PARTO

cura

Seguro a faca e corto.
A lâmina, um pouco cega, atravessa meu baixo ventre e sigo o trajeto com calma, sem que meus dedos tremam.
O corte horizontal me parece meio serrilhado e o sangue escorre por entre uma capa breve de gordura e minha mão direita atravessa a abertura quente e úmida.
Fecho os olhos e deixo a sensação permear meu corpo e meu tato é meu faro na procura que realizo.
(Deveria haver outro jeito de encontrar palavras e coisas…)
Tateio até que encontro o que procuro e seguro firme.
Puxo-o.
Encaro o feto de olhos grandes e negros que não se assustam nem se surpreendem.
Deslizo minha mão sobre seu corpo disforme, limpando a sujeira negra que o recobre.
Seus olhos me petrificam quando o reconheço como um igual e vejo seus lábios se moverem, mas não ouço um som sequer.
Percebo que seus dentes são frágeis e moles e me pergunto como conseguia mastigar minhas entranhas, consumir meus dias.
Finalmente sou capaz de nomeá-lo: Vazio.
Habitou em mim por mais tempo que uma existência em gestação.
Jogo-o por trás de meus ombros, ouço seu baque sobre a terra seca, e ignoro-o.

Passo a linha na agulha e torno a me costurar.

Amanhã, quem sabe o que arrancarei de mim?

 

MARCOS SILVA

 

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