A FAZENDA

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            Chegaram à fazenda antes do almoço. Tinham interesse em negociar as terras para criação de gado. Os proprietários não estavam, moravam na cidadezinha próxima, somente alguns peões trabalhavam no pasto. Os dois interessados vinham de terra distante muitas léguas, acampando e pousando pelo caminho, descansando no lombo dos cavalos se preciso. Conversaram com os peões, passearam pelas pastagens, observaram as águas, as árvores, a terra.

Depois do almoço, os peões sestavam e zoavam antes de voltar às tarefas. Uns, moradores da região, contaram que a fazenda era boa, terra de primeira, porém ninguém tinha conseguido se manter por ali. Falavam que era só anoitecer e começava um tormento de barulho, de urro de bicho, uivo de cão, coruja nos galhos aos gritos. Parecia que os bichos acordavam todos e ninguém conseguia dormir. Os moradores, alguns, tinham reclamado também de batidas nas portas e janelas como se fosse visita chamando.

Os dois viajantes ouviam de tudo por estes caminhos de terra mas não tinham interesse em crendices de rincões distantes. Tinham interesse na terra.

Por volta de quatro da tarde, os peões já se arrumavam para voltar a suas casas e os viajantes decidiram que um deles iria à cidade falar com os proprietários, tentar acertar os detalhes do negócio, e o outro ficaria pro caso de algum deles acabar por aparecer.

Assim fizeram.

Um deles se ajeitou e ajeitou suas coisas no cavalo e garantiu ao amigo que voltava antes de escurecer. O outro cuidou de soltar seu animal no pasto, pra descansar. Depois, escorado na porteira, viu os peões e o amigo ladearem o morro, rumo à vila. No horizonte, o sol baixava, tranquilo e cansado. Olhou a grandeza da terra, a beleza do campo. Cuidou de limpar um vão na frente da sede e acendeu uma fogueira assim que o primeiro vento do brejo soprou em seu rosto.

Logo a noite já vinha e pensou que, mesmo que o amigo voltasse, era ali que iriam pousar. Dormiam em qualquer canto, eram acostumados já. E ali era luxo: a  casa colonial, de grossas paredes de barro, sustinha grandes e firmes portas e janelas de madeira; o telhado pendia, recoberto por ramos de chuchus, mas suportaria muita chuva e não teria vento que o mexesse do lugar. Eram dois andares de firmeza e rusticidade que suportaram a natureza desde há muitos anos. Lá dentro, todos os móveis, apesar de carcomidos, mantinham a aparência de uma casa que parecia guardar a presença de seus moradores. Camas, armários, panelas, tapetes: tudo permanecia como que a esperar a presença humana.

A noite veio e o viajante deixou a fogueira acesa do lado de fora, o cavalo amarrado, e entrou. Sentiu o peso da viagem e percebeu, pela primeira vez, a solidão. Era cedo. Ouvia os sapos no brejo e o vento na copa das árvores, na mata de divisa. Com a água da mina que corria no tanque, limpou o suor do corpo com as mãos molhadas. Fez um café quente e mastigou a carne com farinha socada no pilão.

A barriga cheia lhe deu mais sono e, como não tinha hora pro amigo chegar, subiu as escadas de madeira  e foi ao segundo andar procurar um quarto. Jogou o capote de couro em cima do colchão velho e se cobriu com a manta de pano grosso, tecida por sua mãe, há muitos anos, na casa em que um dia foi menino. Olhou o teto escuro e buscou ouvir os barulhos lá de fora ao lembrar-se das histórias dos matutos, mas nem seu cavalo relinchava, nem corujas distantes agouravam.

Talvez tenha dormido.

Sabe que ouviu, ao longe, o gemido longo e persistente da porteira velha de madeira e logo o barulho de cascos contra as pedras que forravam a estrada da fazenda. Pensou que o amigo voltava e continuou deitado. O som dos cascos vinha direto pra casa e ouviu seu próprio cavalo relinchar alto e bater os cascos no chão. Em seguida, ouviu o som do cavaleiro que pulava da sela, as esporas tinirem e outro cavalo ser amarrado no mourão.

Já no rumo da porta da casa, o batido das solas das botas contra a madeira se assemelhava ao limpar da lama antes de entrar. Não viu tempo de chuva, mas pensou no brejão largo que decerto tinha servido de atalho.

“Demorô, cumpádi… Achei que num envinha hôji…”, gritou.

E não recebeu resposta. Nunca poderia dizer porquê, mas ficou deitado, talvez meio inerte no sono e no cansaço. Só arregalou os ouvidos, sempre ouvindo os passos contra a madeira do piso.

“Demorô casdequê, cumpádi?”

Depois o bule do café fez seu tilintar. Chegou a ouvir o café ser derramado na xícara de alumínio.

“Respondi, hôme… tá mouco, é?”

Começa a estranhar a falta de resposta e, numa casa e numa terra estranha e longe da sua, não sabe que tipo de visita chega neste lugar no ermo da noite. O arrepio nas costas é involuntário e ele se agarra ao capote.

 “Cumpádi, oh cumpádi…”

Sem resposta, num tremor que desconhece, acompanha o barulho da xícara sendo encostada. Os passos voltam a bater na madeira do chão e logo ele ouve o toc toc compassado do subir degraus.

 Pra tudo que são gestos e movimentos ele ouve os sons, menos para as respostas de suas perguntas. Os passos não cessam. E um medo que ele nunca pensou conhecer, um medo sem causa certa, invade o peão que não sabe se é o amigo quem sobe as escadas e, logo, está a empurrar a porta do quarto onde está. O ranger das dobradiças faz gemer o mundo inteiro no meio daquela escuridão e ele aperta o capote com a força de quem tenta segurar um novilho.

De olhos fechados, reza a oração que lhe dá coragem de olhar a porta.

Ninguém.

Ninguém na porta.

E a coragem da reza não é suficiente pra ele ficar quieto na cama ao ouvir os passos e escutar a porta do guarda-roupas ser aberta e não ver ninguém. Nem amigo, nem sombra, nem demônio.

Salta fora da cama e sai em disparada. Corre escada abaixo, busca sair, ficar fora da casa. Sob a lua, somente seu cavalo está amarrado, mas ele passa direto, corre pela estrada, busca a porteira.

Já perto dela, antes de estar fora daquelas terras, tropeça e, de medo ou da queda, desmaia.

Sol quente e sacudidelas o acordam e, abrindo os olhos, vê o rosto do amigo que acaba de chegar do pernoite na vila.

MARCOS SILVA

 

 

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