CARTA

carta

Quando soube do seu desaparecimento imaginei que fosse mais uma das suas fugas, seus desatinos. Não interrompi nem o café e nem o livro que lia.

No dia seguinte, depois de uma noite de pesadelos esquecidos, vi diversas mensagens sobre sua ausência, algumas me perguntando o que eu sabia a respeito.

O que eu soube, algum dia, a seu respeito?

Segui meu dia, minha vida. Fui ao trabalho, voltei pra casa. Esta continuava vazia como meu estômago, como minha alma perambulando pelos cômodos que eu insistia em manter com todas as luzes acesas, insone, como se desse uma festa ou se temesse fantasmas me visitando no escuro das horas.

Dormi por três dias no sofá e neste terceiro amanhecer senti que você não voltaria. Foi a mesma sensação de quando nos separamos mas, agora, eu sequer tinha esperanças de seu retorno.

Imaginei seus amigos, seus pais, seus novos amantes. Imaginei-os chorando, outros rindo, justificando, amaldiçoando. Imaginei e não senti pena nem ódio. Talvez uma certa compreensão de que, finalmente, eu fazia parte de uma nova humanidade, que me compreendia porque viviam as mesmas coisas que eu.

Diante da percepção de que você não mais existia na minha vida, de que era somente um sonho passado e distante, iniciei a despedida de sua presença que se ligava a mim através dos objetos que você deixou. Juntei todas as suas coisas e as coloquei na calçada. Vestidos, pulseiras, pratos, toalhas. Tudo que você deixou e que, por algum tempo, eram a esperança de seu retorno.

Olhei em volta e alguns vizinhos me encaravam. Pensei que estranhassem meu emagrecimento, talvez se perguntassem o motivo de jogar tantas coisas fora. No meio da noite tive a sensação de que falavam dos motivos de um homem jogar os objetos da uma pessoa desaparecida fora. Fiquei com a sensação de estar sendo observado e, com a luz acesa, tornei a dormir no sofá.

Amanhecendo o dia, abri todas as janelas e portas e apaguei as luzes. A sensação de estar sendo vigiado persistia e, ao me virar, deparei com dois olhos grandes e murchos na janela vizinha: a senhora idosa, ao me ver encarando-a, logo fechou a janela, ocultando-se.

Era sábado. O dia em que você regava e podava as plantas. Hoje todas estão mortas e, aqui e ali, persistentes pragas insistem em sobreviver ao corte e ao veneno. Resolvi ocupar meu dia e me livrar de uma vez por todas dos canteiros que cercavam todo o quintal. Cavei fundo o suficiente para retirar as ervas daninhas pela raiz. Mas logo desisti da missão ao me lembrar que, aos sábados, era dia de colocar o lixo para fora.

Dentro da casa, vários sacos (azuis, todos azuis como você sempre exigiu…) amontoavam-se em vários cômodos. Coloquei-os na calçada no exato momento em que o caminhão passava.

A sensação de ser observado continuava e vi dois velhos do outro lado da rua, aos cochichos. Cumprimentei-os com um gesto que foi retribuído secamente e os dois logo voltaram às suas conversas.

Passei direto pelo canteiro esburacado e fui tomar um banho. Desisti totalmente de fazer qualquer coisa útil.

Antes do banho, vi no celular a sua foto na camiseta de sua mãe. Senti um certo asco de te imaginar de volta ao ventre dela, sendo refletida pelo tecido.

Sua ausência não me pesava mais. Você, eu percebia, nunca estivera presente de fato. Não ter você não me era novidade e este pensamento me deu a sensação de estar definitivamente livre de você.

Tomei banho e passei o fim de semana vendo filmes e comendo besteiras como há muito não fazia.

Na manhã de segunda feira, depois de dormir duas noites sem luzes acesas, fui acordado por batidas insistentes no portão. Levantei assustado e, de cuecas, fui atender: o policial já foi me empurrando, me mostrando um pedaço de papel, que não li, e foi entrando com não sei quantos outros policiais.

Reviraram tudo, escavaram o quintal, fuçaram até no ralo do banheiro (onde encontraram muitos fios de cabelo seu…). Gritaram, falaram baixo, fingiram amizade.

Queriam você, queriam que eu soubesse de você, que eu dissesse onde você estava.

Queriam seu corpo. Diziam saber o que eu tinha feito.

O que eu fiz?

Nada. Mas diziam que eu, depois de te matar, tentei ocultar seu corpo no quintal, depois mudei de ideia e despachei as partes no lixo. Diziam que equipes já te procuravam por lá mas que, mesmo que não encontrassem, tinham indícios de sobra.

Juro: quis chorar. Lutei dentro de mim procurando qualquer sombra de você que me trouxesse uma lágrima. E não consegui.

Busquei sua imagem em minha memória e esta imagem não permitia que eu te imaginasse morta, retalhada, partida. Você não poderia se tornar um cadáver nem mesmo em minha memória. A mulher que conheci, com quem me deitei, com quem troquei beijos, em quem minha boca se saciou tantas e tantas vezes, nunca se tornaria um cadáver.

Estou aqui há três meses e é a primeira carta que te escrevo.

 

MARCOS SILVA

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