JÃO QUIABO

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            Nasceu João Tertúlio Augusto Chagas. O tempo, sempre atento, viu que o sorriso arteiro e os cabelos finos e claros não condiziam com a seriedade do nome e logo todos o conheciam pelo apelido de menino: Jão Quiabo. Era miúdo e magro  o que condizia com corte de uma letra fazendo justiça ao sujeito.

            Fez arte como todo garoto da idade: pipa, traque no rabo de gato, varada no lombo de sapo, paulada em vespeiro e caixa de abelha. Depois corria como o vento, deixando para trás velhos incautos e amigos recentes que bobeassem. Nunca foi de escola: preferia atolar os pés nos brejos, arrancar sanguessuga grudada nas canelas finas.

        Nunca era pego em nenhuma estripulia e isto fortalecia o apelido. E mesmo que tivessem certeza de que ele era o aprontador, ou ele sempre escapava ou a arte virava apenas motivo de piada depois. Se tinha certeza que viria castigo de vara de pau ou de couro de cinto, enrolava para chegar em casa, esperando que o pai já estivesse dormindo. A mãe, ao ouvir os pés descalços e sujos do filho a entrar em casa, levantava-se, apiedando-se, o colocava a dormir, sem fazer barulho, como uma cúmplice dos pecados aprontados. E, se não conseguia fugir do pai, se a arte era das que sabia que o velho ficaria acordado até o mundo acabar, esperando-o,  enfiava jornais aos montes dentro das calças para amaciar as vergadas que receberia na bunda e nas coxas. Cresceu magro e cheio de cicatrizes, mas cresceu feliz, sempre rindo de tudo e pra tudo.

           Jovenzinho, arrumou uma namorada. Feia como ele: magrinha, cabelos loiros ralos e pernas arqueadas, ao estilo dos que, desde pequenos, montam cavalos. Era sua primeira namorada e o que ele achava bonito nela era a cicatriz funda que descia da narina esquerda até o lábio superior. Ganhou a cicatriz do pai que, numa das muitas bebedeiras, jogou um prato contra a mãe, mas atingiu a garotinha de seis anos. O sinal dos dez pontos e uma infelicidade palpável perduraram nos olhos castanhos que ela insistia em manter sempre semicerrados, como se o mundo fosse grande demais pra ser visto com eles abertos ou bonito demais pra deixar de ser visto. E nunca sorria.

          De mãos dadas, começaram o caminho do amor. Namoraram na praça da igreja, escreveram iniciais (ela escreveu…) no tronco da árvore, sentaram na beira da lagoa e viram o pulo dos peixes. Ela via nele a inocência e a alegria que nunca teve. Ele enxergava nela um sorriso escondido, nunca visto por ninguém. E um dia casaram-se, que é o nome da gaiola onde se aprisiona o amor.

            E um dia brigaram, que é o nome do amor quando quer mais. E ela disse que não queria mais vê-lo e ele disse que ela era uma ingrata e ele é que não voltava mesmo.

            E Jão Quiabo saiu de casa. E caminhou em volta da lagoa, visitou a árvore com as iniciais, sentou no banco da praça. E chorou escondido até de si mesmo enquanto via as estrelas azuladas no céu frio. E andou até chegar no brejo que brincava quando era pequeno.

          Chegou em casa quase madrugada, descalço e com os pés sujos de lama. Entrou devagar, mas não era medo de apanhar do pai como quando criança, mas zelo em não acordar a mulher.

           Ela cochilava no sofá e, ao sentir a presença dele, acordou. Olhou-o e a seus pés sujos e viu suas calças enroladas até o joelho. E perguntou por onde ele tinha andado.

            – Fui voltar a ser menino. E quem sabe conhecer seu sorriso…

        Ela, sentada no sofá, sentiu a lágrima escorrer pela face sonolenta e banhar a cicatriz no lábio, e sua boca sentiu o já conhecido gosto salgado. E, sem que pudesse evitar, mostrou os dentes brancos que eram mais bonitos que o luar da madrugada.

            Então, como as duas crianças que um dia foram, abraçaram-se e dormiram no sofá, na inocência tardia dos que vivem, que é quando o amor, de fato, se faz.

 

MARCOS SILVA

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