VIAJANTE

 

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A chuva escorria pela parede negra do horizonte, no meio de uma noite que começou no tédio e caminhava para a solidão. Depois de um jantar com colegas de universidade, em que os temas variavam aos extremos e traziam aprendizados rasos, ele aceitou a decisão, que vinha analisando há dias, de se despedir definitivamente da namorada. Disfarçara a intenção de manter o namoro à distância, mas há alguns dias percebera que, ao manter esta ilusão de confiança e durabilidade, apenas criaria correntes que prenderiam sua vida a um país que não reconhecia mais como seu. Viajaria para a Europa, faria seu doutorado, conheceria pessoas: seria feliz.

A namorada, ao vê-lo, abraçou-o com força, ansiosa que estava por sua presença. Ele sequer enroscou os braços em torno dela, mantendo-os na vertical, num pêndulo de movimentos fracos, quase trêmulos. Estava decidido: afastou os braços dela do entorno de si, olhou-a nos olhos e começou a falar. Precisava se despedir definitivamente, os planos entre os dois já não faziam sentido, o futuro de ambos juntos era previsível e doloroso, repleto de irritações. Há tempos não somos os mesmos, falou, calando-se por fim.

Com menos de trinta anos ela já era uma mulher sábia. Encarou-o, calada, enquanto ele dizia tudo que queria dizer. Pensou em murmurar algumas palavras para que ele voltasse a si, para que compreendesse a relação profunda que se criou entre os dois. Respirou fundo e pensou que esta relação profunda era, na verdade, apenas mais um poço fundo em sua vida: um poço que fora cavado dentro dela, por ela mesma, ao aceitar a esperança de que o amor fosse mais que uma nuvem.

 Tornou a abraçá-lo, sem nada dizer, desejou-lhe boa viagem e entrou, trancando a porta e deixando-o a encarar a madeira polida e reluzente.

Neste momento a chuva, como num filme clichê, aumentou, deixando o mundo envolto em cortinas úmidas que dançavam músicas diferentes a cada nova investida do vento.  Entrou no carro e começou a dirigir para o aeroporto. O voo, previsto para às 2h, deixava muito tempo disponível ainda: calculara que teria uma discussão séria e prolongada com a namorada. Este tempo e uma sensação de alívio e liberdade, apesar do sentimento frustrado das energias da discussão não acontecida, tornava a solidão enorme, impossível de ser suportada sozinho.

Por isto, ao avistar a garota sob a chuva forte, pensou em perguntar se precisava de ajuda. Pensou, mas continuou dirigindo, mantendo a velocidade. Após dois quarteirões, reavaliou que ainda tinha tempo e que a chuva o impelia à uma ação de ajuda, de contato com o outro. Foi a desculpa que criou para si mesmo.

Fez o retorno e encontrou a garota no mesmo ponto de ônibus, mas tão molhada quanto se estivesse sob o céu: o vento arremessava a água para todos os lados e, em certos momentos, a chuva parecia vir do solo ao alto. Encostou o carro e, após um sorriso e algumas palavras, a garota aceitou a carona. Não tinha mais que 20 anos e os cabelos com três tons de cores espelhavam uma juventude que há muito ele perdera. Ela deslizou as mãos pelos braços, retirando o excesso de água, mas ele não se importou com o carro, não era seu afinal, apenas alugado. Entre conversas tolas (ele, a viagem; ela, os estudos; ele, conhecer o mundo; ela, chegar em casa e dormir;) ele foi perguntando para onde virar e ela apontava para esquerda querendo dizer direita e eles riam.

Quando notou, estava em um bairro quase ao lado do aeroporto, sendo possível ver as luzes da pista competindo com os clarões que caíam do céu como fetos divinos. A garota pediu para que ele encostasse. Era uma rua escura, mas ele conseguia ver a casa que imaginou ser a dela, a poucos metros. Ela já ajeitava a bolsa para descer, quando ele notou um carro de faróis apagados parado atrás do seu. Não saberia dizer se estava ali antes ou se acabava de chegar.

A garota, agradecendo, se preparava para abrir a porta. Ele, num gesto educado, tombou o corpo para abrir a porta para ela. Seu corpo sentiu o calor que brotava da pele dela, junto com a umidade deixada pela chuva. Ergueu o rosto num movimento de busca e encontrou os olhos pequenos e claros. Erguendo o corpo devagar, buscou ver aqueles olhos mais de perto e aproximou sua boca dos lábios dela.

Seu movimento foi interrompido, quando a chuva entrou no carro e o ventou passeou em suas costas. A mão agarrou sua camisa azul marinho e o arrastou para o lado de fora do carro. Ao se perceber sentado no asfalto molhado, olhou para o alto, tentando encarar o que trazia seu destino, mas viu apenas a chuva entrando em seus olhos. Logo uma ferroada fria pariu uma ducha morna que escorreu de seu pescoço para o ombro esquerdo. Só entendeu o que acontecia quando a terceira facada atravessou sua garganta, o afogando no próprio sangue. Sua voz, agora, era o gorgolejar dos planos desfeitos.

Ajeitando-se no banco do motorista, o homem deslizou as mãos pelos braços e empurrou abaixo o excesso de água. Com o vidro aberto, jogou a faca para fora e lavou os dedos na chuva. Ligou o carro e, ao mesmo tempo, o carro que estava atrás acendeu os faróis, pronto para segui-los. A garota ajeitou-se no banco, enquanto o observava. O novo motorista virou-se para ela e, num avanço feroz, enfiou a língua quente e úmida em sua boca, que sorria.

MARCOS SILVA

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