A CASA

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O problema daquela casa não era ser velha, estar abandonada há muito tempo ou o mato tomar conta de todos seus espaços externos. Pássaros cantavam em seus arredores e, no geral, pardais ruidosos amanheciam numa ladainha interminável e passavam o dia espalhando minúsculos piolhos pelo terreno, infestando qualquer criatura que aparecesse. O problema da casa não era ela, enfim, mas o que se dizia sobre ela: era assombrada.

Contavam os vizinhos, e outros que nem sequer passaram perto da casa, que um antigo morador havia sido morto de modo violento. Não dentro da casa, mas a quarteirões de distância. Dizia-se que o homem morto não era “dos melhores” e seu fim nem foi lamentado e era também esperado que não tivesse morte na placidez do leito, rodeado de netos.

Morto o homem, fica a mulher. E a mulher que ficou era pessoa apagada, triste com o marido, triste sem ele, sem lembranças dela que mereçam ser narradas. Ou melhor, narro o óbvio: tempos depois se juntou com outro, mudou-se e viveu o resto da sua vida, sem ser preciso dizer quem era ou lembrar seu nome.

E vieram novos moradores que sabiam apenas que o antigo morador havia morrido, como morrem outros em outras casas e nem por isto todas as casas do mundo são “assombradas”. Os novos moradores em pouco tempo começaram, porém, a espalhar que a casa era muito velha, que tinha muitos ruídos que deviam vir dos velhos canos ou de ratos sobre a laje.

Numa noite de muito calor a moradora estava só e deixou a janela aberta, confiando nas grades. Dormiu. Antes do dia amanhecer, acordou num sobressalto, ouvindo um rastejar no chão e sentiu um leve puxão no lençol da cama. Não sabia se morria neste exato instante, na solidão de sua cama, ou se pagava o vexame eterno de berrar desesperadamente, despertando a vizinhança e acordar no meio de um sonho. Tentou enxergar no escuro mas desistiu e cobriu todo o rosto com o edredom, antes jogado, inútil, ao seu lado.

Alguns minutos mais de silêncio e de um calor insuportável sob o pano, sentiu que a noite seria muito longa e abafada e, ao ouvir um gemido infantil, por medo ou coragem, num só salto saiu da cama e alcançou o acendedor na parede. Acostumou as vistas à luz e deparou-se com um gato de rua que, por curiosidade ou por ser um pregador de peças, aproveitou a janela aberta e entrou no quarto.

Não se pode dizer se a mulher ou o gato estavam mais temerosos um do outro e foi com custo e com a ajuda de uma vassoura que ela conseguiu que o bichano invasor saísse da casa. No outro dia, contou a história para o marido que depois, no bar, recontou colando partes que não haviam e esquecendo parte ocorridas e quem ouviu recontou alterando mais um pouco e, por fim, muitos moradores contavam somente até a parte em que a mulher se escondia sob o edredom e esperava o dia amanhecer.

Esta foi a parte anedótica que sempre há neste tipo de história.

O que é verdade, porém, é que os cães evitavam o imóvel. Não entravam casa adentro nem mesmo arrastados por coleira. Os que passavam em frente a residência durante a noite, paravam, rosnavam e uivavam até que corriam feitos todos, tudo isto confirmado por vizinhos que viviam com os olhos entre as frestas das janelas.

Quando alguma visita aparecia, notavam a mudança de humor de seus filhos que, sorridentes e brincalhões até chegarem à porta da sala, bastavam olhar para dentro do imóvel e começavam a chorar sem motivo aparente.

Nada disto atrapalhava a vida dos moradores que incomodavam-se mais com os barulhos que, algumas vezes, davam a impressão de ter alguém na cozinha, lavando as louças. No começo consideraram que haviam esquecido a torneira aberta mas, com o fato repetindo-se por várias noites sem que o deslize fosse real, nunca encontrando a água escorrendo, começaram a preferir não se levantar de noite para verificar.

Outras vezes ouviam a máquina de lavar ligada, acordando-os com um urro e depois desligando subitamente. Na primeira vez se levantaram e a máquina não estava ligada na tomada. A geladeira também deixava a luz escapar pelas borrachas, muitas noites impedindo o sono. Retiraram, por fim, a lâmpada interna.

Continuou a acontecer.

Um dia a porta se abriu; em outro, o televisor ligou sozinho; em outro, parecia que alguém se sentava no sofá, ao lado  do morador. Já não dormiam direito e ele precisou começar a trabalhar durante o dia sob pena de divórcio. Sozinha, ela não ficava em casa.

Como tudo que é ruim é ruim, ponto final, mudaram-se. Venderam os móveis da casa, compraram outros, mais velhos, é verdade, mas que não apresentavam os mesmos problemas dos anteriores.

Uns saem, outros entram. E os novos moradores, também um casal, chegaram sem saber de nada das histórias anteriores. Em menos tempo ainda, contudo, começaram a penar com os mesmos fatos, os mesmos problemas nos eletrodomésticos, os mesmos ratos que escapavam de todas as formas de extermínio e com os encanamentos que, trocados, novinhos, seguiam sendo barulhentos, malditos encanadores!

As dúvidas começaram a tornarem-se certezas e a fama da casa confirmada quando, depois de uns três meses na casa, ele acordou com um roçar de mãos nas costas. Pensou ser a mulher que lembrava-se das carícias ausentes como as noites de sono, sempre mal dormidas. De frente para a parede, meio sonolento, sentiu a mão passear suavemente em suas costas, até que percebeu que era muito fria e muito mais pesada do que deveria ser a mão de sua esposa.

Sua veias gelaram e sussurrou o nome da mulher. A mão cessou o toque e seus sentidos se atentaram apenas ao palpitar do seu coração. Súbito foi atingido com um tapa tão forte nas costela do lado esquerdo que rolou, caindo ao chão.

Trêmulo, ao descobrir que não morreria de ataque cardíaco, encarou a esposa dormindo suave.

Acordou e contou à mulher o ocorrido. Ela demorou a entender o que ele dizia e depois, juntos, constataram que ele não tinha marca nenhuma no corpo: nem um hematoma, nem vermelhidão, nada. Mas queixou-se por muitos dias de dor e ardor persistente no local.

Não tornou a usar a cama e perdeu o sono em definitivo. Logo mudaram-se.

Com mais esta história, também os vizinhos já queixavam-se dos ruídos do imóvel. Era sempre o assunto nos momentos em que a vida alheia se mostrava em paz. Não haviam casais se traindo: falemos da casa! Ninguém chegou bêbado, levando uma surra? Casa! Assim o assunto prosseguia e não mais se achavam inquilinos interessados no imóvel que seguia abandonado.

Tomando a feição das coisas feias que eram ditas a seu respeito, a casa deteriorava-se, perdia seus ângulos retos, suas janelas e portas tombavam, encobria-se de mato, de lodo, de sujeira. Crianças começaram a apedrejar a casa, como se apedrejava, antigamente, aos loucos.

História assim costumam ter um final revelador, uma explicação ou uma tragédia. Talvez um indivíduo de coragem que, rezando o credo à meia noite no centro da casa, peito aperto, espantaria demônios para dentro de garrafas. Ou um padre que, com água e latim, benzesse o lugar, devolvendo a paz e sossego. Na vida real, que é muito diferente da ilusão das artes, a casa apenas continuou no mesmo lugar, desabitada por muitos anos, perdendo sua aparência no tempo, até ficar oculta por árvores e mato.

Segue sua história sendo contada por velhos moradores que no tempo dos fatos eram jovens ou crianças. Hoje, sentados em bancos na calçada defronte, respiram os últimos fôlegos de suas vidas, como a casa que, quase sem reboco, em breve sucumbirá ao tempo. No futuro, ninguém saberá do que aconteceu, ninguém contará a história. Ninguém, a não ser a causa de tudo o que aconteceu, que não tem tempo de vida definido, nem se pode dizer se vida tem.

Eu, por mim, digo que nunca nem passei perto da casa. E nem pretendo.

MARCOS SILVA

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