O FIO

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            No começo, ele pensou que era um cisco.
Acordou com a vista direita embaçada, parecendo que o olho raspava contra uma lixa toda vez que girava para ver alguma coisa. Levantou-se achando que era um resto de sono: água resolveria.
Jogou água com uma mão, depois com as duas, enfiou o rosto sob a água, tomou um banho e ficou olhando pra cima, de olhos abertos.
A sensação persistiu.
Era como se areia fina ou um pequeno inseto insistisse em deslizar sobre o globo ocular.
Então, depois de lavar por quase dez minutos; de levantar e abaixar as pálpebras; de esfregar a pele contra o globo; de quase dez minutos apertando o olho pra fugir da fadiga de retirar um cisco que não conseguia localizar o ponto exato, achou que podia estar doente.
Uma conjuntivite, talvez.
Antes das oito, esfregando o olho com água, com uma toalha úmida, com água boricada, com colírio de outros tratamentos, percebeu que não conseguiria trabalhar com o olho assim.
Ligou e explicou que não poderia ir trabalhar, tinha uma consulta agendada.
O oftalmologista fez o de sempre num consultório de oftalmologia e não viu nada de errado. Receitou outro colírio.
Em casa, com o olho olhando o que não via, percebeu que não era um cisco.
Um fio, como um cabelo negro, fazia suaves movimentos em frente à sua visão.
Passou a mão pela lateral do rosto, de trás pra frente, tentando agarrar o fio que sentia estar ali; que via na visão turva; mas que não tinha certeza do que era.
Não teve sucesso.
Passou o dia inteiro, atestado com o nome do colírio na mão, tentando retirar a maldita sensação da frente do olho.
Conversou com um amigo, gozador, que sugeriu que, se era um fio, bastava cortar o cabelo que resolveria.
Depois de duas horas xingando o amigo e esfregando o olho na pia do banheiro, foi ao barbeiro.
Tinha o corte de cabelo moderno, um topete alto na frente. Chegou ao profissional e disse: “zero…”. Custou ser entendido, mas não se explicou. O barbeiro atendeu e fios negros e espessos se espalharam pelo chão.
Ele, olhos fechados, sentiu no fundo do peito que os dias se ajeitariam e que o fio sumiria.
Terminou o corte. Passou a escova de fios longos pela cabeça, pela nuca, pela testa. Pagou.
Na saída sentiu o fio dançando na sua frente.
Apertou o olho, esfregou.
Enfiou a unha.
O fio negro e áspero persistia em seu lugar, parecendo cada vez maior e mais sólido.
Em casa e deitou-se no sofá, o olho direito fechado. Mesmo assim, apesar de um pouco mais suave, a sensação de algo deslizando sobre seu olho se mantinha.
Permaneceu deitado e acabou dormindo com esperança de acordar recuperado.
Despertou e a frustração já invadiu seu peito.
O fio agora era como um verme bailarino, uma maldita odalisca que rebolava e raspava com giletes seu globo ocular.
Voltou ao médico.
Tudo se repetiu e, no exame clínico e mecânico e microscópico e tecnológico, nada se constatou.
Via o que ninguém via. Sentia o inexplicável.
Como último recurso para se eximir, o médico recomendou um terapeuta. Ele socou a mesa, jogou os exames pelo corredor e foi embora.
Em casa, levado por um táxi, seus xingamentos não cessavam e chutava tudo que via pela frente.
Deitou-se no sofá, tentou ver tv (3D exige dois olhos bons e óculos melhores… e quem não os tem?), tomou cinco banhos, lavou o olho um milhão de vezes.
Os dias se repetiram como é a obrigação dos dias.
Deixou de ir trabalhar, mesmo sem atestado.
O olho, na aparência, permanecia normal. Vermelho apenas, de tanto que ele mexia, mas sem outros sinais de doença. Sentia o fio negro dançando em sua frente, pequenas lâminas deslizando sobre o globo, atrapalhando a visão e incomodando incessantemente.
Ficava horas em frente ao espelho, a torneira ligada, encarando-se, mexendo, tentando retirar o fio.
Por mais de uma semana, o mundo lá fora permanecia igual, mas, dentro dele, o que existia, sua única ocupação e inquietação, era o maldito fio negro.
Magro, insone, não suportou mais.
Ajeitou a lâmina.
Deslizou-a sobre a pálpebra inferior, primeiramente (não queria que o sangue, escorrendo, atrapalhasse o trabalho…).
Quando terminou, o olho esquerdo encarou o oco negro e vermelho pegajoso onde antes existia o olho direito, agora dentro da pia.
Com seu único olho, encarou o espelho à sua frente, investigando o resultado cirúrgico.
Quando firmou a visão monocular no espelho sentiu o fio negro iniciar uma nova dança, como um bailado russo, sobre o olho esquerdo.

MARCOS SILVA

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