulhasse. Pela primeira vez, depois de muito tempo, ela sente o gosto suave da timidez diante do outro. Tenta disfarçar o leve rubor e desatar seu olhar do olhar que a encara. Não consegue e é ele quem pede licença e se retira.

Ela passa o dia observando-o. Nota que ele também a observa. É um rapaz de pele branca, com pelos brancos por todo o braço. Seus cabelos, de um louro muito claro, emolduram um olhar de cor azul como um céu infinito. Não um europeu, alto, garboso, mas o filho de nordestino que, num quase albinismo, mantém características que fazem os parentes sempre questionar a quem puxou. É baixo, de tórax largo, pernas grossa, braços fortes.

No fim do dia, ele pergunta se trabalhou bem, se fez algo errado. Precisa do trabalho, diz. Ela fala para não se preocupar, o trabalho é este mesmo, vai se sair bem. Ele sorri um sorriso sincero e puro. Ela treme e, meio de lado, retribui com um outro sorriso, diferente de todos os que mostra no dia a dia: ela sorri com sinceridade, com inocência, com alegria.

Ela sorri com a borboleta que tem dentro de si.

Em casa sente um arrepio percorrer a espinha quando deita na cama e fica olhando o teto, longo tempo. No escuro ela até esquece das cicatrizes em seu rosto, seus braços, seu corpo inteiro. Desliza a mão pela face desfigurada e seus dedos sentem as ondas das carnes desfiguradas.

Nesta noite ela não chora.

Abraça um travesseiro e aperta outro entre as coxas. Dorme suave e com um leve sorriso no rosto. Sonha.

De manhã ela se olha no espelho e se recorda do rosto que tenta esquecer quando está no escuro. Lembra-se do rapaz que estará, no dia a dia, em seu trabalho. Sem se dar conta do motivo, toma um banho e penteia os cabelos, prendendo-os num rabo de cavalo.

Chegando ao trabalho, ele já está lá. A recebe com um sorriso e a olha com o mesmo olhar penetrante do dia anterior. Pergunta se ela teve uma boa noite, se dormiu bem. E diz que ficou mais bonita com o novo penteado.

Ela agradece.

Assim, em poucos dias, da mistura triste de dor e medo, lembranças e tristezas, suas cicatrizes se tornam meros detalhes, como o ralado no joelho da modelo ou como o corte na mão do operário. Em poucos dias, ele transforma tudo que ela é apenas por saber encará-la sem ver o que está por fora, mas sim a beleza do que está por dentro.

A beleza inexplicável e colorida das borboletas que estão, escondidas, dentro dela.

E no dia em que ele segura sua mão e pede pra que confie nele, neste dia ela descobre que pode sair do casulo e começar a voar.

MARCOS SILVA

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2 comentários em “CORPO”

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